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DuckDuckGo ganha usuários ao rejeitar IA nas buscas

Enquanto Google e Bing integram IA generativa às buscas, DuckDuckGo aposta no caminho oposto e vê tráfego disparar. Entenda a estratégia.

DuckDuckGo ganha usuários ao rejeitar IA nas buscas
Foto: AS Photography / Unsplash

O DuckDuckGo acaba de tornar seu modo de busca sem inteligência artificial o padrão para novos usuários. A decisão vai na contramão de tudo o que Google, Bing e Perplexity estão fazendo. E, pelo que os dados mostram, é exatamente por isso que está funcionando.

O buscador, que construiu sua reputação sobre privacidade, registrou crescimento expressivo de tráfego nos últimos meses. A empresa não divulga números exatos de receita, mas confirmou que o volume de buscas diárias ultrapassou 100 milhões pela primeira vez em 2025, um salto de cerca de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A fadiga da IA nas buscas está criando um mercado

O Google introduziu os AI Overviews em maio de 2024. Desde então, uma parcela crescente de usuários reclama de respostas imprecisas, alucinações da IA e da dificuldade de encontrar links tradicionais. Um levantamento da plataforma SparkToro, publicado em abril de 2025, mostrou que 42% dos usuários americanos pesquisados disseram preferir resultados de busca sem resumos gerados por IA.

O Bing seguiu o mesmo caminho com a integração do Copilot. O Perplexity, que nasceu como um buscador nativo de IA, captou uma fatia de usuários entusiastas da tecnologia. Mas entre esses dois polos, surgiu um vácuo: o usuário que quer buscar informações do jeito clássico, com links indexados, sem intermediação de um modelo de linguagem. É nesse vácuo que o DuckDuckGo está se posicionando.

A estratégia não é apenas nostálgica. Há um argumento prático: quando o usuário busca uma receita, uma regulamentação específica ou um dado técnico, a resposta gerada por IA frequentemente omite nuances, erra detalhes ou cita fontes inexistentes. Para profissionais que dependem de precisão, como desenvolvedores e analistas de dados, isso é um problema real.

Modelo de negócio sem rastreamento resiste ao teste do tempo

O DuckDuckGo fatura com publicidade contextual, não comportamental. Isso significa que os anúncios são baseados na palavra-chave buscada naquele momento, não em um perfil construído ao longo de anos de rastreamento. É o modelo que o Google usava em seus primeiros anos, antes de construir a maior máquina de vigilância comercial da história.

A empresa, fundada em 2008 por Gabriel Weinberg, arrecadou US$ 175 milhões em rodadas privadas e nunca abriu capital. Ao contrário de startups que queimam caixa, o DuckDuckGo opera com margens positivas desde 2014. A receita estimada para 2024, segundo a consultoria Semrush, foi de US$ 250 milhões a US$ 300 milhões.

O crescimento recente levantou especulações sobre um possível IPO. A empresa não comentou, mas o timing seria interessante: o Strava, outra plataforma construída sobre fidelidade de comunidade, está preparando sua abertura de capital. Há um apetite claro do mercado por empresas que demonstram retenção orgânica sem depender de truques algorítmicos, tema que também surge no debate sobre fintechs e modelos sustentáveis.

O paradoxo das big techs: mais IA, menos confiança

O fenômeno DuckDuckGo ilustra um paradoxo que as big techs ainda não resolveram. A integração agressiva de IA generativa nos produtos de busca foi uma resposta ao hype do ChatGPT. Mas a execução gerou efeitos colaterais. O Google admitiu publicamente, em sua última conference call, que os AI Overviews reduziram o número de cliques em links em determinadas categorias de busca.

Para publishers, essa é uma ameaça existencial. Se o Google responde à pergunta diretamente na página de resultados, o usuário não precisa visitar o site original. Isso já motivou processos judiciais de grupos de mídia na Europa e nos Estados Unidos. O DuckDuckGo, ao preservar o modelo de links, se posiciona como aliado natural dos criadores de conteúdo.

Não se trata de ser contra inteligência artificial. O próprio DuckDuckGo oferece um assistente de IA opcional chamado DuckAssist. A diferença é que ele não é o padrão, não substitui os resultados orgânicos e pode ser desligado com um clique. É uma abordagem de consentimento, não de imposição, filosofia que ressoa com as discussões mais amplas sobre governança de IA e direitos digitais.

O que isso sinaliza para o futuro das buscas

O mercado de buscas movimenta cerca de US$ 300 bilhões anuais em publicidade global, segundo a eMarketer. O Google controla aproximadamente 90% desse mercado. Mesmo com crescimento expressivo, o DuckDuckGo representa menos de 3% das buscas globais.

Mas a tendência é relevante. Navegadores como o Brave e o Firefox já oferecem o DuckDuckGo como opção padrão de busca. A União Europeia, via Digital Markets Act, obriga plataformas a oferecerem alternativas de busca em dispositivos Android. Cada ponto percentual conquistado vale bilhões em receita publicitária.

O sinal mais importante talvez não seja sobre o DuckDuckGo em si, mas sobre o que ele representa: existe uma demanda real e crescente por experiências digitais que não sejam mediadas por IA generativa. Em um mercado obcecado por adotar a tecnologia mais recente a qualquer custo, a empresa que cresce ao dizer “não, obrigado” é, por si só, a notícia.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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