Tecnologia

OpenAI perde metas de receita e usuários às vésperas do IPO

CFO da OpenAI questiona capacidade de bancar contratos bilionários com data centers diante de crescimento mais lento que o esperado e avanço de rivais como Anthropic e Google.

OpenAI perde metas de receita e usuários às vésperas do IPO

A OpenAI, dona do ChatGPT, enfrenta uma crise interna que coloca em xeque a narrativa de crescimento inevitável que sustentou sua ascensão meteórica. A empresa não atingiu metas internas de receita e de novos usuários em momentos críticos, segundo reportagem do Wall Street Journal publicada neste domingo. E o que era um consenso sobre gastar o máximo possível em infraestrutura agora virou ponto de tensão entre a diretoria financeira e o CEO Sam Altman.

A questão central não é se a OpenAI é grande. É se ela é grande o suficiente para justificar os compromissos de gasto que já assumiu.

US$ 600 bilhões em compromissos e uma conta que não fecha sozinha

Nos últimos dois anos, Altman conduziu uma ofensiva agressiva para travar capacidade computacional. A estratégia resultou em cerca de US$ 600 bilhões em compromissos futuros com data centers, apostando que a demanda por inteligência artificial só cresceria. A CFO Sarah Friar e o conselho de administração apoiaram a estratégia enquanto o ChatGPT parecia imbatível.

O cenário mudou. Friar sinalizou a outros executivos que a empresa pode não conseguir honrar contratos futuros de computação caso a receita não acompanhe o ritmo projetado. Diretores do conselho passaram a examinar com mais rigor os acordos de infraestrutura e a questionar por que Altman continua buscando ainda mais capacidade, mesmo diante da desaceleração. A cobertura de tecnologia do BlockTrends tem acompanhado como a corrida por infraestrutura de IA está remodelando o setor.

Em comunicado conjunto, Altman e Friar negaram qualquer divergência e chamaram de “ridícula” a sugestão de que estariam recuando na compra de recursos computacionais. Mas os fatos contam uma história diferente da declaração oficial.

Metas perdidas: 1 bilhão de usuários ficou no papel

A OpenAI estabeleceu como objetivo interno atingir 1 bilhão de usuários ativos semanais no ChatGPT até o fim de 2025. Não chegou lá. Até agora, o marco não foi anunciado publicamente, o que tem incomodado investidores.

A meta de receita anual do ChatGPT também não foi alcançada. O motivo principal: o Google Gemini cresceu de forma expressiva no segundo semestre de 2025 e avançou sobre a fatia de mercado da OpenAI. Em paralelo, a empresa perdeu terreno para a Anthropic nos mercados de código e soluções corporativas, falhando em múltiplas metas mensais de receita no início de 2026.

Há também um problema de retenção. As taxas de cancelamento entre assinantes pagos estão preocupando internamente. Quando um produto depende de assinatura recorrente para sustentar uma estrutura de custos gigantesca, cada ponto percentual de churn importa. Essa dinâmica lembra o que já analisamos sobre os desafios de monetização da IA generativa.

A rodada de US$ 122 bilhões não resolve tudo

A OpenAI levantou recentemente US$ 122 bilhões na maior rodada de captação da história do Vale do Silício. Em tese, isso dá fôlego. Na prática, a empresa projeta queimar todo esse montante nos próximos três anos, e isso assumindo que as metas de receita sejam cumpridas. Parte do financiamento é condicional, vinculada a acordos específicos com parceiros.

A empresa está tentando cortar custos em outras frentes. O Sora, aplicativo de geração de vídeo, foi descontinuado. O Codex, ferramenta de programação assistida por IA, vem ganhando tração. E o recém-lançado GPT-5.5 liderou benchmarks relevantes do setor. Mas nenhum desses movimentos resolve o problema estrutural: a diferença entre o que a OpenAI gasta e o que ela fatura ainda depende de crescimento acelerado para se fechar.

Curiosamente, a própria escassez de capacidade computacional no mercado pode funcionar como argumento a favor da estratégia de Altman. Várias empresas de IA, incluindo a Anthropic, enfrentaram crises de capacidade nas últimas semanas, com aumentos de preço, racionamento e instabilidade nos serviços. Em um memorando para investidores obtido pelo WSJ, a OpenAI afirmou ter mais capacidade do que a Anthropic, classificando a cautela dos rivais como “subestimação da velocidade com que a demanda chegaria”.

O IPO em 2026 está longe de ser certo

A abertura de capital da OpenAI é tratada internamente como possível até o fim de 2026. Altman favorece um cronograma agressivo. Friar, por outro lado, tem enfatizado que a empresa precisa melhorar seus controles internos antes de se submeter às exigências regulatórias de uma companhia listada.

A preocupação é legítima. Empresas de tecnologia que abriram capital prematuramente, sem governança e controles financeiros adequados, pagaram preços altos em credibilidade. A OpenAI está crescendo rápido demais em complexidade organizacional para que o IPO seja apenas uma questão de timing de mercado.

Há outros obstáculos concretos. Fidji Simo, número dois da empresa, se afastou inesperadamente por licença médica neste mês, criando um vácuo de liderança. E nesta semana começaram os procedimentos judiciais do processo movido por Elon Musk, que busca destituir Altman e reverter a conversão da OpenAI em empresa com fins lucrativos. Como discutimos na análise sobre a reestruturação corporativa da OpenAI, a transição de organização sem fins lucrativos para empresa lucrativa segue gerando turbulência legal.

O que isso significa para o mercado de IA

A situação da OpenAI não é apenas sobre uma empresa. Os US$ 600 bilhões em compromissos de data center vinculam boa parte do setor de tecnologia ao sucesso da companhia. Se a OpenAI desacelerar investimentos, o efeito cascata atinge fornecedores de chips, construtoras de data centers e provedores de energia.

Para investidores e profissionais do setor, o sinal mais importante é a mudança de narrativa. Até pouco tempo, a tese era simples: IA é inevitável, demanda é infinita, quem gastar mais vence. Agora, o próprio CFO da empresa mais valiosa do segmento está dizendo, nos bastidores, que a conta pode não fechar.

Isso não significa que a IA vai desacelerar. Significa que o mercado está entrando em uma fase onde disciplina financeira importa tanto quanto inovação tecnológica. E empresas que trataram infraestrutura como aposta ilimitada terão que provar, com números, que o retorno justifica o investimento.

A OpenAI continua sendo a empresa mais relevante do setor. Mas relevância e viabilidade financeira são coisas diferentes. O IPO, quando vier, será o teste definitivo dessa distinção.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.
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