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Micron supera US$ 1 tri e vira a nova Nvidia de Wall Street

Fabricante de chips de memória quadruplicou receita com a explosão de demanda por IA e firmou contratos de longo prazo que convenceram analistas.

Micron supera US$ 1 tri e vira a nova Nvidia de Wall Street
Foto: Sergei Starostin / Unsplash

Uma fabricante de chips de memória sediada em Boise, Idaho, que a maioria das pessoas associava a cartões de memória para PCs e smartphones, acaba de ultrapassar brevemente Meta e Tesla em valor de mercado. A Micron Technology fechou a sexta-feira com capitalização próxima de US$ 1,27 trilhão, encostando nos US$ 1,39 trilhão da Meta e nos US$ 1,42 trilhão da Tesla. Na quinta-feira, chegou a superá-las.

A ação subiu mais de 236% apenas no último mês, fechando a US$ 1.132 por papel. Para efeito de comparação, o papel ficou abaixo de US$ 100 durante anos, até meados de 2025. A pergunta que o mercado financeiro tenta responder agora é se essa valorização tem sustentação ou se repete o ciclo clássico de euforia seguida de colapso que historicamente persegue o setor de memória.

O que está por trás da explosão da Micron

A resposta curta é a infraestrutura de inteligência artificial. Um único servidor de IA consome ordens de grandeza mais memória do que um laptop convencional. Isso criou uma escassez severa de chips DRAM, NAND e, sobretudo, de High-Bandwidth Memory (HBM), segmento em que a Micron se posicionou de forma agressiva.

A demanda vem de todas as direções. Nvidia precisa de memória para suas GPUs. Microsoft, Amazon AWS, Google, Meta e Oracle estão construindo data centers em ritmo acelerado. E o efeito cascata atinge fabricantes de PCs como Dell e HP, além de empresas de eletrônicos de consumo. Todo mundo está acumulando estoque de memória, temendo ficar sem.

O fenômeno ganhou até nome no mercado: RAMageddon. E, segundo estimativas de analistas, a escassez deve persistir até 2027. O impacto já aparece no bolso do consumidor final, com encarecimento de produtos da Apple e consoles como o Xbox.

Resultados trimestrais que chocaram o mercado

Os números do terceiro trimestre fiscal da Micron explicam a euforia. A receita quadruplicou na comparação anual, atingindo US$ 41,45 bilhões. O lucro saltou de US$ 1,88 bilhão para US$ 28,2 bilhões no mesmo período. Para o quarto trimestre, a empresa projetou receita entre US$ 49 bilhões e US$ 51 bilhões.

São números que remetem à trajetória da própria Nvidia entre 2023 e 2024, quando a fabricante de GPUs surfou a onda de investimentos em IA e multiplicou seu valor de mercado várias vezes. O paralelo não é coincidência. Wall Street está ativamente buscando a próxima empresa pública capaz de replicar essa performance, e a Micron se encaixou no perfil.

O calcanhar de Aquiles histórico do setor de memória

O problema é que fabricantes de chips de memória convivem com um ciclo brutal. Construir novas fábricas (fabs) leva anos e custa bilhões. Historicamente, quando a capacidade finalmente entra em operação, a demanda já esfriou, criando excesso de oferta e derrubando preços. A Samsung, principal concorrente da Micron, conhece bem esse roteiro.

A diferença que a Micron tenta apresentar ao mercado desta vez é estrutural. A empresa anunciou 16 contratos estratégicos de longo prazo com clientes de data centers, automotivo e consumo. Entre os nomes confirmados estão Nvidia e Anthropic, o laboratório de IA por trás do Claude. A lógica é simples: com receita garantida por contrato, o risco de um ciclo de baixa diminui significativamente.

O analista Sebastien Naji, da William Blair, reforçou a tese em relatório recente. Segundo ele, o crescimento da demanda continua superando a velocidade com que novas salas limpas (cleanrooms) conseguem entrar em operação. Naji manteve recomendação de “outperform” para o papel, destacando a visibilidade de receita proporcionada pelos contratos de longo prazo.

Por que a comparação com a Nvidia faz sentido (e onde ela falha)

A comparação com a Nvidia funciona em alguns aspectos. Ambas são empresas americanas que se tornaram gargalos essenciais na cadeia de suprimentos de IA. Ambas viram seus resultados explodirem com a corrida dos hyperscalers por infraestrutura. E ambas operam em mercados onde a oferta não consegue acompanhar a demanda no curto prazo.

Mas existem diferenças importantes. A Nvidia possui vantagens competitivas em software (CUDA) que criam barreiras de entrada elevadas. Já o mercado de memória é mais comoditizado. Samsung e SK Hynix são concorrentes diretos da Micron em HBM, e a competição tende a se intensificar à medida que as margens atraem mais investimento em capacidade.

Além disso, como analisamos em nossa cobertura sobre o mercado financeiro, valuations que dependem de uma condição temporária de escassez são inerentemente mais frágeis do que aqueles sustentados por vantagens tecnológicas proprietárias. Se a escassez de memória se resolver antes de 2027, o cenário para a Micron muda rapidamente.

O que isso significa para o investidor

A ascensão da Micron reforça uma tese que o mercado vem construindo desde 2023: os beneficiários da revolução de IA não se limitam a quem fabrica GPUs. A cadeia de suprimentos inteira, de chips de memória a infraestrutura elétrica, está sendo reavaliada.

Para quem acompanha o setor de tecnologia, o caso da Micron ilustra como a inteligência artificial está redistribuindo valor em toda a cadeia de semicondutores. Empresas que antes eram vistas como fabricantes de commodities estão se reposicionando como infraestrutura crítica.

O risco, como sempre, está na duração do ciclo. Os 16 contratos de longo prazo são um colchão relevante, mas o histórico do setor de memória sugere cautela. A questão central não é se a Micron está bem posicionada hoje. Isso é inegável. A questão é se a demanda por memória de IA será suficiente para sustentar uma empresa de US$ 1,3 trilhão quando a capacidade da indústria finalmente alcançar a procura.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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