Nvidia já investiu US$ 40 bi em IA em 2025
A fabricante de chips acelerou sua estratégia de investimentos diretos em startups de IA, com aportes que superam o PIB de vários países.
A Nvidia não quer ser apenas a fornecedora de chips para a revolução da inteligência artificial. Quer ser dona de pedaços relevantes dela. Dados compilados pela TechCrunch mostram que a companhia já comprometeu cerca de US$ 40 bilhões em investimentos de equity em empresas de IA somente neste ano. O número supera o PIB de mais de 90 países.
A estratégia não é exatamente nova, mas a escala mudou de patamar. Em anos anteriores, a Nvidia participava de rodadas selecionadas. Agora, a empresa de Jensen Huang opera como um fundo de venture capital de fato, participando de séries iniciais, rodadas de crescimento e até co-investindo em mega deals ao lado de nomes como Sequoia, Andreessen Horowitz e SoftBank.
Por que a Nvidia está comprando participação em startups de IA
O raciocínio é circular e poderoso. A Nvidia vende GPUs para treinar modelos de IA. Ao investir nas empresas que compram essas GPUs, ela garante demanda futura para seu hardware, obtém retorno financeiro sobre o crescimento das startups e ainda ganha acesso privilegiado a informações sobre para onde a tecnologia está caminhando.
Esse modelo cria o que analistas de mercado chamam de “flywheel de capital”: o investimento alimenta a demanda, que alimenta a receita, que gera caixa para mais investimentos. É o mesmo tipo de ciclo virtuoso que a Amazon construiu com AWS e seu ecossistema de marketplace, mas aplicado ao mercado de infraestrutura de IA.
Segundo dados da própria Nvidia, a companhia encerrou o último trimestre fiscal com mais de US$ 43 bilhões em caixa e equivalentes. O volume de investimentos feitos até agora em equity, portanto, representa praticamente todo o colchão de liquidez disponível. É uma aposta concentrada e deliberada.
O que US$ 40 bilhões significam no contexto de venture capital
Para colocar o número em perspectiva, o mercado global de venture capital movimentou cerca de US$ 340 bilhões em 2024, segundo a PitchBook. Se a Nvidia mantiver o ritmo atual, seus investimentos solo representariam algo próximo de 12% de todo o capital de risco global em um único ano. Não há precedente para uma empresa de hardware ocupar esse espaço com tamanha agressividade.
A comparação mais direta é com a estratégia de investimentos da Microsoft, que aplicou cerca de US$ 13 bilhões na OpenAI ao longo de vários anos. A Nvidia triplicou esse valor em poucos meses, diluído entre dezenas de startups ao invés de concentrado em uma única aposta.
Os alvos são variados. Incluem empresas de modelos de linguagem, companhias de IA aplicada à saúde, robótica, veículos autônomos e infraestrutura de dados. A Nvidia também tem investido em companhias de chips complementares e em startups que desenvolvem software de orquestração para datacenters.
Os riscos da estratégia de Jensen Huang
Nem tudo é vantagem. O volume de capital comprometido levanta questões sobre conflitos de interesse. Quando a Nvidia investe em uma startup que compete por GPUs escassas, ela pode estar priorizando a alocação de chips para empresas do seu portfólio em detrimento de clientes independentes. Reguladores antitruste na Europa e nos Estados Unidos já demonstraram interesse em investigar esse tipo de dinâmica.
Há também o risco de concentração setorial. Se o ciclo de investimentos em IA arrefecer, como aconteceu com ciclos anteriores de tecnologia, a Nvidia terá bilhões em ativos ilíquidos perdendo valor simultaneamente. É uma correlação perigosa: a receita operacional cairia no mesmo momento em que o portfólio de investimentos desvaloriza.
Como analisamos no contexto das big techs e seus movimentos financeiros, o mercado precifica essa agressividade como confiança. As ações da Nvidia subiram mais de 140% nos últimos doze meses. Mas a história ensina que momentos de euforia concentrada costumam terminar em correções abruptas, especialmente quando uma única companhia tenta ser simultaneamente fornecedora, investidora e influenciadora de um ecossistema inteiro.
O que isso muda para o investidor
A transformação da Nvidia de fabricante de chips em conglomerado de investimentos em IA tem implicações diretas para quem aloca capital no setor de tecnologia. Comprar ações da Nvidia hoje significa, em parte, comprar exposição a um fundo de venture capital concentrado em IA. Isso muda o perfil de risco do papel.
Para o ecossistema mais amplo, incluindo empresas de infraestrutura financeira e tecnológica, o movimento sinaliza que a corrida por IA está longe de desacelerar. Os US$ 40 bilhões da Nvidia são, antes de tudo, um voto de confiança de quem mais entende de infraestrutura de IA no mundo. A questão é se esse voto será recompensado pelo mercado ou se estamos diante do pico de um ciclo.