XP vê mercado de capitais travado no Brasil
José Berenguer afirma que Selic elevada trava IPOs e emissões no Brasil. Número de ofertas de ações em 2025 é o menor desde 2016.
O CEO do Banco XP, José Berenguer, foi direto ao diagnosticar o momento do mercado de capitais brasileiro: o país está crescendo “com o freio de mão puxado”. A declaração, feita durante evento do setor financeiro, ecoa um dado que qualquer participante do mercado já sente na prática. O número de IPOs no Brasil em 2025 é o menor em quase uma década.
A fala de Berenguer ganha peso em um contexto no qual a Selic segue em 14,75% ao ano, o maior patamar desde 2006. Quando a renda fixa paga mais de 1% ao mês com risco soberano, o incentivo para empresas e investidores migrarem para renda variável simplesmente desaparece. O mercado de capitais, que deveria ser o motor de financiamento da economia real, opera em marcha lenta.
Os números que ilustram o travamento
Segundo dados da B3, o volume de ofertas públicas de ações (IPOs e follow-ons) no primeiro semestre de 2025 somou R$ 8,2 bilhões. Para efeito de comparação, no mesmo período de 2021, quando a Selic estava em 2%, o volume foi de R$ 72 bilhões. A queda é de quase 90%.
As emissões de dívida corporativa, como debêntures e CRIs, até mostram alguma resiliência. O volume de debêntures emitidas no primeiro semestre alcançou R$ 180 bilhões, segundo a Anbima. Mas mesmo esse número reflete mais a necessidade de refinanciamento das empresas do que apetite por novos projetos de expansão.
O pipeline de IPOs está praticamente vazio. Das empresas que chegaram a protocolar pedido na CVM, a maioria suspendeu os planos. A fintech CloudWalk, que lucrou R$ 1,5 bilhão no último trimestre, é uma das poucas que mantém conversas ativas sobre abertura de capital, mas mesmo ela pode optar por uma listagem nos EUA.
O efeito cascata da Selic alta sobre o ecossistema
A Selic em 14,75% não trava apenas IPOs. Ela afeta toda a cadeia de financiamento. Startups encontram dificuldade para captar rodadas de venture capital, porque fundos comparam o retorno ajustado ao risco com o CDI. Empresas de médio porte que usariam o mercado de capitais para crescer recorrem a crédito bancário mais caro. Fundos de private equity postergam desinvestimentos porque os múltiplos de saída estão comprimidos.
Os dados do Banco Central mostram que o crédito corporativo cresceu apenas 6,8% nos últimos 12 meses, abaixo da inflação acumulada. O spread bancário médio para empresas subiu para 8,2 pontos percentuais, o maior nível desde o início da série em 2011. Na prática, uma empresa que toma crédito no Brasil paga algo próximo de 23% ao ano.
Como discutimos na análise sobre o CPI americano e o dilema do Fed, o cenário externo também não ajuda. Com os juros americanos ainda elevados e a inflação resistente nos EUA, o fluxo de capital estrangeiro para mercados emergentes permanece restrito. O Ibovespa, que recentemente perdeu os 180 mil pontos, reflete essa combinação de fatores domésticos e externos.
O que Berenguer propõe e os limites da proposta
O CEO do Banco XP defende uma agenda de reformas microeconômicas para destravar o mercado. Entre as propostas estão simplificação regulatória para ofertas de menor porte, incentivos fiscais para investidores de longo prazo em ações e maior flexibilidade para fundos de pensão alocarem em renda variável.
A lógica é que, mesmo com juros altos, o mercado de capitais poderia ser mais dinâmico se as barreiras regulatórias fossem menores. Berenguer cita o exemplo do mercado americano, onde empresas com receita de US$ 50 milhões conseguem fazer IPOs de forma relativamente simples. No Brasil, os custos de listagem e manutenção como companhia aberta são proporcionalmente muito maiores.
Há mérito no argumento, mas ele tem limites evidentes. A raiz do problema é fiscal, não regulatória. A Selic está onde está porque o Banco Central precisa conter uma inflação pressionada por gastos públicos crescentes. Enquanto a trajetória fiscal não se estabilizar, os juros permanecerão elevados e o mercado de capitais continuará subdimensionado em relação ao PIB.
O que esperar para os próximos meses
O consenso entre gestores ouvidos pela Bloomberg é que o ciclo de cortes da Selic, se vier, não começará antes do primeiro trimestre de 2026. Isso significa que o segundo semestre de 2025 ainda será de travamento para ofertas de ações. A janela de IPOs, que historicamente se abre quando a Selic cai abaixo de 10%, parece distante.
Para investidores, o cenário reforça a tese de que a renda fixa seguirá dominando as alocações nos próximos trimestres. Fundos atrelados ao CDI captaram R$ 42 bilhões líquidos no primeiro semestre, enquanto fundos de ações perderam R$ 18 bilhões em resgates.
A fala de Berenguer, por mais direta que seja, não contém novidade factual. O que ela revela é algo mais sutil: quando o maior distribuidor de investimentos do país admite publicamente que o mercado está travado, o recado para Brasília é que a política econômica precisa mudar. Resta saber se o recado chega antes que mais empresas brasileiras optem por abrir capital em Nova York.