Tecnologia

SoftBank vai investir €75 bi em data centers na França

Aporte bilionário do grupo japonês na França reforça a corrida global por infraestrutura de inteligência artificial e redesenha o mapa geopolítico dos chips.

O SoftBank Group anunciou que pretende investir até €75 bilhões na construção de data centers na França, em um dos maiores compromissos individuais já feitos por uma empresa estrangeira no solo europeu. O movimento coloca o grupo japonês de Masayoshi Son no centro de uma disputa geopolítica pela infraestrutura que sustenta a inteligência artificial generativa.

O anúncio chega num momento em que governos europeus tentam atrair capacidade computacional para o continente, preocupados com a concentração de poder de processamento nos Estados Unidos e na Ásia. Para a França de Emmanuel Macron, o aporte representa uma validação da estratégia de se posicionar como hub de IA na Europa.

O que está por trás do aporte bilionário do SoftBank

Masayoshi Son tem redirecionado o SoftBank de uma holding de investimentos em startups para uma empresa de infraestrutura de IA. Desde 2024, o grupo acumulou participações relevantes em empresas de chips e firmou parcerias com operadores de data centers nos Estados Unidos, no Japão e no Oriente Médio.

A aposta francesa segue essa lógica. O SoftBank não está apenas financiando prédios com servidores. Está comprando influência no ecossistema regulatório europeu e garantindo acesso a energia nuclear barata, algo que a França oferece como poucos países no mundo. Cerca de 70% da matriz energética francesa vem de usinas nucleares, o que reduz significativamente o custo operacional de data centers de larga escala.

Como analisamos em matérias sobre o avanço das big techs em infraestrutura de IA, o gargalo da inteligência artificial em 2025 e 2026 deixou de ser software e passou a ser hardware: chips, energia elétrica e refrigeração. Quem controla a infraestrutura física controla o acesso à IA.

Europa corre para não ficar para trás na corrida da IA

O investimento do SoftBank não acontece no vácuo. A Microsoft anunciou €4 bilhões para data centers na Espanha e na Itália nos últimos 12 meses. O Google expandiu operações na Finlândia e na Holanda. A Amazon Web Services ampliou sua presença na Alemanha.

A diferença é a escala. Os €75 bilhões prometidos pelo SoftBank superam, em valor total projetado, o que qualquer big tech americana comprometeu individualmente na Europa até agora. É um número que rivaliza com o Project Stargate, a joint venture de US$ 100 bilhões anunciada nos Estados Unidos no início de 2025.

Para analistas do setor, o movimento reflete uma percepção de que a demanda por capacidade computacional vai crescer exponencialmente nos próximos cinco anos. Modelos de IA generativa consomem cada vez mais energia para treinamento e inferência. O Llama 4, da Meta, exigiu estimados 10 vezes mais computação que o Llama 3.

O que isso significa para o mercado de tecnologia

O aporte do SoftBank tem implicações que vão além da França. Primeiro, pressiona governos de outros países europeus a oferecerem condições competitivas para atrair investimentos semelhantes. Portugal, Espanha e países nórdicos já sinalizaram interesse em criar “zonas de aceleração” para data centers com incentivos fiscais e acesso prioritário a energia renovável.

Segundo, altera a dinâmica de fornecimento de chips. A Nvidia, que domina o mercado de GPUs para IA, já enfrenta filas de espera que ultrapassam seis meses. Um compromisso de €75 bilhões em infraestrutura implica encomendas massivas de semicondutores, o que pode apertar ainda mais a cadeia de suprimentos global.

Para empresas brasileiras que dependem de serviços de nuvem e IA, a expansão europeia pode trazer benefícios indiretos. Mais capacidade instalada globalmente tende a reduzir custos de processamento no médio prazo. Mas no curto prazo, a competição por chips e equipamentos pode elevar preços, como já discutimos ao analisar os impactos da corrida por semicondutores nos mercados.

Os riscos que o mercado ainda precifica

Compromissos de investimento dessa magnitude raramente se materializam integralmente. O próprio SoftBank tem histórico de anúncios grandiosos que foram redimensionados ao longo do tempo. O Vision Fund original, lançado em 2017 com US$ 100 bilhões, passou por perdas bilionárias com apostas em WeWork, Wirecard e outras startups que não entregaram resultados.

Há também o risco regulatório. A União Europeia tem endurecido regras sobre uso de dados e governança de IA. O AI Act europeu, que entrou plenamente em vigor em 2025, impõe exigências de transparência e auditabilidade que podem encarecer operações de data centers voltados para treinamento de modelos.

Outro ponto é a sustentabilidade energética. Mesmo com a matriz nuclear francesa, a adição de dezenas de gigawatts de demanda por data centers levanta questões sobre capacidade da rede elétrica. O operador RTE, responsável pela transmissão de energia na França, já alertou que a demanda industrial por eletricidade pode superar a oferta disponível até 2030 sem novos investimentos em geração.

O novo mapa da infraestrutura global de IA

O que se desenha em 2025 e 2026 é uma nova geografia do poder tecnológico. Estados Unidos lideram em software e modelos. China avança em chips próprios apesar das sanções. E a Europa tenta se posicionar como o continente da infraestrutura, oferecendo energia limpa, estabilidade jurídica e mão de obra qualificada.

O SoftBank está apostando que esse posicionamento europeu vai se consolidar. Se a aposta der certo, Masayoshi Son terá construído não apenas data centers, mas um pilar estratégico do ecossistema global de inteligência artificial. Se falhar, será mais um capítulo na longa lista de promessas bilionárias que ficaram no papel.

Para investidores e profissionais de tecnologia, o recado é claro: a infraestrutura de IA é o novo petróleo. Quem controla o processamento, controla o futuro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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