Finanças

Wall Street cai com tensão EUA-Irã e fadiga do rali de IA

Ataques mútuos entre EUA e Irã e valuations esticados em IA derrubaram S&P 500 e Nasdaq. Balanço da Alphabet na quarta pode definir o próximo capítulo do setor.

Wall Street cai com tensão EUA-Irã e fadiga do rali de IA
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

Os principais índices de Nova York fecharam no vermelho nesta segunda-feira. Dois fatores convergiram para pressionar o humor dos investidores: a escalada militar entre Estados Unidos e Irã e o esgotamento técnico das ações ligadas à inteligência artificial e semicondutores, que vinham sustentando os índices nas últimas semanas.

O S&P 500 e o Nasdaq encerraram em tom negativo após ensaiarem recuperação pela manhã. A Apple recuou mais de 2% e pesou sobre o Dow Jones. No lado oposto, a AMD chegou a subir 4% com o anúncio de uma parceria ampliada com a Microsoft para o Azure, mas desacelerou e fechou em alta de 1,58%.

O petróleo Brent, referência global, avançou 1,27% e fechou a US$ 89,22 o barril na ICE de Londres, refletindo o risco geopolítico crescente.

O que está acontecendo entre EUA e Irã

A sessão desta segunda foi marcada por uma sequência de eventos militares que elevou o prêmio de risco nos mercados globais. Após a nona noite consecutiva de ataques americanos ao Irã, a Guarda Revolucionária Islâmica respondeu com mísseis balísticos contra aeronaves dos EUA no aeroporto de Aqaba, na Jordânia, além de alvos militares no Kuwait e na Síria.

O presidente Donald Trump publicou na Truth Social que “sempre que o Irã matar um soldado norte-americano, pagará por essa morte muitas vezes mais”, orientação repassada ao secretário da Guerra, Pete Hegseth, e ao chefe do Estado-Maior Conjunto, Daniel Caine. Segundo o site Axios, Trump quer que o Irã pague pela morte recente de soldados americanos.

O governo iraniano confirmou que recebeu propostas de mediadores para reduzir as tensões, mas não comentou relatos de que o Catar teria sugerido um cessar-fogo de 10 dias. Em paralelo, os houthis do Iêmen, grupo apoiado pelo Irã, anunciaram um embargo marítimo contra a Arábia Saudita, chamando o país de “criminoso”.

Para quem investe, o ponto central é o petróleo. Como explicamos em nossa cobertura de finanças, a commodity é a variável que conecta conflitos no Oriente Médio ao bolso do investidor brasileiro. Com o Brent se aproximando dos US$ 90, a pressão inflacionária global volta ao radar, o que pode atrasar cortes de juros tanto nos EUA quanto no Brasil.

A fadiga do rali de IA começa a aparecer

As ações de tecnologia tentaram se recuperar pela manhã, mas perderam fôlego ao longo da tarde. O movimento não é aleatório. Ele reflete uma ansiedade crescente do mercado sobre a relação entre os investimentos massivos em inteligência artificial e o retorno concreto nos resultados trimestrais.

As big techs americanas gastaram centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA nos últimos trimestres. O capex combinado de Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta atingiu patamares recordes. Agora, a pergunta que o mercado faz é direta: onde está o lucro?

Com valuations esticados, qualquer sinal de frustração nos balanços pode provocar correções relevantes. A temporada de resultados das big techs começa na prática na quarta-feira, quando a Alphabet divulga os números do segundo trimestre de 2026. O resultado será tratado como termômetro para todo o setor.

A AMD trouxe uma notícia positiva ao ampliar sua parceria estratégica com a Microsoft, expandindo o uso de GPUs, CPUs e soluções de rede no Azure. Mas o mercado não sustentou o entusiasmo inicial. Isso diz algo: em momentos de incerteza, boas notícias isoladas não são suficientes para segurar um setor inteiro.

O que o investidor brasileiro deve monitorar

A combinação de risco geopolítico e possível decepção nos balanços de tecnologia cria um ambiente de cautela que não fica restrito a Wall Street. O real, o Ibovespa e a curva de juros brasileira são sensíveis aos dois fatores.

Petróleo acima de US$ 89 encarece a gasolina, o diesel e insumos industriais. Se o Brent romper a barreira dos US$ 90 de forma sustentada, a Petrobras pode se beneficiar no curto prazo, mas a economia como um todo sofre com pressão inflacionária. Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto dos juros nos investimentos, uma inflação de commodities pode forçar o Banco Central a manter a Selic elevada por mais tempo.

Já a fraqueza em IA e semicondutores afeta diretamente os fundos de investimento brasileiros com exposição ao Nasdaq e a BDRs de big techs. Segundo dados da B3, a participação de pessoas físicas em BDRs cresceu significativamente nos últimos dois anos, o que torna esse tipo de correção mais relevante para o investidor local do que seria há cinco anos.

O que esperar da semana

O balanço da Alphabet na quarta-feira será o grande catalisador. Os investidores querem ver três coisas: crescimento de receita em cloud computing impulsionado por IA, monetização do Gemini e projeções de capex para os próximos trimestres. Se a Alphabet decepcionar, o efeito cascata sobre Nvidia, AMD, Microsoft e o restante do setor pode ser significativo.

No front geopolítico, a dinâmica entre EUA e Irã permanece instável. Enquanto as conversas diplomáticas continuam em paralelo aos ataques, o mercado precifica o pior cenário e só relaxa quando há confirmação de avanços concretos nas negociações. A ausência de um cessar-fogo formal mantém o petróleo pressionado para cima.

Para o investidor que acompanha o cenário macro global, a lição desta segunda é clara: o rali de IA não é imune à realidade. Quando o risco geopolítico sobe e os fundamentos ainda não justificam os preços, a gravidade financeira cobra seu preço. A semana promete definir se estamos diante de uma pausa saudável ou do início de uma rotação mais profunda para fora de tecnologia.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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