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USDA surpreende com safra recorde e grãos caem em Chicago

Relatório do USDA contrariou expectativas do mercado ao elevar produtividade de milho e soja nos EUA. Preços recuaram forte em Chicago e impactam cadeia agrícola global.

USDA surpreende com safra recorde e grãos caem em Chicago
Foto: MELQUIZEDEQUE ALMEIDA / Unsplash

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) publicou seu relatório mensal de oferta e demanda com números que pegaram o mercado no contrapé. As estimativas de produção de milho e soja foram elevadas de forma significativa, contrariando as projeções de analistas que esperavam justamente o oposto. O resultado foi uma queda acentuada nos contratos futuros em Chicago: o milho com vencimento em dezembro recuou 4,9%, para US$ 4,75 por bushel, enquanto a soja para novembro caiu 0,45%, para US$ 12,81.

A surpresa não está apenas nos números absolutos, mas no descompasso entre os dados do USDA e o que o mercado vinha precificando. Ondas de calor no verão americano, chuvas tardias e relatos de danos à qualidade das lavouras apontavam para uma direção oposta. A questão que fica para quem acompanha o setor agrícola é: o que esse relatório significa na prática para a cadeia de commodities e, por extensão, para investidores expostos a esse mercado?

Os números que contrariaram o consenso

O USDA estimou a produção de milho nos EUA em 16,034 bilhões de bushels, com produtividade média de 181,2 bushels por acre. Para efeito de comparação, a projeção de setembro indicava uma safra de 15,8 bilhões de bushels e produtividade de 178,5 bushels por acre. Analistas consultados em pesquisas do mercado esperavam uma queda para 15,721 bilhões de bushels, com rendimento médio de 177,7 bushels por acre.

Ou seja, o USDA entregou um número 313 milhões de bushels acima do esperado pelo consenso. Se confirmada, será a segunda maior safra de milho da história americana.

No caso da soja, o cenário foi semelhante. O órgão projetou uma produção recorde de 4,562 bilhões de bushels, com produtividade de 53,1 bushels por acre. O mercado esperava 4,534 bilhões de bushels e rendimento de 52,8 bushels. Aqui, a diferença pode parecer menor em termos percentuais, mas o recorde histórico reforça a leitura de abundância de oferta.

Por que o mercado ficou cético

A reação dos operadores não foi apenas de surpresa, mas de questionamento aberto à metodologia do USDA. Jim Gerlach, presidente da A/C Trading, classificou os números como “totalmente inesperados” e disse que eles “parecem contradizer as evidências observadas na prática”. A crítica tem fundamento: até domingo, apenas 23% da safra de milho e 25% da de soja haviam sido colhidas, índices abaixo das médias de cinco anos de 27% e 33%, respectivamente.

Com a colheita ainda tão incipiente, parte do mercado considera prematuro cravar uma produtividade tão elevada. As chuvas de setembro atrasaram o trabalho no campo e limitaram as informações disponíveis sobre rendimento real. O funcionário do USDA Anthony Prillaman justificou os números citando pesquisas com agricultores, amostras de campo e dados de satélite, mas reconheceu que o processo de colheita ainda está em estágio inicial.

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Esse tipo de divergência entre dados oficiais e percepção de mercado não é inédito. Como já abordamos em análises sobre o mercado financeiro global, momentos de discrepância costumam gerar volatilidade adicional nas semanas seguintes, à medida que dados reais de colheita confirmam ou desmentem as projeções.

Impacto para quem investe em commodities

A queda dos preços em Chicago tem implicações diretas para diferentes elos da cadeia. Para os produtores americanos, o cenário é especialmente desafiador. Preços menores chegam justamente num momento de custos operacionais elevados, com o diesel registrando altas relevantes e insumos agrícolas ainda pressionados.

Para o Brasil, o movimento tem leitura dupla. De um lado, a safra recorde americana amplia a competição global por compradores, o que tende a pressionar os preços internacionais e, consequentemente, os prêmios pagos pela soja e pelo milho brasileiros. De outro, a desvalorização do real frente ao dólar funciona como amortecedor parcial, mantendo a rentabilidade em reais relativamente protegida.

Investidores expostos a ETFs de commodities agrícolas ou a ações de empresas do agronegócio listadas na B3 precisam calibrar suas expectativas. Um excesso de oferta global, se confirmado, pode manter os preços deprimidos ao longo do próximo trimestre. Quem acompanha o ciclo de commodities e seus reflexos no mercado brasileiro sabe que esses movimentos costumam reverberar nas margens de frigoríficos, tradings e produtoras de insumos.

O que esperar daqui para frente

O ponto central é que os números do USDA ainda são estimativas. A colheita americana segue atrasada e os próximos relatórios semanais de progresso das lavouras serão determinantes para validar ou corrigir as projeções. Se os rendimentos reais ficarem abaixo do estimado, o mercado tende a corrigir para cima com velocidade.

Historicamente, os relatórios de outubro do USDA passam por revisões relevantes em novembro e dezembro, quando a colheita está mais avançada. Em anos com condições climáticas adversas, como parece ser o caso, essas revisões costumam ser para baixo.

Para o investidor, a lição prática é evitar tomar decisões de alocação com base em um único relatório. O mercado de grãos opera com margens apertadas de previsão e a volatilidade gerada por surpresas como essa tende a se dissipar à medida que dados reais substituem projeções. Como discutimos em nosso acompanhamento do cenário macroeconômico, o ambiente de juros elevados nos EUA adiciona uma camada extra de complexidade: o custo de carregamento de posições em futuros agrícolas sobe junto com as taxas, penalizando quem mantém posições compradas por períodos longos.

O relatório do USDA não encerra a discussão sobre a safra americana. Pelo contrário, abre um período de incerteza que só será resolvido com dados reais de colheita nas próximas semanas. Até lá, a prudência manda observar mais do que agir.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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