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10 coisas que aprendi visitando a Coreia do Norte


Por Leonardo Lopes
Agosto 17, 2020

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Leonardo Lopes é empresário, formado em Sistemas, História, possui MBA em Gestão de Negócios e é um entusiasta da Coreia do Norte. No Twitter: @leonardo1opes.

A península coreana é sem dúvida o melhor laboratório da Guerra Fria, período da nossa história em que o mundo travou uma disputa ideológica entre capitalismo e comunismo. O mesmo povo, com a mesma cultura, língua, costumes e valores, vivendo no mesmo tempo, foi dividido pelo paralelo 38 entre norte comunista e sul capitalista, colocando à prova ambas as teorias.

Mesmo sem ter nenhum apreço pelo socialismo, sempre tive muita curiosidade de conhecer por dentro a vida em um país que tenha colocado na prática a teoria de Marx. O último país que ainda vive como nos tempos áureos da URSS é a Coreia do Norte, e este foi o meu destino em 2018.

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Foram muitas as experiências que vivenciei lá, fiz muitas perguntas, tirei muitas dúvidas, mas nem tudo poderia ser perguntado ou falado, de qualquer maneira saí de lá com a esperança de que o país mais fechado do mundo está aos poucos encontrando o caminho da liberdade, e tudo graças ao livre mercado.

Neste artigo trarei 10 coisas que aprendi sobre a Coreia do Norte antes, durante e após a minha visita e que farão você rever seus conceitos sobre este “reino eremita”.

1 – Castas políticas

A sociedade norte-coreana é dividida em um sistema de castas políticas chamado songbun, que significa algo como “ingrediente”. São mais de 50 níveis que podem ser divididos em 3 grandes grupos: Amigáveis, Neutros e Hostis, que são atribuídos desde o nascimento baseado na sua ancestralidade.

Pessoas que tiveram antepassados que lutaram contra o Império do Japão ou pelo Norte durante a Guerra da Coreia ou que ajudaram a formar o PTC (Partido Trabalhista da Coreia) terão alto songbun. Já pessoas que tiveram antepassados capitalistas, como fazendeiros, comerciantes, ou tiveram parentes japoneses ou ainda que lutaram pelo Sul durante a Guerra da Coreia, terão o pior songun. Os que não entraram nestas brigas, serão os Neutros.

2 – Desigualdade

Num enorme contrassenso, o país mais socialista da atualidade possui classes sociais, ou seja, uma elite (alto songbun), classe média (neutros) e os proletários (baixo songbun), só que de uma maneira muito mais cruel, uma vez que ninguém consegue mudar sua ancestralidade, e por consequência, terá seu destino traçado pelo seu histórico familiar ou pela sua devoção ao regime, sendo que este último causa pouco impacto para quem tem um baixo songbun.

Uma pessoa de alto songbun poderá morar em Pyongyang, a cidade vitrine, e poderá desfrutar de bons restaurantes, bons hospitais, fazer faculdade, ir ao cinema, parque aquático e até ganhar vale-bar. Já uma pessoa de baixo songbun estará fadada à morar para sempre numa montanha inóspita, com uma alimentação restrita, trabalhando basicamente na lavoura e o pior: nunca poderá ascender socialmente.

3 – Jangmadang

Nos anos 90 a Coreia do Norte sofreu três grandes traumas: a morte de Kim Il-Sung, o fundador e eterno presidente do país; perdeu seu principal padrinho, a URSS, caindo seus negócios de US $ 2,56 bilhões para US $ 140 milhões; e como desgraça pouca é bobagem, ainda sofreu diversas inundações e secas que arrasaram suas plantações. O resultado desta calamidade toda foi mais de 1 milhão de norte-coreanos mortos.

Neste cenário de caos, e sendo completamente desamparados pelo estado que prometia prover tudo, os norte-coreanos encontraram na produção própria de alimentos para comercialização, bem como no contrabando de produtos da China, uma forma de fazer negócios para sobreviver. Surgiam assim os jangmadang, os mercados ilegais que mudariam a história do país.

4 – Donju

Estes mercados negros foram expandindo em tamanho e variedade, oferecendo toda sorte de produto legal ou ilegal, enriquecendo os comerciantes e criando uma nova classe social: uma elite econômica chamada donju, que significa algo como “mestres do dinheiro”

Os donju foram crescendo e diversificando suas operações para indústria, terceirização de mão-de-obra e até agiotagem. Mesmo operando clandestinamente, suas atividades eram “legalizadas” através de subornos e lobby, dando aos donju uma considerável, e perigosa, influência política.

