Finanças

Wall Street fecha em alta: por que a IA venceu o medo do Fed

Bolsas de NY subiram na semana mesmo com Treasuries pressionados. O otimismo com IA superou o temor de aperto monetário. Entenda o que isso muda.

Wall Street fecha em alta: por que a IA venceu o medo do Fed
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

As bolsas de Nova York encerraram a sexta-feira, 25 de setembro, em território positivo. O S&P 500 avançou 0,51%, aos 7.743 pontos. O Nasdaq subiu 0,48%, para 27.068 pontos. O Dow Jones ganhou 0,93%, fechando em 51.828 pontos. No acumulado semanal, os números foram ainda mais expressivos: Nasdaq liderou com alta de 2,06%, seguido pelo S&P 500 com 1,22% e pelo Dow Jones com 0,28%.

O dado mais relevante da semana, porém, não está nos índices em si. Está na contradição que eles revelam. Os rendimentos dos Treasuries subiram, as apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve na reunião de outubro ganharam força segundo a ferramenta CME FedWatch, e a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, declarou que a política monetária ainda não está restringindo a economia com força suficiente. Mesmo assim, o mercado subiu.

A explicação está em três letras: I, A.

IA sustenta o otimismo mesmo com juros em alta

Quem acompanha o mercado financeiro americano sabe que, em condições normais, a combinação de Treasuries em alta com expectativa de aperto monetário costuma derrubar ações de tecnologia. Papéis de crescimento são os mais sensíveis a juros porque seus valuations dependem de fluxos de caixa futuros trazidos a valor presente. Juros mais altos significam valor presente menor.

Mas o ciclo atual não obedece a essa lógica com facilidade. O fluxo de notícias corporativas ligadas à inteligência artificial criou uma dinâmica própria que, ao menos por enquanto, se sobrepõe ao cenário macroeconômico adverso.

Na sexta-feira, a Akamai Technologies disparou após anunciar um acordo de longo prazo com a Anthropic, uma das principais empresas de IA generativa do mundo. A Microsoft subiu 3,66% depois de apresentar novas capacidades do Copilot, seu assistente de inteligência artificial integrado ao ecossistema Office. São eventos concretos, com impacto direto em receita futura, e o mercado os precificou acima do ruído macro.

Até a Meta, que caiu 3,33% no pregão de sexta, acumulou avanço superior a 15% na semana. Isso mostra que o capital continua migrando com força para papéis ligados a IA quando há catalisadores específicos.

O peso dos dados da próxima semana

A questão é saber até quando essa dinâmica se sustenta. Analistas do Charles Schwab alertaram que a combinação de indicadores firmes nos Estados Unidos com rendimentos crescentes dos Treasuries elevou a importância do calendário econômico da próxima semana. A avaliação é direta: “Cada dado forte adicional pode empurrar os yields para cima, ao mesmo tempo em que eleva a convicção de uma alta de juros do Fed no próximo mês.”

Essa é uma leitura que investidores brasileiros com exposição global precisam monitorar de perto. Se o Fed de fato subir juros em outubro, o dólar tende a se fortalecer globalmente, pressionando moedas emergentes e ativos de risco. O real, que já opera sob pressão doméstica, pode sofrer um novo ciclo de desvalorização.

A queda mais intensa do petróleo durante a sessão de sexta-feira ajudou a aliviar parte da pressão sobre os Treasuries, o que deu fôlego para as bolsas sustentarem o sinal positivo. Mas esse alívio pode ser temporário se os dados de atividade da próxima semana reforçarem a tese de uma economia americana que se recusa a desacelerar.

Setor bancário também surfou a onda

Não foi apenas tecnologia que puxou o mercado. O setor bancário registrou alta generalizada, com JP Morgan e Goldman Sachs subindo mais de 1% cada. Isso faz sentido: juros mais altos favorecem a margem financeira dos bancos, que lucram com o spread entre o que pagam em depósitos e o que cobram em empréstimos.

Quando bancos e techs sobem juntos, o mercado está precificando um cenário de pouso suave, ou melhor, de crescimento persistente. A economia não desacelera o bastante para derrubar lucros corporativos, e a revolução de IA adiciona uma camada extra de otimismo.

O risco dessa leitura é que ela ignora o efeito cumulativo do aperto monetário. Como já analisamos sobre o impacto dos juros americanos nos mercados globais, os efeitos de juros elevados se manifestam com defasagem. Pode levar trimestres até que o crédito mais caro se traduza em desaceleração real do consumo e do investimento.

O fator geopolítico no horizonte

Outro elemento que pode alterar a dinâmica na próxima semana é o comércio internacional. O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que “muito mais detalhes” sobre as negociações entre Washington e Pequim serão divulgados na segunda-feira, após reuniões entre Donald Trump e Xi Jinping.

O mercado tem tratado avanços nas negociações comerciais como catalisadores positivos. Um eventual acordo, mesmo que parcial, poderia adicionar outro vetor de alta. Por outro lado, qualquer sinalização de escalada tarifária tende a inverter o sentimento rapidamente. A volatilidade geopolítica permanece como variável de fundo.

O que isso significa para quem investe

O cenário atual exige atenção a uma dualidade incomum. De um lado, a narrativa de IA segue criando valor concreto em empresas específicas, o que sustenta índices como o Nasdaq mesmo em ambiente de juros elevados. De outro, o Fed mantém postura hawkish e os dados macroeconômicos americanos não colaboram para quem espera cortes de juros.

Para investidores com carteira diversificada, o recado é claro: a seleção de ativos importa mais do que a aposta direcional no índice. Papéis com exposição direta a contratos de IA e infraestrutura de computação em nuvem têm se comportado de maneira distinta do restante do mercado. Tratar o S&P 500 como bloco homogêneo é um erro analítico que este ciclo expõe com frequência.

A próxima semana será decisiva. Se os dados americanos vierem fortes e o Fed sinalizar aperto adicional, o mercado terá que decidir se a tese de IA aguenta sozinha o peso dos juros mais altos. Até agora, aguentou. Mas cada ponto-base adicional nos Treasuries torna essa equação mais difícil.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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