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Wall Street perde fôlego após rali da IA: o que esperar agora

Euforia com o agente de IA da Meta durou pouco. Petróleo, tensões geopolíticas e dívida francesa pressionam mercados globais nesta terça-feira.

Wall Street perde fôlego após rali da IA: o que esperar agora
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O entusiasmo durou exatamente uma sessão. Os futuros dos principais índices americanos operam em queda nesta terça-feira (22), depois que o rali provocado pelo agente de inteligência artificial Muse, da Meta Platforms, perdeu tração durante o pregão asiático. Na véspera, um índice de ações de semicondutores dos EUA havia subido mais de 4%, e a Advanced Micro Devices (AMD) ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado. As ações da Meta chegaram a disparar 11%. Agora, o mercado digere a ressaca.

O padrão não é novo. Desde o início do ciclo de euforia com IA generativa, em 2023, Wall Street alternou entre saltos abruptos de otimismo e correções rápidas quando investidores percebem que a precificação avançou mais rápido que os fundamentos. O episódio do Muse segue essa mesma lógica: forte adesão inicial ao produto, compra agressiva de semicondutores e, em seguida, realização de lucros.

Por que o rali de IA perdeu força tão rápido

O mercado asiático foi o primeiro a frear o entusiasmo. Embora as bolsas da região tenham fechado em alta moderada, puxadas por tecnologia e saúde, o impulso não foi suficiente para sustentar o movimento da sessão anterior em Nova York. A Alibaba subiu cerca de 3% em Hong Kong após revelar um novo chip de IA e planos de expansão em data centers, mas o tom geral ficou mais cauteloso.

Dois fatores ajudam a explicar essa perda de momentum. Primeiro, a AMD a US$ 1 trilhão coloca a empresa num patamar de valuation que exige execução impecável trimestre após trimestre. Segundo, o próprio Muse ainda precisa demonstrar geração de receita concreta para justificar a reavaliação do setor inteiro. Como já abordamos em nossa cobertura de tecnologia, agentes de IA são promissores, mas a monetização segue como o grande ponto de interrogação para o mercado.

Petróleo e geopolítica entram na equação

Enquanto a narrativa de IA esfriava, o petróleo voltou a subir após quatro sessões consecutivas de queda. O gatilho foi geopolítico: o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, emitiu um alerta sobre possível paralisação de voos comerciais iranianos, elevando as tensões entre Washington e Teerã.

O presidente Donald Trump discursa na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York nesta terça-feira. Investidores monitoram a possibilidade de um encontro com o presidente iraniano, o que poderia tanto aliviar quanto escalar o cenário. Mas os olhares estão voltados principalmente para o fim de semana, quando Trump e Xi Jinping devem se reunir. Qualquer sinal de reaproximação entre as duas maiores economias do mundo teria impacto imediato sobre mercados financeiros globais, do câmbio às commodities.

A alta do petróleo complica a tese de desinflação que sustenta a expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve. Se os preços de energia voltarem a pressionar o índice de preços ao consumidor, o espaço para flexibilização monetária encolhe.

França acende alerta fiscal na Europa

Do outro lado do Atlântico, os mercados europeus operam pressionados por seguros e serviços financeiros. Mas o dado mais relevante vem da França: o custo do seguro contra calote da dívida pública francesa (CDS) subiu ao maior nível desde março de 2020, auge da pandemia. Os títulos soberanos franceses, os OATs, estão entre os de pior desempenho entre as grandes economias em 2026.

A trajetória fiscal da França preocupa porque o país combina déficit elevado com crescimento fraco e instabilidade política. Para investidores brasileiros, o paralelo é direto: prêmios de risco soberano sobem quando o mercado perde confiança na disciplina fiscal, independentemente do tamanho da economia. É o mesmo mecanismo que pressiona os juros longos no Brasil quando a percepção fiscal se deteriora, como analisamos recorrentemente no portal.

China e commodities: sinais mistos

O minério de ferro fechou em queda na China, pressionado por perspectivas de demanda desfavoráveis. A valorização do yuan adicionou pressão ao insumo, tornando as importações relativamente mais caras em moeda local para siderúrgicas chinesas. Para o Brasil, que depende fortemente das exportações de minério para a China, o dado merece atenção.

Ao mesmo tempo, a aposta da Alibaba em infraestrutura de IA sugere que o governo chinês segue disposto a redirecionar investimento de setores tradicionais, como construção civil e aço, para tecnologia de ponta. É uma transição estrutural que pode beneficiar chips e data centers, mas que reduz a demanda por commodities metálicas no médio prazo.

O que o investidor deve observar nas próximas horas

A agenda americana desta terça inclui a pesquisa de atividade industrial do Fed de Richmond, além de discursos de John Williams (Fed de Nova York) e Tom Barkin (Fed de Richmond). Ambos são vozes influentes dentro do comitê de política monetária. Qualquer sinalização sobre o ritmo de cortes de juros terá impacto direto sobre a curva de Treasuries e, por consequência, sobre ativos de risco globais.

O cenário para o restante da semana é de volatilidade elevada. O rali de IA mostrou que o apetite por risco segue vivo, mas a lista de riscos macroeconômicos e geopolíticos é longa o suficiente para impedir uma alta sustentada sem novos catalisadores. Entre o encontro Trump-Xi, o petróleo pressionado por tensões no Oriente Médio e o estresse fiscal europeu, a margem para surpresas negativas é considerável.

Para quem investe em ativos internacionais ou tem exposição a criptomoedas e ativos digitais, que historicamente reagem a movimentos de liquidez global, a mensagem é clara: a narrativa de IA continua poderosa como tese de longo prazo, mas no curto prazo, o macro manda.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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