Criptomoedas

Trump lucra US$ 1,4 bi com cripto enquanto mercado afunda

Relatório de ética do governo americano revela que presidente faturou com memecoin, WLFI e stablecoin USD1. Investidores questionam conflito de interesses.

Trump lucra US$ 1,4 bi com cripto enquanto mercado afunda
Foto: Markus Winkler / Unsplash

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou ganhos de US$ 1,4 bilhão ligados a criptomoedas no Relatório Público de Divulgação Financeira do Poder Executivo, documento de 927 páginas publicado pelo Escritório de Ética Governamental dos EUA. O número é expressivo por si só. Mas ganha contornos mais incômodos quando se considera o contexto: boa parte do mercado cripto opera em forte queda, e milhões de investidores de varejo acumulam perdas significativas.

O relatório detalha três fontes principais de receita: US$ 635 milhões em royalties da memecoin homônima, classificada no documento como “Celebration Coins”; cerca de US$ 600 milhões ligados à World Liberty Financial (WLFI); e US$ 196,8 milhões vinculados à Stablecoin Holdco LLC, empresa responsável pela stablecoin USD1.

De onde vem o dinheiro: memecoin, WLFI e USD1

A memecoin TRUMP foi lançada dias antes da posse presidencial, em janeiro. O ativo disparou nas primeiras horas de negociação, mas desde então acumula queda de 97,4% em relação ao topo histórico. Quem comprou no pico e manteve posição viu praticamente todo o capital evaporar. Trump, no entanto, embolsou royalties sobre a emissão e circulação do token, o que explica os US$ 635 milhões declarados mesmo com o colapso do preço.

A World Liberty Financial, plataforma de finanças descentralizadas associada à família Trump, responde por outra fatia bilionária. O projeto levantou centenas de milhões de dólares em vendas de tokens e possui exposição direta a ativos como Bitcoin, Ethereum e USDC, que segundo o relatório estão armazenados em autocustódia.

Por fim, a stablecoin USD1, emitida pela Stablecoin Holdco LLC, adicionou US$ 196,8 milhões ao total. O lançamento de uma stablecoin por um presidente em exercício não tem precedentes e levanta questões regulatórias que ainda não foram respondidas pelas autoridades competentes.

O contraste entre os ganhos do presidente e as perdas do varejo

O que torna esses números politicamente explosivos é o timing. Desde o início do segundo mandato de Trump, o mercado de criptomoedas passou por uma correção severa. Altcoins perderam entre 60% e 90% de valor. Até o Bitcoin, que chegou a superar US$ 100 mil no final do ano passado, operou sob pressão durante boa parte dos últimos meses.

Para investidores de varejo que compraram a narrativa do “presidente pró-cripto”, a frustração é dupla. Primeiro, porque as políticas concretas de desregulamentação ainda não se materializaram na velocidade esperada. Segundo, porque o próprio presidente lucrou bilhões com produtos cripto que ele mesmo promoveu, enquanto o mercado entregava perdas para quem entrou na euforia.

Um comentário que viralizou nas redes sociais resume o sentimento: “O primeiro presidente cripto significa que ele ganha um bilhão de dólares e você perde 90% no mercado de baixa.”

A defesa de Trump e a questão da conta cega

Em declarações à imprensa, Trump se defendeu afirmando que já era rico antes de chegar ao cargo e que suas finanças pessoais são administradas por “grandes instituições” por meio de uma conta cega. Na prática, isso significa que ele alega não tomar decisões diretas sobre seus investimentos enquanto exerce a presidência.

O problema é que a conta cega, como descrita por Trump, não é exatamente o que especialistas em ética governamental consideram adequado. Uma blind trust tradicional exige a venda dos ativos e a transferência do patrimônio para um gestor independente, sem que o político tenha conhecimento das posições. No caso de Trump, os ativos levam seu nome, foram criados por sua equipe e são publicamente identificáveis. Chamar isso de conta cega é, no mínimo, um exercício generoso de linguagem.

Anteriormente, ainda em maio, Trump já havia declarado investimentos em empresas do setor cripto listadas em bolsa, como Strategy, Coinbase, Block, Robinhood e Mara Holdings. Esses valores, porém, eram relativamente modestos quando comparados ao patrimônio total declarado. O salto para US$ 1,4 bilhão em ganhos com cripto mostra que a escala mudou drasticamente.

O que isso significa para o mercado cripto

Do ponto de vista regulatório, a situação cria um precedente delicado. Adversários políticos já argumentam que as políticas pró-cripto do governo foram desenhadas para beneficiar financeiramente o presidente e sua família. Se essa narrativa ganhar tração no Congresso, pode paradoxalmente dificultar a aprovação de marcos regulatórios favoráveis ao setor.

Para o investidor, o episódio reforça uma lição que o mercado de criptomoedas ensina ciclicamente: a distância entre quem emite um token e quem compra depois é onde mora o risco. Royalties e taxas de emissão garantem receita para o criador independentemente do desempenho do ativo no mercado secundário. É o modelo clássico de assimetria, em que o emissor ganha na ida e o comprador assume o risco da volta.

A coleção de NFTs lançada em 2022 já dava pistas dessa estratégia. A memecoin TRUMP escalou o modelo. E a combinação com WLFI e USD1 criou um ecossistema completo de monetização que opera em paralelo ao cargo mais poderoso do mundo.

O relatório de ética está público. Os números estão lá. O debate agora é se um presidente deveria lucrar bilhões com uma classe de ativos sobre a qual tem influência regulatória direta. Para o mercado cripto, que durante anos pediu legitimidade institucional, a ironia é que essa legitimidade chegou, mas trouxe consigo exatamente o tipo de conflito de interesses que o setor dizia querer eliminar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…