5 – Intervenções

Incomodado com a influência dos donju e com a ascensão do capitalismo em seu país, em 2009 Kim Jong-il resolveu implementar mudanças econômicas que iam de confiscos até a mudança da moeda, desejando com isto enfraquecer os donju, o que se mostrou um total fracasso.

O pânico tomou a população que tinha pouquíssimos dias para trocar suas moedas antigas pela nova, o que resultou em um aumento extraordinário do consumo e na entrada de moedas estrangeiras, enfraquecendo a nova moeda. Todas as ações que o governo adotou após isto foram mais fracassadas ainda, levando o país a uma profunda crise econômica que culminou na execução do Diretor Financeiro do PTC, Pak Nam-gi, como bode expiatório.

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6 – Capitalismo de Estado

Com a morte de Kim Jong-il em 2011, seu filho Kim Jong-un assumiu com novos planos para os donju, inspirado no modelo criado por Deng Xiaoping na China. Sob seu comando, os controles sobre os negócios dos donju receberam enorme relaxamento, possibilitando que eles se expandissem e enriquecessem muito mais.

Kim Jong-un também se aproveitou do dinheiro que os donju ganhavam dentro e fora do país para utilizá-los como investidores, especialmente na construção civil, o que resultou num boom de empreendimentos e consequentemente em empregos e oportunidades para a população em geral.

7 – Joint Ventures

Acredite se quiser, mas o artigo 37 da constituição norte-coreana prevê o estabelecimento de joint ventures com indivíduos ou até com outros países, como ocorre na zona especial de Kaesong. No entanto, sob a gestão de Kim Jong-un, este tipo de associação ganhou outros patamares.

A despeito das sanções da ONU que proíbem negócios com a Coreia do Norte, em 2019 ocorreu a 22ª Feira de Empreendedorismo de Pyongyang, onde mais de 450 empresas expuseram seus produtos e serviços buscando estabelecer parcerias locais para produção e comercialização. 

8 – Mão-de-obra

Embora todo norte-coreano homem seja obrigado a trabalhar para o estado, os donju encontraram no suborno uma forma de burlar esta barreira para a obtenção de mão-de-obra para seus negócios. Para isto, eles se associam aos gerentes de fábricas e líderes de comunidades que se encarregam de conseguir os trabalhadores para seus empreendimentos, onde estes poderão ganhar até 100 vezes mais do que ganhariam numa empresa estatal. Nas fábricas, as mulheres, que não são obrigadas a trabalhar para o estado, formarão a maior parte da mão-de-obra.

Com mais dinheiro na mão, o norte-coreano tem impulsionado cada vez mais os comércio local (jangmadang), num círculo de crescimento que tem mudado seus hábitos de consumo, levando desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida para as pessoas comuns.

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9 – Geração Jangmadang

A Coreia do Norte tem o mais restrito controle de acesso à informação do mundo. Toda mídia, incluindo TV, Rádio e Jornais são estatais. Todo tipo de literatura também é rigorosamente controlada pelo estado. A internet não está disponível para a população, que se limita a acessar uma intranet chamada Kwangmyong que é alimentada e controlada pelo estado.

Mesmo assim, por conta do consumo de conteúdo estrangeiro, especialmente sul-coreano, encontrado nos jangmadang, como filmes, séries e notícias que chegam em DVD ou pen-drive, os jovens têm tido acesso à cultura ocidental e à informação não controlada pelo estado, mudando completamente a maneira como enxergam o mundo, seu país e suas vidas.

10 – Uma luz no fim do túnel

Em 30 anos, os jangmadang passaram de mercado ilegal de subsistência para dar nome à uma geração que questiona seu país, não tem a mesma devoção aos grandes líderes que seus pais, usa roupas de marca e produtos de alta tecnologia e, principalmente, deseja cada vez mais ter liberdade.

O songbun, que antes era absolutamente determinante para definir o destino de cada norte-coreano, também vem perdendo sua importância, uma vez que a ascensão econômica, que tem chegado cada vez mais às camadas mais baixas da sociedade norte-coreana, tem ajudado a diminuir a desigualdade no país, principalmente em termos de oportunidades.

Talvez ainda leve muitas décadas para que o país se torne de fato livre da ditadura que o controla, mas de qualquer maneira, já podemos ver que o caminho para isto está sendo trilhado. Seria realmente muito bom poder ver o último reduto comunista do mundo cair e se abrir para o mundo, possibilitando a tão sonhada reunificação da península coreana e, principalmente, a libertação do povo do norte.

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