Criptomoedas

Strategy engasga e expõe fragilidade do modelo de compra de Bitcoin

A desvalorização do STRC, título preferencial da Strategy, eleva o custo de capital da empresa e ameaça uma das maiores fontes de demanda institucional por Bitcoin.

Durante dois anos, a Strategy funcionou como uma engrenagem quase perfeita: emitir títulos, comprar Bitcoin, ver o preço subir, emitir mais títulos. O ciclo transformou a empresa de Michael Saylor na maior compradora corporativa da criptomoeda e, de quebra, em uma das narrativas mais poderosas do mercado. Agora, com o Bitcoin firmemente abaixo de US$ 60 mil, essa engrenagem começou a ranger.

No centro do problema está o STRC, a ação preferencial que a Strategy lançou como seu “momento iPhone”. O papel foi vendido a US$ 100 e prometia rendimento mensal elevado para investidores que quisessem exposição ao Bitcoin sem a volatilidade brutal das ações ordinárias da companhia. Cerca de 80% dos compradores foram investidores de varejo, segundo o próprio Saylor.

O STRC hoje negocia perto de US$ 75. A queda de 25% desde a emissão não apenas impôs perdas concretas a quem comprou o papel, mas fez o rendimento implícito disparar, sinalizando que o mercado exige um prêmio de risco muito maior para financiar a estratégia da empresa. Quando o custo de capital sobe, a máquina desacelera.

Por que o modelo de financiamento da Strategy importa para o Bitcoin

A Strategy não é apenas mais uma empresa que compra Bitcoin. Ela se tornou, na prática, uma das maiores e mais consistentes fontes de demanda institucional pela criptomoeda. A cada nova emissão de títulos, a companhia canalizava capital de Wall Street diretamente para o mercado de Bitcoin, funcionando como uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o ecossistema cripto.

Quando essa ponte começa a apresentar rachaduras, o efeito se propaga. O modelo dependia de um ciclo virtuoso: preço do Bitcoin subindo sustentava o valor das ações, que sustentava novas emissões, que financiavam novas compras. Em um cenário de queda prolongada, o ciclo se inverte. A nota de crédito B- da empresa, segundo analistas, reforça o caráter especulativo de toda a estrutura.

Como já analisamos em nossa cobertura sobre o mercado de criptomoedas, a dependência de fontes concentradas de demanda sempre representou um risco sistêmico para o Bitcoin. A Strategy tornou essa dependência ainda mais evidente.

A venda de 32 Bitcoins e a quebra de promessa

Em junho, a Strategy revelou a venda de 32 Bitcoins, sua primeira alienação desde 2022. O volume é irrelevante diante da posição total da empresa. Mas o simbolismo é enorme.

Saylor construiu parte de sua credibilidade sobre a promessa de nunca vender Bitcoin. A narrativa de “hodl eterno” não era apenas uma filosofia pessoal. Era o alicerce de confiança sobre o qual investidores aceitaram comprar títulos da empresa a taxas relativamente baixas. Ao vender, mesmo que uma fração mínima, a Strategy abriu espaço para que o mercado revisasse premissas que sustentavam todo o modelo de financiamento.

“O comportamento vacilante da Strategy continua assustando o mercado, lembrando outros grandes colapsos que o setor já viu”, disse Alex Blume, CEO da gestora Two Prime. A comparação com episódios anteriores não é gratuita. Estruturas que pareciam sólidas em mercados de alta, como a de empresas do ciclo 2021-2022, frequentemente se desfizeram quando o preço virou.

ETFs de Bitcoin e a erosão da demanda de varejo

O problema da Strategy não existe isolado. Os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos, que foram celebrados como a porta de entrada definitiva do capital institucional, registraram saídas líquidas de quase US$ 3 bilhões em junho. Muitos investidores que compraram cotas após o lançamento desses fundos permanecem no prejuízo.

Isso cria uma dinâmica perigosa. A participação do investidor de varejo enfraqueceu tanto nos ETFs quanto em instrumentos como o STRC. O Bitcoin ficou cada vez mais dependente de fontes institucionais de demanda justo quando a confiança nessas fontes começou a erodir. Como mostramos em nossa seção de finanças, o apetite por risco nos mercados globais recuou diante do cenário macro, afetando ativos especulativos de forma desproporcional.

A combinação de clima de aversão ao risco no exterior e dados de inflação nos EUA que não trouxeram alívio suficiente ajudou a empurrar o Bitcoin para baixo. Mas o gatilho mais específico, segundo Andreja Cobeljic, do Amina Bank, foi “o abalo de credibilidade na estratégia da Strategy”.

A tese que está sendo testada

O STRC não funciona como um título corporativo tradicional. Não tem data de vencimento, não dá direito sobre as reservas de Bitcoin da empresa e paga dividendos que podem ser reduzidos ou suspensos pelo conselho a qualquer momento. São riscos estruturais que, segundo analistas, podem não ter sido plenamente compreendidos pelos investidores de varejo que compraram a maior parte da emissão.

Produtos como o STRC representavam uma nova geração de títulos ligados a cripto: a promessa de transformar ativos digitais voláteis em investimentos de renda mais familiares. A tese era de que a engenharia financeira poderia tornar ativos especulativos mais palatáveis a um público amplo. O que está sendo testado agora é se esses instrumentos sobrevivem a um bear market prolongado ou se os riscos foram apenas reembalados, não de fato reduzidos.

Para quem investe em Bitcoin, a lição é prática. A discussão sobre a natureza do Bitcoin como ativo ganha uma camada extra de complexidade quando parte relevante da demanda depende de estruturas alavancadas e de engenharia financeira. Se a Strategy precisar desacelerar as compras, ou pior, vender parte de sua posição para honrar obrigações, o impacto no preço pode ser significativo.

O Bitcoin já sobreviveu a colapsos de empresas que pareciam pilares do ecossistema, como a FTX em 2022 e a Terra/Luna no mesmo ano. A diferença é que a Strategy opera dentro das regras de Wall Street, emitindo títulos regulados para investidores que esperavam algo mais seguro. Se essa confiança se romper de vez, o ciclo de queda pode se aprofundar antes de encontrar um piso.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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