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Vale: o que muda se o minério ficar em US$ 100 por anos

Analistas revisam tese sobre minério de ferro e veem preços estáveis por mais tempo. Para a Vale, isso pode significar uma reprecificação de até 75% nas ações.

Vale: o que muda se o minério ficar em US$ 100 por anos
Foto: Kefentse Molotsane / Unsplash

Durante os últimos cinco anos, uma parcela significativa do mercado financeiro apostou na mesma direção: o preço do minério de ferro estava prestes a desabar. A desaceleração da China, o início da produção da mega reserva de Simandou na Guiné e a percepção de excesso de oferta sustentavam a tese. Só que o colapso nunca veio.

A segunda commodity mais negociada do planeta segue oscilando ao redor de US$ 100 por tonelada. E agora, um número crescente de analistas começa a considerar que esse patamar não é um desvio temporário, mas sim o novo normal. Se estiverem certos, a Vale negocia com um desconto difícil de justificar.

Por que o minério de ferro não caiu como o mercado esperava

A explicação passa por três fatores que vinham sendo sistematicamente subestimados. O primeiro é o esgotamento natural de minas mais antigas, especialmente na Austrália. Essa exaustão retira em média 50 milhões de toneladas por ano da oferta global, um volume que mais do que compensa a entrada gradual de Simandou, cuja produção deve alcançar 120 milhões de toneladas ao longo de quatro anos.

O segundo fator é a diversificação geográfica da demanda. A Índia, historicamente exportadora de minério, caminha para se tornar importadora líquida. Regiões do Sudeste Asiático também ampliaram consumo. O resultado é que, mesmo com a China estabilizando suas compras em vez de acelerá-las, a demanda agregada não encolheu como muitos projetavam.

O terceiro elemento é regulatório. Pequim adotou medidas para conter a especulação nos contratos futuros de minério na Dalian Commodity Exchange e passou a centralizar compras em um órgão estatal. Essas intervenções, paradoxalmente, contribuíram para reduzir a volatilidade do preço, algo que historicamente penalizava os múltiplos das mineradoras. Analistas do Santander estimam que, entre 2008 e 2026, as ações do setor negociavam com um prêmio de aproximadamente 13% nos períodos de baixa volatilidade.

Quanto vale a Vale com minério a US$ 100

A Vale negocia hoje a 4,3 vezes EV/EBITDA projetado para 2026. Historicamente, o setor oscilou entre 4,9 e 6,1 vezes. Mesmo na banda inferior, há espaço para expansão de múltiplo sem que o preço da commodity precise subir.

Estimativas de casas de análise apontam que, caso o minério se sustente próximo de US$ 100 por tonelada no longo prazo, o valor presente líquido da Vale seria de aproximadamente US$ 28 por ação. Isso representaria um potencial de valorização de 75% em relação aos níveis atuais. É um cenário que, até recentemente, poucos modelos de valuation consideravam como base.

O CFO da companhia, Marcelo Bacci, reforça que a persistência dos preços deveria, por si só, justificar múltiplos mais generosos. A lógica é simples: se o mercado precificava risco de queda abrupta e essa queda não se materializou em cinco anos, o desconto aplicado às ações perde razão de existir. Para quem acompanha o mercado de commodities, essa mudança de percepção pode ser o catalisador mais importante do ano.

A estratégia da Vale além do minério de ferro

Enquanto defende a longevidade do seu negócio principal, a Vale também aposta na diversificação. A subsidiária de metais básicos, focada em níquel e cobre, ganhou relevância estratégica. A projeção da companhia é dobrar a produção de cobre nos próximos dez anos, surfando a demanda crescente gerada pela eletrificação e pela transição energética global.

Cobre é um dos metais mais demandados para veículos elétricos, redes de energia renovável e infraestrutura de data centers. A Vale não abandona o minério para apostar em cobre. Trata-se de um complemento de portfólio em um setor com crescimento estrutural, como a expansão da infraestrutura de IA tem demonstrado na demanda por energia e materiais.

Na frente operacional do minério, a Vale retomou a liderança global de produção no ano passado e trabalha para reduzir custos. Segundo Bacci, a companhia já esteve na posição de menor custo do setor e tem condições de retornar a esse patamar. A combinação de volume crescente com custos decrescentes amplia margens mesmo em cenários de preço estável.

O que isso significa para o investidor e para o Brasil

A tese do “higher for longer” no minério de ferro tem implicações que vão além do preço da VALE3. O produto é a terceira maior pauta de exportação do Brasil, atrás apenas de soja e petróleo. Preços sustentados em patamares elevados beneficiam a balança comercial, a arrecadação federal via royalties e dividendos (a União detém golden shares na Vale) e o câmbio.

Para o investidor pessoa física, a questão central é se o mercado já começou a reprecificar essa nova realidade. A ação sobe 8% em 2026 e acumula alta de 58% nos últimos 12 meses, com a Vale avaliada em R$ 346 bilhões na B3. Ainda assim, o múltiplo de 4,3 vezes EBITDA sugere que boa parte do mercado segue cética.

A própria Rio Tinto, maior concorrente da Vale, apresentou recentemente evidências de que o mercado superestima a oferta e subestima a demanda. Quando duas das três maiores mineradoras do mundo convergem na mesma leitura, e os dados operacionais corroboram, o ônus da prova começa a mudar de lado.

O consenso de que o minério cairia para US$ 80 por tonelada pode estar se tornando, como análises recentes do mercado financeiro indicam, uma das apostas mais caras da década para quem ficou de fora.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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