Cisco corta 4 mil vagas para investir mais em IA
Gigante de redes cortou 6% do quadro global mesmo após receita recorde. Movimento reflete a corrida das big techs para realocar capital em IA.
A Cisco anunciou o corte de aproximadamente 3.900 posições, o equivalente a 6% de sua força de trabalho global. O movimento acontece no mesmo trimestre em que a companhia reportou o que chamou de “receita trimestral recorde”. Não é contradição. É estratégia.
A empresa de San Jose, que durante décadas dominou o mercado de infraestrutura de redes, está redistribuindo capital humano e financeiro para acelerar sua presença em inteligência artificial. É o segundo grande corte em menos de 18 meses, depois da rodada de fevereiro de 2024 que eliminou cerca de 4.250 vagas.
Receita recorde, mas com mudança de direção
O paradoxo é apenas aparente. A Cisco vem passando por uma transição estrutural que lembra o que outras gigantes como IBM e Intel enfrentaram em ciclos anteriores. A receita cresce, mas as áreas que geram esse faturamento não são mais as que a empresa quer priorizar.
O hardware de redes tradicionais, o pão com manteiga da Cisco por três décadas, enfrenta margens cada vez mais comprimidas. Enquanto isso, a demanda corporativa por soluções de IA, segurança cibernética com machine learning e infraestrutura de data center para cargas de trabalho de IA cresce a dois dígitos ao ano.
Segundo dados da IDC, o mercado global de infraestrutura de IA deve movimentar US$ 154 bilhões em 2025, alta de 37% em relação ao ano anterior. A Cisco não quer apenas vender os switches e roteadores que conectam esses data centers. Quer vender a inteligência que roda sobre eles.
O padrão das big techs: demitir para realocar
A Cisco não está sozinha. O movimento segue um padrão que se consolidou entre as maiores empresas de tecnologia do mundo desde 2023. Microsoft, Google, Amazon e Meta executaram rodadas massivas de demissões para, em seguida, contratar agressivamente em divisões de IA.
A diferença é que, para a Cisco, a transição é mais complexa. Diferente de Microsoft e Google, que já tinham divisões robustas de software e cloud, a Cisco precisa construir credibilidade em um território dominado por Nvidia, AMD e pelos hyperscalers. A transformação digital das big techs exige uma reconfiguração completa do modelo de negócios.
A aquisição da Splunk por US$ 28 bilhões, concluída em março de 2024, foi o movimento mais agressivo nessa direção. A Splunk trouxe capacidade de observabilidade e análise de dados que a Cisco não tinha internamente. Agora, a empresa quer integrar modelos de IA a essa base de dados para oferecer soluções preditivas de segurança e gestão de redes.
O que muda para o mercado de trabalho em tecnologia
Os cortes da Cisco reforçam uma tendência que deve se intensificar nos próximos trimestres. As posições eliminadas tendem a ser de engenharia de hardware legado, vendas tradicionais e funções administrativas. As contratações que virão, segundo a própria empresa, serão concentradas em engenharia de IA, cientistas de dados e arquitetos de soluções de machine learning.
Para profissionais de tecnologia, o recado é claro: a especialização em IA deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico. Como temos acompanhado nas análises sobre o setor, o ciclo de destruição criativa em tecnologia está acelerado como nunca.
No Brasil, onde a Cisco emprega cerca de 1.500 pessoas entre escritórios e centros de desenvolvimento, ainda não há confirmação de quantas posições serão afetadas. A operação brasileira tem peso relevante na estratégia para América Latina, mas cortes proporcionais ao global não seriam surpreendentes.
O risco de uma transição incompleta
O mercado recebeu o anúncio com cautela. As ações da Cisco subiram levemente no after-hours, mas analistas apontam que a execução da estratégia de IA ainda está em estágio inicial. A empresa precisa provar que consegue converter a base instalada de clientes corporativos em compradores de soluções de inteligência artificial.
A história corporativa está repleta de empresas que tentaram pivotar e não conseguiram. A IBM levou quase uma década para estabilizar sua transição para cloud e IA. A Intel, que anunciou cortes similares, ainda luta para recuperar relevância em chips. O impacto da IA no mercado de trabalho segue como um dos temas mais relevantes da década.
Para a Cisco, a vantagem competitiva está na relação com os departamentos de TI de grandes corporações, construída ao longo de 40 anos. Se conseguir usar essa base para vender IA embarcada em redes, terá encontrado seu caminho. Se não, os cortes de hoje terão sido apenas o primeiro capítulo de uma reestruturação muito mais dolorosa.
Sobre o autor
Lucas FerreiraJornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.