Criptomoedas

Golpe com ingressos falsos da Copa 2026 mira cripto no Brasil

Criminosos vendem ingressos falsos da Copa do Mundo 2026 em troca de criptomoedas no Brasil. Esquema usa engenharia social e stablecoins para dificultar rastreamento.

Golpe com ingressos falsos da Copa 2026 mira cripto no Brasil
Foto: El gringo photo / Unsplash

Com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, criminosos já encontraram uma forma de explorar a ansiedade dos torcedores brasileiros. Um esquema de venda de ingressos falsos para o torneio, que será disputado nos Estados Unidos, México e Canadá, começou a circular em grupos de Telegram e WhatsApp, com a particularidade de aceitar pagamento exclusivamente em criptomoedas.

O golpe é simples na estrutura, mas eficiente na execução. Sites que imitam a identidade visual da FIFA oferecem ingressos a preços abaixo do mercado, exigindo pagamento em USDT (Tether) ou USDC via redes como Tron e Solana. As transações são irreversíveis, e o anonimato relativo das blockchains dificulta a identificação dos responsáveis.

Como o golpe funciona na prática

Os relatos que circulam em fóruns e redes sociais seguem um padrão. O torcedor é atraído por anúncios em grupos temáticos de futebol ou viagens, redirecionado a um site com aparência profissional e convencido a pagar entre US$ 200 e US$ 800 por ingresso, sempre em stablecoins. Após a transferência, o suposto vendedor desaparece ou envia um PDF com um QR code inválido.

O uso de stablecoins não é acidental. Diferentemente de transferências bancárias, que podem ser rastreadas e eventualmente revertidas, transações em USDT na rede Tron, por exemplo, são confirmadas em segundos e não passam por nenhum intermediário que possa bloquear o valor. Segundo dados da Chainalysis, a rede Tron concentrou 45% de todas as transações ilícitas com stablecoins em 2025, justamente por conta das taxas baixas e velocidade.

Como analisamos em coberturas sobre o uso de stablecoins na América Latina, a popularização dessas moedas digitais no Brasil criou um paradoxo: ao mesmo tempo em que facilitam remessas internacionais e proteção cambial para milhões de pessoas, também abrem portas para fraudes que exploram a falta de familiaridade técnica de novos usuários.

Os números por trás da fraude em cripto no Brasil

O Brasil é terreno fértil para esse tipo de esquema. Dados do Banco Central mostram que o país movimentou R$ 214 bilhões em criptoativos em 2025, um crescimento de 62% em relação ao ano anterior. O número de CPFs com ao menos uma transação em cripto ultrapassou 25 milhões, segundo a Receita Federal.

Mais gente usando cripto significa mais potenciais vítimas. Relatório da empresa de segurança TRM Labs, publicado em março de 2026, estima que brasileiros perderam cerca de US$ 280 milhões em golpes envolvendo criptomoedas ao longo de 2025. A categoria “comércio fraudulento”, que inclui venda de produtos e serviços falsos, representou 18% desse total.

A Copa do Mundo adiciona um ingrediente emocional ao cálculo. Eventos esportivos de grande porte historicamente geram picos de fraudes. Na Copa do Catar em 2022, a FIFA registrou mais de 50.000 tentativas de venda de ingressos falsos. A diferença agora é o meio de pagamento: em 2022, a maioria das fraudes usava cartões de crédito ou transferências bancárias, que oferecem alguma possibilidade de estorno.

O que a FIFA e as autoridades dizem

A FIFA reforçou em comunicado recente que a venda oficial de ingressos para a Copa de 2026 acontece exclusivamente pelo site FIFA.com/tickets. A entidade não aceita criptomoedas como forma de pagamento e nunca autorizou revendedores terceiros a comercializar entradas para o torneio.

No Brasil, a Polícia Federal informou que já monitora grupos suspeitos, mas admitiu que a natureza descentralizada das transações dificulta a investigação. A regulação do mercado cripto no país, implementada pelo Banco Central desde 2024, exige que exchanges registradas reportem transações suspeitas. O problema é que os golpistas operam fora dessas plataformas, usando carteiras pessoais e transações peer-to-peer.

A Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) publicou um alerta orientando consumidores a desconfiarem de qualquer oferta de ingressos que exija pagamento em cripto, especialmente quando o vendedor insiste em stablecoins via redes de baixo custo como Tron ou Solana.

Como se proteger desse tipo de golpe

Especialistas em segurança digital recomendam algumas precauções básicas que valem não apenas para ingressos da Copa, mas para qualquer compra online envolvendo criptomoedas.

Primeiro, verificar sempre o domínio do site. A FIFA usa exclusivamente o endereço fifa.com. Sites com variações como “fifa-tickets2026.com” ou “copadomundo-ingressos.com” são, sem exceção, fraudulentos. Segundo, desconfiar de preços abaixo do mercado. Se o ingresso oficial custa US$ 600 e alguém oferece por US$ 300, o produto é falso.

Terceiro, e talvez mais importante: entender que transações em cripto são irreversíveis por design. Não existe “chargeback” em blockchain. Uma vez enviados, os fundos não voltam sem a cooperação voluntária do destinatário. Essa característica, que é uma vantagem técnica para muitos casos de uso legítimos, se torna uma vulnerabilidade quando explorada por criminosos.

O episódio reforça uma lição que o mercado cripto reapresenta a cada ciclo: a tecnologia é neutra, mas a educação do usuário ainda não acompanha a velocidade da adoção. Com a crescente popularização de stablecoins no Brasil, a tendência é que golpes desse tipo se tornem mais sofisticados. A melhor defesa continua sendo o ceticismo saudável diante de ofertas boas demais para ser verdade.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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