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Tesouro IPCA+ puxa recorde do Tesouro Direto em junho

Tesouro Direto registrou R$ 10,1 bilhoes em vendas liquidas em junho, maior resultado da historia. Tesouro IPCA+ liderou com taxas acima de 8% ao ano.

Tesouro IPCA+ puxa recorde do Tesouro Direto em junho
Foto: Nacho Lledò / Unsplash

Tesouro Direto tem o melhor mes da historia

O Tesouro Direto encerrou junho com vendas liquidas de R$ 10,1 bilhoes, o maior resultado desde a criacao do programa. O numero e resultado de R$ 14,7 bilhoes em aplicacoes brutas contra R$ 4,6 bilhoes em resgates. O protagonista do mes tem nome: Tesouro IPCA+.

Os titulos atrelados a inflacao somaram R$ 4 bilhoes em vendas, mais que o dobro do registrado em maio. Com isso, o IPCA+ passou a representar 30,8% das compras totais, ultrapassando o Tesouro Selic, que ficou com 28,2%. Os prefixados responderam por 15,3% do volume.

Para quem acompanha o mercado de renda fixa no Brasil, a inversao e significativa. O Tesouro Selic liderava as preferencias dos investidores de forma quase ininterrupta nos ultimos anos. Perder a dianteira para o IPCA+ sinaliza uma mudanca de comportamento que merece atencao.

Por que o IPCA+ roubou a cena

A resposta esta nas taxas. O Tesouro IPCA+ 2032, um dos papeis mais negociados em junho, oferecia remuneracao superior a 8% ao ano acima da inflacao medida pelo IPCA. Para colocar em perspectiva, a media historica desse tipo de titulo gira entre 5% e 6% ao ano em termos reais.

Taxas nesse patamar sao raras. A ultima vez que investidores tiveram acesso a remuneracoes tao elevadas em titulos indexados a inflacao foi durante a crise de confianca fiscal de 2015 e 2016. Quem comprou na epoca e carregou ate o vencimento obteve retornos expressivos, bem acima de qualquer alternativa em renda fixa.

O cenario atual combina dois fatores que alimentam a demanda: juros nominais ainda elevados, com a Selic em patamar restritivo, e incerteza fiscal que pressiona os spreads de longo prazo. Para o investidor, o raciocinio e direto. Se a inflacao subir, o titulo protege. Se as taxas cairem com eventual melhora fiscal, o preco do papel sobe no mercado secundario, gerando ganho de capital.

Como detalhamos em nossa analise sobre a trajetoria da Selic, a politica monetaria segue como variavel central para quem aloca em renda fixa. O nivel atual de juros reais torna o IPCA+ particularmente atrativo para horizontes mais longos.

Perfil do investidor esta mudando

Os dados de junho revelam mais do que apetite por rendimento. Mostram uma mudanca no perfil de quem aplica no Tesouro Direto.

Primeiro, o volume de novos cadastros: 261.877 pessoas se registraram na plataforma ao longo do mes. Desses, quase 100 mil se tornaram investidores ativos, ou seja, efetivamente compraram titulos. O dado sugere que a renda fixa esta atraindo um publico novo, possivelmente motivado pelas taxas historicamente elevadas.

Segundo, o tamanho das operacoes. Mais da metade das transacoes (50,7%) movimentou menos de R$ 1 mil. Isso confirma que o Tesouro Direto continua cumprindo seu papel de democratizar o acesso a titulos publicos, algo que o investidor de menor porte pode aproveitar com aportes acessiveis.

Terceiro, e talvez o mais relevante, a faixa de prazo preferida mudou. Os titulos com vencimento entre cinco e dez anos saltaram de 34,4% das emissoes em maio para 45,7% em junho. Investidores estao dispostos a travar taxas elevadas por mais tempo, apostando que o cenario atual de juros reais nao se sustentara indefinidamente.

Estoque cresce 45% em doze meses

O avanco das aplicacoes levou o estoque total do Tesouro Direto a R$ 262,5 bilhoes em junho, alta de 4,6% em relacao aos R$ 251 bilhoes de maio. Na comparacao anual, o salto e de 45,5%, partindo dos R$ 180,4 bilhoes registrados em junho de 2025.

O crescimento de quase 46% em doze meses reflete tanto a entrada de novos recursos quanto a valorizacao dos titulos em carteira. Quando as taxas futuras cedem, mesmo que marginalmente, o estoque se beneficia pela marcacao a mercado dos papeis de longo prazo.

O ritmo de expansao tambem indica que o Tesouro Direto esta ganhando participacao dentro do universo de investimentos dos brasileiros. Com a caderneta de poupanca oferecendo rendimento real cada vez menor e os fundos DI cobrando taxas de administracao que corroem parte do ganho, os titulos publicos comprados diretamente se tornaram a alternativa mais eficiente em custo para o investidor pessoa fisica.

O que o recorde significa na pratica

O recorde de junho nao e apenas um numero bonito em relatorio. Ele sinaliza que uma parcela crescente de brasileiros esta migrando para instrumentos de renda fixa com melhor relacao risco-retorno, e fazendo isso de forma mais sofisticada.

A preferencia pelo IPCA+ em detrimento do Selic mostra que o investidor medio esta olhando alem do curto prazo. Quem compra IPCA+ com vencimento em 2032 aceita volatilidade no caminho em troca de um rendimento real travado por anos. Essa postura era tipica de investidores institucionais e agora se populariza entre pessoas fisicas.

O risco, naturalmente, existe. Se a Selic subir alem do esperado ou se a situacao fiscal se deteriorar, os precos desses titulos caem no curto prazo. Quem precisar vender antes do vencimento pode realizar prejuizo. Mas para quem tem horizonte de investimento alinhado ao prazo do papel, as taxas atuais oferecem um colchao de seguranca dificil de encontrar em outros ativos.

O contexto macroeconomico, com juros elevados e incerteza fiscal, criou uma janela de oportunidade em renda fixa que o mercado nao via ha quase uma decada. Os dados de junho mostram que os investidores perceberam isso.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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