Crise dos chips de memória encarece iPads, Xbox e PCs
Apple e Microsoft subiram preços de iPads, Xbox e MacBooks no mesmo dia. A escassez de chips de memória, agravada pelo boom de IA, não tem previsão de alívio antes de 2028.
Em um intervalo de cinco horas na última quinta-feira, Apple e Microsoft anunciaram reajustes de preços em produtos como iPads, MacBooks e consoles Xbox. O motivo declarado por ambas: uma escassez sem precedentes de chips de memória, alimentada pela corrida global por infraestrutura de inteligência artificial.
O episódio não é um incidente isolado. A Sony já havia aumentado o preço do PlayStation 5 em até 150 dólares em março. O preço de um chip DDR5, padrão em computadores pessoais, multiplicou por mais de quatro vezes no último ano, segundo dados da inSpectrum Tech. O que parecia ser um gargalo temporário se consolidou como uma crise estrutural que vai pesar no bolso do consumidor por mais tempo do que o mercado imaginava.
Por que os chips de memória ficaram tão escassos
A explicação passa por um erro de leitura coletivo da indústria. Após a pandemia de Covid-19, o setor de semicondutores enfrentou um excesso brutal de oferta. Estoques encalharam, margens foram comprimidas e os fabricantes pisaram no freio dos investimentos em expansão de capacidade. Alguns quase não sobreviveram.
Quando o boom de IA generativa explodiu a demanda por processamento e armazenamento em data centers, a indústria foi pega no contrapé. A demanda por chips de memória de alta largura de banda, essenciais para treinar e rodar modelos de inteligência artificial, cresceu em velocidade que nenhum executivo do setor antecipou.
C.C. Wei, presidente-executivo da TSMC, a maior fabricante de chips lógicos avançados do mundo, admitiu publicamente que o desenvolvimento da IA superou todas as expectativas da companhia. Wei contou que chegou a perguntar a Jensen Huang, chefe da Nvidia, por que ele não o havia alertado antes. A resposta: nem a própria Nvidia previu a explosão.
“Ninguém antecipou que isso aconteceria, incluindo a TSMC”, disse Wei a acionistas.
Investimentos bilionários que não resolvem o problema agora
O dinheiro está jorrando para novas fábricas. A TSMC deve investir 56 bilhões de dólares apenas em 2026. A Samsung planeja gastar mais de 73 bilhões de dólares neste ano em expansão e pesquisa, e o Grupo Samsung deve anunciar na próxima segunda-feira um programa de investimentos de 1.000 trilhões de wones (651 bilhões de dólares) ao longo de uma década. Seria o maior plano do tipo na história da Coreia do Sul.
A SK Hynix, segunda maior fabricante de memória do mundo, planeja uma listagem nos Estados Unidos avaliada em 29 bilhões de dólares e pretende dobrar sua capacidade produtiva nos próximos cinco anos. A Micron, terceira do setor, tenta espremer produção adicional das fábricas existentes enquanto constrói novas unidades em Idaho e Nova York.
Mas construir uma fábrica de semicondutores leva de três a cinco anos. A demanda por chips ligados ao ecossistema de IA não vai esperar. Sanjay Mehrotra, presidente-executivo da Micron, afirmou que a disponibilidade de chips pode melhorar em 2028, mas que não há “visibilidade” sobre quando a oferta de fato alcançará a demanda.
O impacto no bolso do consumidor ainda vai piorar
Analistas projetam que os preços dos chips dificilmente cairão antes de 2027, com oferta e demanda permanecendo apertadas até pelo menos 2028. Na prática, isso significa que laptops, smartphones, consoles e tablets continuarão ficando mais caros.
O ritmo de aumento pode desacelerar, mas a direção é uma só: para cima. Fabricantes de dispositivos operam com margens que dependem do custo dos componentes. Quando o preço do chip DDR5 quadruplica em doze meses, a conta chega ao consumidor na ponta.
A situação não se limita à memória. Chips lógicos usados para processamento também estão escassos. A TSMC reconheceu que não conseguirá atender à demanda impulsionada por clientes americanos mesmo com a entrada em operação de novas fábricas nos Estados Unidos nos próximos anos.
O que a crise dos chips revela sobre a economia da IA
O encarecimento de iPads e Xbox é apenas o sintoma mais visível de uma transformação mais profunda. A inteligência artificial está redistribuindo a alocação de semicondutores no planeta. Data centers absorvem fatias cada vez maiores da produção global, e o que sobra para eletrônicos de consumo encolhe.
É uma dinâmica que redefine cadeias de suprimento inteiras e cria vencedores claros: os poucos fabricantes que sobreviveram ao ciclo de baixa agora operam com lucros históricos, ações em alta e filas de clientes desesperados por capacidade.
Para o consumidor comum, a lição prática é direta. Quem planejava trocar de laptop, console ou tablet nos próximos meses vai encontrar preços mais altos do que esperava. E não há sinal de alívio no horizonte próximo. A era do hardware barato, ao menos por enquanto, ficou para trás.
Manish Bhatia, vice-presidente de operações globais da Micron, resumiu a situação com franqueza: “Estamos fazendo tudo o que podemos.” Para quem está na fila do caixa de uma loja de eletrônicos, a frase soa menos como promessa e mais como aviso.