Nokia e IA: como a fabricante de celulares renasceu nos data centers
A finlandesa Nokia viu suas ações subirem 150% em 12 meses ao se tornar peça-chave na infraestrutura de data centers de IA. Entenda o que mudou.
A Nokia que você conhecia já não existe
Para quem cresceu nos anos 2000, Nokia era sinônimo de celular indestrutível. O 3310 virou meme, o Snake virou nostalgia, e a marca finlandesa dominou o mercado global de telefonia móvel por mais de uma década. Depois veio o iPhone, o Android, e a Nokia perdeu relevância tão rápido quanto havia conquistado.
Mas empresas centenárias não desaparecem com facilidade. Fundada em 1865, a Nokia está em sua segunda encarnação, agora como fornecedora de soluções de rede para data centers voltados à inteligência artificial. E os números mostram que a reinvenção está funcionando: as ações subiram cerca de 150% nos últimos 12 meses na Bolsa de Helsinki, mais que o dobro da média de 68,5% do setor de comunicações sem fio no mesmo período.
O caso da Nokia é um estudo interessante sobre como empresas de tecnologia legada podem se reposicionar quando identificam o ciclo certo. E o ciclo, agora, é o da infraestrutura de IA.
O que a Nokia faz nos bastidores da IA
A empresa produz hardware e software que funcionam como a camada de conectividade dentro dos data centers. Para simplificar: se os cabos de fibra ótica são a estrada, os produtos da Nokia são o sistema de direcionamento que garante que os dados cheguem ao destino correto, no tempo certo e na escala necessária.
Esse trabalho é menos glamouroso do que treinar modelos de linguagem ou criar assistentes virtuais, mas é absolutamente crítico. Sem redes óticas de alta performance, data centers de IA simplesmente não escalam. Companhias como OpenAI, Meta e Alphabet dependem dessa infraestrutura para processar volumes de dados que crescem exponencialmente a cada trimestre.
“Os produtos da empresa são a espinha dorsal da economia de IA,” afirmou Justin Hotard, CEO da Nokia, em comunicado à imprensa. Pode soar como autopromoção corporativa, mas o mercado parece concordar.
A aquisição que mudou o jogo
A guinada estratégica começou em 2024, sob o comando do então CEO Pekka Lundmark. A jogada decisiva foi a compra da Infinera, fabricante americana de tecnologia de rede ótica, que produz lasers, receptores e chips especializados no transporte de dados. O preço: 2,3 bilhões de dólares.
O impacto foi imediato. A participação de mercado da Nokia no segmento americano de redes óticas saltou de 6,3% para 27,3% em 2025. Em um mercado onde escala e presença geográfica determinam contratos com hyperscalers, essa movimentação colocou a finlandesa em posição privilegiada.
A aquisição segue um padrão que analistas do mercado financeiro têm observado com frequência: empresas que compraram ativos estratégicos de infraestrutura antes do pico de demanda por IA colheram retornos desproporcionais. A Infinera era uma dessas oportunidades, e a Nokia aproveitou antes que os preços subissem.
O CEO que veio da Intel e trouxe o Vale do Silício
Se a aquisição da Infinera foi o alicerce, a chegada de Justin Hotard como CEO em 2025 foi o catalisador. Hotard não é um executivo tradicional de telecomunicações. Ele liderava os setores de data center e IA da Intel antes de assumir a Nokia, o que lhe deu credibilidade instantânea com o ecossistema americano de tecnologia.
Sua primeira decisão relevante foi recrutar executivos veteranos do Vale do Silício para expandir o braço de infraestrutura de IA da companhia. A estratégia rendeu validação concreta: em outubro do ano passado, a Nvidia comprou 2,9% da Nokia por 1 bilhão de dólares.
Quando a maior empresa de chips de IA do mundo coloca dinheiro em uma companhia de redes, o sinal é claro. A Nvidia entende que o gargalo da IA não está mais apenas nos GPUs, mas na capacidade de mover dados dentro dos data centers. A Nokia, com sua expertise em redes óticas, resolve exatamente esse problema.
Essa dinâmica reflete o que temos acompanhado em análises sobre o ecossistema da Nvidia: a cadeia de valor da inteligência artificial está se expandindo para muito além dos chips, beneficiando fornecedores de infraestrutura complementar.
Laboratório em Sunnyvale e o ecossistema de parceiros
Em 2025, a Nokia inaugurou um laboratório de inovação em Sunnyvale, na Califórnia, dedicado ao desenvolvimento de tecnologias de rede nativas em IA. A escolha do endereço não é coincidência. Estar no coração do Vale do Silício permite acesso direto aos clientes e parceiros que definem o ritmo do setor.
O laboratório conta com apoio de nomes relevantes: AMD, Lenovo, Supermicro e outras empresas que atuam no ecossistema de data centers de alto desempenho. A proposta é trabalhar em conjunto para desenvolver e testar soluções de rede otimizadas para cargas de trabalho de IA, um modelo de inovação colaborativa que se tornou padrão entre grandes fornecedores de infraestrutura.
Esse tipo de parceria também sinaliza que a Nokia não pretende competir sozinha. Ao se integrar ao ecossistema existente, a empresa reduz o risco de ser substituída e aumenta o custo de troca para os clientes.
Os números que sustentam a tese
Depois de um primeiro trimestre fiscal forte no segmento de redes óticas, a Nokia quase dobrou sua projeção de crescimento para o ano. A expectativa subiu de uma faixa entre 6% e 8% para algo entre 18% e 20%. Revisão de guidance nessa magnitude é rara e costuma refletir uma mudança estrutural na demanda, não apenas um trimestre pontualmente bom.
Contextualizando: enquanto o setor de telecomunicações tradicional cresce em ritmo de um dígito baixo, a Nokia está se descolando ao apostar em um segmento que cresce a taxas muito superiores. A demanda por capacidade de rede em data centers de IA deve continuar acelerando à medida que mais modelos de linguagem são treinados, mais serviços de IA são lançados e mais infraestrutura é construída para suportar tudo isso.
A valorização de 150% em 12 meses embute uma boa dose de expectativa, é verdade. Mas diferentemente de apostas puramente especulativas, a Nokia tem receita real, contratos com grandes clientes e uma participação de mercado que cresceu de forma verificável.
O que isso significa para quem acompanha tecnologia e mercados
O caso da Nokia reforça uma tese que tem se provado repetidamente neste ciclo de IA: nem sempre os maiores vencedores são os nomes óbvios. Enquanto o mercado se concentra em empresas como Nvidia, Microsoft e OpenAI, fornecedores de infraestrutura “invisível” capturam margens significativas com menos concorrência e menos atenção.
Para investidores e profissionais de tecnologia, a lição é olhar para as camadas abaixo da superfície. Quem fornece a rede, quem refrigera os servidores, quem fabrica os componentes de conectividade. É nesses elos da cadeia que frequentemente surgem as oportunidades mais interessantes da economia de IA.
A Nokia não fabrica mais celulares. Mas encontrou algo potencialmente mais lucrativo: ser a infraestrutura que ninguém vê, mas que ninguém pode dispensar.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.