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Tether e Cazaquistão estudam stablecoin lastreada no tenge

Cazaquistão assinou memorando com a Tether para estudar emissão de stablecoin em tenge e tokenização de ativos reais. Acordo é exploratório, mas sinaliza avanço da Ásia Central em cripto.

Tether e Cazaquistão estudam stablecoin lastreada no tenge
Foto: Aibek Skakov / Unsplash

O banco central do Cazaquistão, a Tether e a autoridade da cidade de Alatau assinaram um memorando de entendimento para estudar a emissão de uma stablecoin atrelada ao tenge cazaque e a tokenização de ativos do mundo real em infraestrutura blockchain. O acordo, divulgado nesta quarta-feira, é exploratório e não representa uma decisão final de lançamento. Mas o movimento revela algo maior do que o projeto em si: a Tether está se transformando numa espécie de consultora de infraestrutura financeira digital para Estados soberanos.

Para quem acompanha o mercado de stablecoins, o dado relevante não é apenas a parceria em si. É o padrão que ela confirma. A emissora do USDT, com cerca de US$ 140 bilhões em circulação, vem expandindo sistematicamente sua atuação para além do dólar digital, investindo em energia, pagamentos, commodities e plataformas de tokenização. O Cazaquistão é mais uma peça nesse tabuleiro.

O que está em jogo: stablecoin soberana e tokenização

O memorando tem dois eixos principais. O primeiro é o estudo de viabilidade de uma stablecoin atrelada ao tenge, a moeda local do Cazaquistão. O grupo pretende analisar como tokens semelhantes funcionam em outros países, mapear possíveis aplicações e preparar uma proposta para um piloto. Não há, por enquanto, cronograma definido nem compromisso formal de emissão.

O segundo eixo é a tokenização de ativos reais. A ideia é identificar quais classes de ativos, de títulos de dívida a imóveis, poderiam ser representadas em blockchain para facilitar negociação, transferência e uso como colateral. O piloto aconteceria em Alatau, uma cidade que opera sob regime jurídico especial desenhado para atrair fintechs e projetos de tecnologia financeira.

A plataforma Hadron, da Tether, que oferece infraestrutura para emissão e gestão de ativos tokenizados, é uma das tecnologias sendo avaliadas para o projeto. A Tether já opera a XAUT, um produto de ouro tokenizado com cerca de US$ 3,3 bilhões lastreados em barras físicas custodiadas na Suíça. A expertise da empresa com ativos reais em blockchain, portanto, não é teórica.

Por que a Ásia Central importa para o mercado cripto

O Cazaquistão não é um novato no universo de ativos digitais. O país construiu nos últimos anos um arcabouço regulatório próprio, mantendo o banco central como ator central no processo. Binur Zhalenov, vice-governador do banco central cazaque, afirmou que a intenção é “estudar minuciosamente as melhores práticas internacionais em emissão de stablecoins e tokenização de ativos reais”. É uma abordagem cautelosa, mas pragmática.

O contexto geopolítico ajuda a explicar o interesse. Países da Ásia Central e do sudeste asiático vêm se posicionando como laboratórios regulatórios para stablecoins e ativos digitais, competindo por relevância com centros financeiros tradicionais. A região da Ásia-Pacífico, de forma mais ampla, está se tornando um terreno estratégico para stablecoins reguladas, com marcos legais avançando em ritmo acelerado.

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Para o Cazaquistão, uma stablecoin em tenge poderia facilitar remessas internacionais, reduzir custos de transação em comércio bilateral e criar um canal de acesso a serviços financeiros digitais para a população não bancarizada. Segundo dados do Banco Mundial, cerca de 40% da população adulta do país ainda não possui conta bancária formal.

Tether como consultora de Estados: um novo modelo de negócio

O que chama atenção neste acordo é a posição que a Tether está ocupando. A empresa não está apenas oferecendo tecnologia. Ela vai conduzir workshops sobre reservas de stablecoins, mecanismos de emissão e tokenização para funcionários do banco central e outras agências governamentais. Na prática, está atuando como consultora de capacitação para uma autoridade monetária soberana.

Esse modelo representa uma evolução significativa. A Tether nasceu como emissora de uma stablecoin dolarizada voltada para traders de cripto. Hoje, está se reposicionando como fornecedora de infraestrutura financeira digital para governos. É um salto considerável, e não acontece sem riscos reputacionais. A empresa já enfrentou questionamentos sobre a transparência de suas reservas e processos regulatórios nos Estados Unidos, como discutimos em análises anteriores sobre o funcionamento de stablecoins.

Ainda assim, os números falam por si. Com US$ 140 bilhões em USDT circulando, a Tether é a terceira maior compradora de títulos do Tesouro americano entre entidades privadas. Essa escala dá à empresa um poder de negociação e uma credibilidade operacional que poucos concorrentes conseguem replicar.

O que isso significa para o investidor

Para quem investe em cripto, o acordo entre Tether e Cazaquistão reforça uma tese que vem ganhando força: stablecoins estão deixando de ser um instrumento puramente de mercado cripto para se tornarem peça de política monetária e infraestrutura financeira estatal. Isso tem implicações diretas na regulação global do setor.

Se mais países seguirem o caminho de explorar stablecoins em moedas locais com parceiros privados como a Tether, a pressão regulatória sobre emissores tende a aumentar, mas também aumenta a legitimidade do setor. O avanço regulatório cripto no mundo já aponta nessa direção, com marcos legais sendo discutidos na União Europeia, nos Estados Unidos e em diversos países asiáticos.

O piloto em Alatau, se sair do papel, pode se tornar uma referência para outros mercados emergentes que avaliam a mesma estratégia. Não por acaso, o memorando inclui um componente educacional robusto. É o tipo de movimento que costuma preceder decisões concretas de implementação, ainda que o caminho entre um memorando exploratório e uma stablecoin funcional seja longo e incerto.

O fato mais relevante, no fim das contas, não é se o tenge digital vai existir. É que bancos centrais de países de médio porte estão batendo na porta da Tether, e não o contrário. Isso diz muito sobre o estágio atual do mercado de stablecoins e sobre a direção que a infraestrutura financeira global está tomando.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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