Glossário

Se você utiliza Google, você está treinando a IA deles. Aprenda como sair disso.

Cada busca, e-mail e documento no Google pode alimentar o treinamento de modelos de inteligência artificial. Entenda o mecanismo e veja como desativar essa coleta.

Se você utiliza Google, você está treinando a IA deles. Aprenda como sair disso.

A maioria dos 4,3 bilhões de usuários de produtos Google ignora algo importante: cada busca, cada rascunho no Gmail, cada planilha no Sheets pode servir de insumo para o treinamento de modelos de inteligência artificial generativa. Para quem lida com criptomoedas, dados financeiros e informações sensíveis, entender esse mecanismo deixou de ser opcional.

Se você utiliza Google, você está treinando a IA deles. Aprenda como sair disso. é um alerta sobre a prática do Google de usar dados de interação dos usuários para refinar seus modelos de inteligência artificial, acompanhado de orientações concretas para limitar ou interromper essa coleta.

Como o Google usa seus dados para treinar IA?

O Google coleta sinais de praticamente todos os seus serviços. Quando você pesquisa “melhor exchange de Bitcoin no Brasil”, esse texto e o clique subsequente alimentam algoritmos de ranking e, potencialmente, modelos de linguagem como o Gemini. Segundo a própria política de privacidade do Google, atualizada em 2023, a empresa pode usar “informações publicamente disponíveis” e “dados de produtos” para treinar seus sistemas de IA.

Na prática, o fluxo funciona assim: dados de interação (queries de busca, conversas no Gemini, textos digitados no Google Docs) são coletados, anonimizados em diferentes graus e utilizados para ajustar pesos de redes neurais. O Google AI Overview, recurso que exibe resumos gerados por IA no topo dos resultados de busca, é um exemplo direto desse treinamento em ação. Um relatório da Statista de 2024 estimou que o Google processa mais de 8,5 bilhões de buscas por dia. É um volume colossal de dados comportamentais.

Aprenda como sair disso: o passo a passo

Sair completamente é difícil. Reduzir a exposição, não. Veja as etapas mais relevantes:

  1. Desative o histórico de atividades: acesse myactivity.google.com, clique em “Atividade na Web e de apps” e pause a coleta. Isso impede que novas buscas e interações sejam vinculadas ao seu perfil.
  2. Desligue o AI training toggle: nas configurações do Gemini (antigo Bard), existe a opção de impedir que suas conversas sejam usadas para melhorar produtos de IA. Vá em Configurações > Atividade no Gemini Apps e desative.
  3. Revise o Google Workspace: se você usa Google Docs, Sheets ou Gmail para trabalho, as configurações de administrador do Workspace permitem limitar o uso de dados para treinamento de IA. Empresas brasileiras que lidam com dados financeiros devem prestar atenção especial a esse ponto.
  4. Considere alternativas: buscadores como Brave Search e DuckDuckGo não rastreiam consultas. Para e-mail, o Proton Mail oferece criptografia ponta a ponta. Para armazenamento, o Tresorit aplica criptografia de conhecimento zero.
  5. Use extensões de bloqueio: ferramentas como uBlock Origin e Privacy Badger reduzem a quantidade de dados enviados a servidores do Google durante navegação comum.

Por que isso importa no Brasil?

O Brasil é o quarto maior mercado do Google em número de usuários, atrás de Índia, Estados Unidos e Indonésia. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2020, exige consentimento explícito para tratamento de dados pessoais, mas a aplicação prática enfrenta obstáculos. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu, em 2023, um processo de fiscalização sobre o uso de dados pessoais para treinamento de IA por big techs, mas até o momento não houve sanção definitiva contra o Google.

Para quem opera no mercado de criptoativos, o risco é duplo. Primeiro, buscas por termos como “declaração de Bitcoin no Imposto de Renda” ou “melhor carteira de autocustódia” revelam perfil financeiro. Segundo, documentos armazenados no Google Drive com chaves privadas, seeds ou relatórios de portfólio podem, em tese, ser processados por sistemas automatizados. A Receita Federal já utiliza cruzamento de dados digitais para fiscalizar contribuintes que negociam cripto, e vazamentos de dados pessoais ampliam a superfície de ataque.

Na cobertura do BlockTrends, temos observado um movimento crescente de investidores brasileiros migrando para soluções de e-mail e armazenamento criptografados, especialmente após os grandes vazamentos de dados que atingiram órgãos públicos nos últimos anos. Não se trata de paranoia. Trata-se de higiene digital básica.

“Modo anônimo resolve” — mito desfeito

Muita gente acredita que o modo de navegação anônima do Chrome impede o rastreamento. Não impede. O próprio Google enfrentou uma ação coletiva nos Estados Unidos (Brown v. Google, 2020) na qual foi acusado de coletar dados mesmo no modo incógnito. O acordo preliminar, anunciado em 2024, resultou na exigência de que o Google exclua bilhões de registros de navegação coletados indevidamente.

O modo anônimo evita que o histórico fique salvo no dispositivo local. Só isso. O IP, os cookies de terceiros e as queries de busca continuam visíveis para o Google, para o provedor de internet e para qualquer intermediário na rede. Para privacidade real, é preciso combinar VPN, buscador alternativo e navegador focado em privacidade, como o Brave ou o Tor Browser.

Se você utiliza Google, você está treinando a IA deles: e agora?

O ponto central não é demonizar o Google. Seus produtos são poderosos e, em muitos casos, gratuitos justamente porque os dados dos usuários financiam o ecossistema. A questão é consciência. Saber que cada interação gera valor para modelos de IA permite tomar decisões informadas sobre o que compartilhar, onde armazenar e quais alternativas adotar. Num mercado onde a soberania sobre chaves privadas já é princípio fundamental, estender essa mentalidade para dados pessoais é o próximo passo lógico.

Leia também: O que é autocustódia de criptomoedas · Como declarar Bitcoin no Imposto de Renda

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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