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Wall Street fecha em alta, mas semana é de perdas com Treasuries

Wall Street recuperou fôlego na sexta, mas encerrou a semana no vermelho. Treasuries, Nvidia e dados de consumo ditam o cenário para os próximos dias.

Wall Street fecha em alta, mas semana é de perdas com Treasuries
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

As bolsas de Nova York encerraram a sexta-feira, 21 de agosto, em território positivo. O Dow Jones subiu 0,98%, aos 53.277 pontos. O S&P 500 avançou 0,43%, para 7.674 pontos. O Nasdaq acompanhou com ganho de 0,43%, fechando em 26.180 pontos.

A alta, porém, não foi suficiente para salvar a semana. No acumulado dos últimos cinco pregões, o Dow Jones recuou 1,97%, o S&P 500 perdeu 0,64% e o Nasdaq cedeu 0,69%. O protagonista por trás desse desempenho negativo foram os rendimentos dos títulos soberanos americanos, os Treasuries, que voltaram a subir na sexta-feira e ditaram o ritmo das negociações ao longo de toda a semana.

Por que os Treasuries estão no comando do mercado

Quando os rendimentos dos Treasuries sobem, o custo de oportunidade de investir em renda variável aumenta. É uma conta simples: se o título de 10 anos do governo americano paga mais, o prêmio exigido para correr risco em ações também precisa ser maior. Isso pressiona múltiplos, especialmente de empresas de crescimento.

A dinâmica não é nova. Desde o início do ciclo de aperto monetário do Fed, em 2022, essa correlação inversa entre yields e ações de tecnologia se intensificou. O diferencial agora é que o mercado opera em um cenário de incerteza dupla: não sabe exatamente quando os cortes de juros virão e, ao mesmo tempo, precisa digerir dados econômicos que mostram uma economia americana ainda resiliente.

Para quem acompanha o mercado financeiro global, o recado é claro. Enquanto os Treasuries não encontrarem um teto, a volatilidade em Wall Street tende a persistir.

Nvidia recua antes do balanço e Goldman Sachs lidera o Dow

No Dow Jones, o Goldman Sachs liderou as altas com ganho de 3,7%, seguido pela farmacêutica Merck, que subiu 2,4%. No lado negativo, a Honeywell caiu 2,4% e a Nvidia recuou 0,97%.

O caso da Nvidia merece atenção especial. A gigante de semicondutores vem negociando sob pressão dupla. Primeiro, surgiram informações sobre um possível acordo com a sul-coreana Rebellions, transação que pode abrir precedentes relevantes no setor de chips. Segundo, a empresa se aproxima da divulgação de seu balanço trimestral na próxima semana, evento que costuma gerar volatilidade considerável.

Vale lembrar que a Nvidia se tornou uma espécie de termômetro para o setor de inteligência artificial. Seus resultados influenciam diretamente o sentimento sobre toda a cadeia de tecnologia. Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto da IA nos mercados, o desempenho da empresa tem efeito cascata sobre dezenas de tickers.

Moderna dispara 8,8% com avanço em vacina contra câncer

Um dos destaques individuais do pregão foi a Moderna, que subiu 8,8%. A alta veio na esteira de resultados preliminares de um ensaio clínico de fase 3 de uma vacina de RNA mensageiro contra um tipo de câncer, desenvolvida em parceria com a Merck.

Especialistas avaliam que os dados podem representar um marco para a imunoterapia personalizada contra tumores. Se confirmados em fases posteriores, a tecnologia de mRNA, que ganhou escala global durante a pandemia de Covid-19, ganharia uma segunda vida comercial relevante. Para a Moderna, que enfrentou queda significativa de receita após o fim da demanda pandêmica, é um catalisador fundamental.

Outra ação em destaque foi a Pilgrim’s Pride, que subiu 3,2% na sessão e acumulou ganhos na semana. O impulso veio de dois lados: o presidente Donald Trump anunciou um acordo para “reduzir substancialmente” o preço da carne moída para famílias americanas, e a empresa recebeu uma proposta de aquisição da JBS.

O que esperar da próxima semana: PCE e Jackson Hole

A agenda da semana que vem concentra dois eventos com potencial de mover o mercado de forma significativa.

O primeiro é o relatório de renda e gastos pessoais de julho, que inclui o índice PCE, a medida de inflação preferida pelo Federal Reserve. Segundo estimativas do Deutsche Bank, os dados devem mostrar uma demanda do consumidor ainda resiliente, ao mesmo tempo em que as pressões inflacionárias subjacentes dão sinais de arrefecimento. Se confirmado, esse cenário reforçaria a tese de “pouso suave” da economia americana.

O segundo evento é a fala do presidente do Fed, Kevin Warsh, no simpósio de Jackson Hole. A expectativa é que Warsh aborde a estrutura de política monetária de longo prazo e as prioridades de suas forças-tarefa. O mercado estará atento a qualquer sinal sobre o timing dos próximos movimentos de juros.

Para investidores brasileiros, a combinação desses fatores importa diretamente. Como exploramos em análises sobre os impactos do cenário macro americano, movimentos nos juros dos Estados Unidos afetam o fluxo de capital para mercados emergentes, o câmbio e, consequentemente, os ativos locais.

O que isso significa para quem investe

A semana deixou uma lição importante. Mesmo com um fechamento positivo na sexta-feira, o saldo semanal foi negativo para os três principais índices de Wall Street. Isso mostra que o mercado americano está em um regime de “rali de alívio seguido de correção”, padrão típico de momentos em que a política monetária domina a narrativa.

O investidor que olha apenas para o fechamento diário pode ter uma leitura distorcida. O quadro mais honesto é o semanal: Dow Jones perdendo quase 2% em cinco pregões, com os Treasuries subindo e pressionando valuations.

A próxima semana será decisiva. O PCE de julho pode confirmar ou negar a tese de desinflação gradual. O discurso de Warsh em Jackson Hole pode dar pistas concretas sobre a trajetória dos juros. E o balanço da Nvidia pode definir o humor do setor de tecnologia para o restante do terceiro trimestre. São três vetores que, juntos, têm potencial para definir a direção do mercado nas próximas semanas.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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