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Startup europeia levanta US$ 450 mi para desafiar a SpaceX

A The Exploration Company fechou a maior Series C já feita por uma empresa espacial europeia. O objetivo: construir foguetes reutilizáveis e quebrar a dependência do continente em relação à SpaceX.

Startup europeia levanta US$ 450 mi para desafiar a SpaceX
Foto: john mckenna / Unsplash

A fila para colocar objetos em órbita cresce, mas a infraestrutura espacial não acompanha a demanda. E o mercado começa a internalizar uma conclusão incômoda: depender de uma única empresa para isso é um risco estratégico que governos e investidores não estão mais dispostos a correr.

É nesse cenário que a The Exploration Company (TEC), com operações na Alemanha, França, Luxemburgo, Espanha e Itália, acaba de levantar US$ 450 milhões em uma rodada Series C. O montante é descrito como o maior já captado por uma empresa espacial europeia nessa fase de financiamento. Mas a corrida é global: nos Estados Unidos, a rival Stoke Space está no processo de captar US$ 1 bilhão em uma Series E.

Por que a Europa quer seus próprios foguetes reutilizáveis

A tecnologia de foguetes reutilizáveis foi pioneiramente desenvolvida pela SpaceX. O problema é que, com o avanço da constelação Starlink, os foguetes Falcon estão sendo cada vez mais reservados para lançar os próprios satélites da empresa de Elon Musk. Relatórios do setor indicam que a capacidade ociosa disponível para clientes terceiros está diminuindo, especialmente diante das incertezas sobre a transição para o Starship.

Isso gera uma janela de oportunidade concreta. A TEC já acumula mais de US$ 2 bilhões em contratos e compromissos, com pelo menos 10 missões de sua cápsula Nyx reservadas, segundo dados divulgados pela Atomico, um dos investidores da rodada.

A questão, porém, vai além do mercado. Existe uma dimensão geopolítica. À medida que o espaço ganha importância estratégica, governos europeus enxergam a dependência de lançadores americanos como uma vulnerabilidade de soberania. Tanto o presidente francês Emmanuel Macron quanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, elogiaram publicamente a captação da TEC. A rodada foi anunciada na véspera da Cúpula Espacial Internacional em Paris, o que não é coincidência.

Quem está por trás do cheque de US$ 450 milhões

A rodada foi coliderada pela Atomico e pelo Scaleup Europe Fund, gerido pela EQT, ao lado da americana Bessemer Venture Partners, cujo sócio Alex Ferrara passa a integrar o conselho da TEC. A composição transatlântica do investimento é um sinal relevante: mostra que investidores dos dois lados do oceano enxergam espaço para mais de um player no mercado de lançamentos orbitais.

A TEC é liderada por Hélène Huby, uma executiva francesa com duas décadas de experiência na Airbus e na ArianeGroup. Huby deixou claro que a empresa é financiada majoritariamente por capital privado e que isso molda sua estratégia. Em coletiva de imprensa, ela afirmou que adoraria ver a Europa investir em voos espaciais tripulados, mas reconheceu que convencer fundos de venture capital a alocar US$ 4 bilhões e esperar 10 anos pelo retorno não é viável.

A abordagem pragmática define o cronograma. Como discutimos em nossa cobertura de tecnologia, startups que dependem de capital privado precisam demonstrar marcos intermediários tangíveis para manter a confiança dos investidores.

Nyx, Storm e o caminho até o foguete completo

O foco imediato da TEC é a Nyx, uma cápsula reutilizável comparável à Dragon da SpaceX, capaz de transportar carga e, futuramente, pessoas. A meta é fazer a Nyx acoplar na Estação Espacial Internacional (que está em processo de aposentadoria) e retornar com segurança à Terra até novembro de 2028.

Os recursos da Series C também financiarão o Storm, um programa de motores de foguete que pavimenta o caminho para desenvolvimentos maiores. Huby reconheceu que construir a plataforma de lançamento e o foguete em si exigirá capital adicional no futuro.

Um detalhe técnico chama atenção: a TEC planeja utilizar combustão de estágio completo (full-flow staged combustion), a mesma tecnologia empregada pela SpaceX e pela Stoke Space. Segundo Huby, é o ciclo de motor mais difícil, mas também o mais eficiente do mundo. E seria a primeira vez que uma empresa europeia desenvolve esse tipo de propulsor.

Para quem acompanha o setor, a corrida por eficiência em lançamentos espaciais lembra a dinâmica de outras indústrias de infraestrutura: os custos iniciais são brutais, mas quem dominar a tecnologia reutilizável terá uma vantagem competitiva duradoura.

O que está em jogo nos próximos dez anos

A TEC não está sozinha na Europa. A startup alemã Isar Aerospace realizou seu primeiro lançamento na semana passada, a partir da Noruega. Huby elogiou o feito como positivo para todo o ecossistema, mas ressaltou que a TEC pretende construir um veículo significativamente maior que o Spectrum da Isar. A própria Isar, no entanto, também tem planos para lançadores de maior porte.

A razão é simples e vale para ambas: nos próximos cinco a dez anos, metade da comunicação de banda larga pode vir do espaço, data centers podem ser orbitais, e tudo isso demanda foguetes de grande porte com alta cadência de lançamento. Essa cadência só é economicamente viável com reutilização.

Para o investidor que acompanha tendências de venture capital em deep tech, o recado é claro: o setor espacial está deixando de ser uma aposta de nicho. Com rodadas de centenas de milhões de dólares se tornando comuns, a infraestrutura orbital caminha para se tornar uma classe de ativos tão disputada quanto data centers terrestres.

A diferença é que, no espaço, a barreira de entrada é ordens de magnitude maior. E quem chegar primeiro com tecnologia reutilizável e confiável terá décadas de vantagem. A TEC está apostando que a Europa não pode se dar ao luxo de ficar de fora dessa corrida.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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