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USDC ganha força na Binance e pressiona domínio do USDT

Acordo de cinco anos entre Binance e Circle dobrou o volume mensal de USDC na exchange e acirra a disputa com o Tether nos mercados emergentes.

USDC ganha força na Binance e pressiona domínio do USDT
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

A corrida das stablecoins lastreadas em dólar acaba de ganhar um novo capítulo. A Binance investiu US$ 100 milhões em ações da Circle e firmou um contrato comercial de cinco anos para promover e integrar o USDC em toda a sua plataforma. O movimento alinha os interesses financeiros da maior exchange cripto do mundo ao crescimento da segunda maior stablecoin do mercado, que hoje carrega uma capitalização de cerca de US$ 74 bilhões.

Mais do que um cheque, o acordo cria um modelo de distribuição com incentivo direto. A Binance se torna acionista da Circle e, ao mesmo tempo, canal de distribuição massivo para o USDC. Analistas do mercado comparam a estrutura ao modelo já existente entre Circle e Coinbase, onde a exchange americana distribui o USDC e participa da economia gerada pela stablecoin.

O impacto nos números de negociação do USDC

Os dados mostram que a primeira parceria entre as duas empresas, anunciada em dezembro de 2024, já transformou a presença do USDC na Binance. Quando o acordo inicial entrou em vigor, a exchange oferecia 140 pares de negociação cotados em USDC. Hoje, são 329, segundo dados da Kaiko. Para efeito de comparação, o número de pares havia crescido de apenas 39 em 2021 para 140 no fim de 2024, um ritmo muito mais lento.

O volume mensal de negociação do USDC na Binance também praticamente dobrou. Antes da parceria, os números oscilavam entre US$ 20 bilhões e US$ 40 bilhões mensais. Agora, o volume se mantém consistentemente acima de US$ 80 bilhões. Em termos de atividade diária, a Binance processa entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões em volume spot de USDC, algo entre 10 e 20 vezes mais do que a maioria das outras exchanges, que ficam abaixo de US$ 500 milhões.

O dado mais revelador é que outras grandes exchanges não registraram crescimento proporcional nos seus volumes de USDC. Isso sugere que o aumento é atribuído quase inteiramente à estratégia da Binance, não a uma migração orgânica do mercado como um todo. Quem acompanha a evolução do mercado cripto sabe que distribuição é tão importante quanto o produto em si.

O USDT ainda domina, mas a pressão aumenta

O Tether (USDT) mantém uma capitalização de mercado de aproximadamente US$ 140 bilhões, quase o dobro do USDC. Sua rede de pares de negociação, liquidez local e hábito de uso estão profundamente enraizados, especialmente em mercados emergentes da Ásia, da África e da América Latina.

Martins Benkitis, cofundador e CEO da Gravity Team, resume o desafio: a distribuição sozinha não muda o cenário de uma hora para outra. O USDT possui pares de negociação profundos, liquidez local consolidada e, sobretudo, uma base de usuários que já está acostumada a utilizá-lo. São anos de vantagem competitiva que não se dissolvem com um único acordo comercial.

Ainda assim, a pressão é real. Com a Binance direcionando ativamente seus usuários para o USDC, o Tether enfrenta erosão gradual justamente nos mercados onde construiu sua fortaleza. Como analisamos em nosso guia sobre stablecoins, a competição nesse segmento não se define apenas por capitalização, mas por integração com infraestrutura de pagamentos e conformidade regulatória.

Circle expande para além da emissão de stablecoins

A estratégia da Circle vai além de simplesmente competir em volume com o Tether. A empresa lançou o Circle Payments Network, uma rede projetada para conectar instituições financeiras em pagamentos via stablecoin. Recentemente, anunciou a aquisição da Tazapay, com sede em Singapura, por US$ 400 milhões, incorporando relacionamentos bancários locais e trilhos de pagamento em mercados emergentes.

Esse movimento posiciona a Circle em duas frentes simultâneas: o mercado cripto nativo, via Binance e Coinbase, e o sistema financeiro tradicional, via sua rede de pagamentos e aquisições estratégicas. A aposta é que, à medida que stablecoins migram de instrumento de trading para infraestrutura de pagamentos, a conformidade regulatória e as conexões bancárias se tornem diferenciais decisivos.

O cenário competitivo também se amplia. Empresas como Visa, Mastercard e Stripe têm avançado na infraestrutura de pagamentos com stablecoins, criando um ecossistema onde a emissão da moeda em si é apenas uma camada. Nesse contexto, como discutimos na análise sobre tokenização e o futuro dos pagamentos digitais, o diferencial competitivo se desloca para quem controla a distribuição e a experiência do usuário final.

O que isso significa para o investidor

A disputa entre USDC e USDT tem implicações práticas para quem opera no mercado cripto. Mais pares de USDC na Binance significam mais opções de negociação com uma stablecoin emitida por uma empresa regulada nos Estados Unidos e que mantém reservas auditáveis. Para traders que operam em mercados emergentes, a liquidez crescente do USDC reduz spreads e custos de conversão.

Do ponto de vista macro, a entrada de capital institucional e a formalização de parcerias comerciais entre emissores de stablecoins e grandes exchanges indicam amadurecimento do setor. A região Ásia-Pacífico se consolida como campo de prova para stablecoins reguladas, com jurisdições como Singapura, Hong Kong e Japão definindo marcos regulatórios que favorecem emissores em conformidade.

A questão central permanece: distribuição é condição necessária, mas não suficiente, para desbancar um incumbente com sete anos de vantagem. O acordo Binance-Circle eleva o piso competitivo do USDC. Reverter a liderança do USDT, contudo, exigirá não apenas volume, mas mudança de hábito de milhões de usuários que já operam em USDT no dia a dia.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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