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Ásia domina corrida pela IA e desafia hegemonia dos EUA

China, Japão e Coreia do Sul aceleram investimentos em IA e semicondutores. A redistribuição de poder tecnológico já afeta cadeias globais de suprimento.

Ásia domina corrida pela IA e desafia hegemonia dos EUA
Foto: . what / Unsplash

Durante anos, o debate sobre inteligência artificial girou em torno de dois polos: Estados Unidos e China. Mas os dados mais recentes mostram que a corrida se tornou genuinamente asiática, com Japão, Coreia do Sul, Índia e o Sudeste Asiático emergindo como peças cada vez mais relevantes no tabuleiro. A redistribuição de poder tecnológico está acontecendo mais rápido do que a maioria dos investidores percebe.

Segundo o AI Index Report 2026, publicado pela Universidade de Stanford, a Ásia respondeu por 42% dos investimentos globais em IA no último ano, superando pela primeira vez a América do Norte (39%). A Europa ficou com 14%. O dado marca uma inflexão que vinha se desenhando desde 2023, mas que agora é inequívoca.

China lidera, mas não está sozinha

A China segue como a principal força asiática em IA. O país investiu cerca de US$ 45 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial em 2025, segundo estimativas do McKinsey Global Institute. Mais relevante que o valor absoluto é a direção: enquanto os EUA concentram esforços em modelos de linguagem e IA generativa, a China prioriza IA aplicada a manufatura, vigilância, logística e veículos autônomos.

Mas o cenário asiático vai além da China. O Japão anunciou em março um pacote de US$ 12 bilhões para infraestrutura de IA, incluindo data centers e desenvolvimento de chips especializados. A Coreia do Sul, por sua vez, acelerou o plano nacional de semicondutores com investimentos de US$ 19 bilhões liderados pela Samsung e SK Hynix.

A Índia entrou na disputa com uma estratégia diferente: formação de capital humano. O país forma mais de 1,5 milhão de engenheiros por ano e se posiciona como hub de desenvolvimento de software para IA, com empresas como Infosys e TCS criando divisões dedicadas.

O papel dos semicondutores na equação

Nenhuma estratégia de IA sobrevive sem chips. E é justamente nesse ponto que a Ásia tem a vantagem mais estrutural. Taiwan, por meio da TSMC, fabrica cerca de 90% dos chips mais avançados do mundo (abaixo de 7 nanômetros). A Coreia do Sul, com Samsung Foundry, detém a maior parte do restante.

As tentativas americanas de repatriar a produção de semicondutores, como o CHIPS Act aprovado em 2022, avançam devagar. A fábrica da TSMC no Arizona ainda opera com rendimento abaixo do esperado, e como temos acompanhado na cobertura de tecnologia, os custos de produção nos EUA são até 40% superiores aos de Taiwan.

Isso cria uma dependência estratégica que vai além da tecnologia. Quem controla a fabricação de chips controla, em última instância, o ritmo de avanço da IA. E esse controle, hoje, está firmemente na Ásia.

Geopolítica e o risco Taiwan

O elefante na sala é Taiwan. As tensões entre EUA e China sobre o status da ilha se intensificaram nas últimas semanas, com o presidente Trump ampliando incertezas sobre o grau de apoio americano antes de uma cúpula esperada com Xi Jinping.

Para investidores, o risco é concreto. Um cenário de conflito ou bloqueio no Estreito de Taiwan paralisaria a cadeia global de semicondutores. Estimativas do Rhodium Group sugerem que uma interrupção na produção da TSMC causaria um impacto de US$ 1,6 trilhão na economia global nos primeiros 12 meses.

É por isso que Japão e Coreia do Sul estão acelerando planos de contingência. O Japão investiu na Rapidus, uma startup de semicondutores que tenta fabricar chips de 2 nanômetros até 2027. A Coreia do Sul criou um fundo soberano específico para a cadeia de chips. São movimentos defensivos, mas que reforçam a centralidade asiática no setor.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil não é um player relevante na fabricação de chips ou no desenvolvimento de modelos de IA de fronteira. Mas é um grande consumidor dessas tecnologias. A redistribuição de poder para a Ásia afeta diretamente o custo e a disponibilidade de infraestrutura tecnológica por aqui.

Empresas brasileiras que dependem de cloud computing, processamento de dados e ferramentas de IA estão, indiretamente, expostas ao risco geopolítico asiático. A concentração de investimentos estrangeiros no mercado brasileiro, que vive um momento de otimismo, pode ser afetada se um choque de oferta de semicondutores desacelerar a economia global.

Além disso, a ascensão asiática em IA tem implicações competitivas para setores como agronegócio, mineração e logística, onde a automação inteligente pode redefinir vantagens comparativas. A China já aplica IA em escala na agricultura de precisão, com produtividade por hectare crescendo 12% ao ano em projetos-piloto, segundo o Ministério da Agricultura chinês.

O novo mapa do poder tecnológico

A narrativa de que os EUA dominam a IA por causa do Vale do Silício está desatualizada. As big techs americanas, como Google, Microsoft e Meta, ainda lideram em modelos de linguagem e pesquisa básica. Mas a aplicação industrial, a fabricação de hardware e o volume de investimento público migraram para a Ásia.

O modelo chinês de IA aplicada, focado em resultados práticos e não em pesquisa acadêmica, mostrou-se mais escalável. A DeepSeek, startup chinesa de IA, alcançou resultados comparáveis ao GPT-4 com uma fração do custo de treinamento, como reportamos anteriormente.

Para investidores, a implicação é clara: diversificação geográfica na exposição a tecnologia deixou de ser opcional. Fundos que concentram apostas em big techs americanas ignoram que a cadeia de valor da IA é fundamentalmente asiática, da mineração de terras raras à fabricação de chips, passando pela montagem de servidores.

O próximo capítulo dessa corrida será definido não por quem desenvolve o modelo de linguagem mais sofisticado, mas por quem controla a infraestrutura física que sustenta toda a inteligência artificial. E nesse jogo, a Ásia larga na frente.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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