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SpaceX no Nasdaq 100: por que os maiores ETFs ainda não vão comprar

A SpaceX estreou no Nasdaq 100, mas seu peso inicial é de apenas 1%. ETFs como o VOO só devem incluir a ação após junho de 2027. Entenda o que limita a demanda passiva.

SpaceX no Nasdaq 100: por que os maiores ETFs ainda não vão comprar
Foto: Monstera Production / Unsplash

A SpaceX agora faz parte do Nasdaq 100. A notícia, por si só, é relevante: trata-se da empresa de foguetes de Elon Musk entrando em um dos índices mais acompanhados do planeta, referência para cerca de US$ 800 bilhões em fundos passivos e ETFs. O JP Morgan estima que a demanda gerada apenas pelos fundos que replicam o índice deve atrair algo próximo de US$ 3,4 bilhões em fluxo para o papel.

Mas quem esperava uma enxurrada imediata de compras institucionais vai precisar recalibrar as expectativas. O peso inicial da SpaceX no índice é de aproximadamente 1%, e uma série de travas regulatórias e estatutárias impede que os maiores ETFs do mercado comprem a ação agora.

Por que o peso da SpaceX no Nasdaq 100 é tão baixo

A explicação está no free float. Apesar de a SpaceX ostentar um valor de mercado próximo de US$ 2 trilhões na tela, apenas 1% de suas ações circula livremente no mercado. O Nasdaq ajusta a ponderação dos componentes do índice com base nesse free float, limitando o peso a três vezes o valor de mercado ajustado pelo número de ações efetivamente em circulação.

Na prática, a companhia é tratada como se fosse uma empresa de US$ 300 bilhões. Isso a posiciona abaixo de cerca de 20 companhias no ranking do índice, atrás de nomes como Microsoft, Amazon, Tesla e Netflix. As maiores posições seguem sendo Nvidia e Apple, cada uma com mais de 7% de participação.

Para quem acompanha a dinâmica dos mercados globais, esse mecanismo de ajuste existe justamente para evitar distorções. Um IPO gigante com baixo free float poderia, sem essa trava, concentrar peso excessivo em um único papel e distorcer a diversificação que é a razão de existir de um índice.

Os ETFs que já têm SpaceX e os que ainda não podem comprar

A ação já aparece em pelo menos 148 ETFs. Alguns gestores chegaram a alterar suas regras estatutárias para incorporar o papel mais rapidamente. Os fundos que seguem o Russell 1000, como o iShares Russell 1000 e o Vanguard Russell 1000, já possuem SpaceX, embora com participação bastante modesta: cerca de 0,13%. No ETF Vanguard Total Stock Market, a alocação é inferior a 0,2%.

Porém, os maiores ETFs do mercado global continuam de fora. A S&P Dow Jones Indices decidiu manter as regras vigentes para sua série S&P 1500 Composite, que inclui o S&P 500. A exigência é clara: a empresa precisa apresentar lucro tanto no trimestre mais recente quanto na soma dos quatro trimestres anteriores.

Isso significa que ETFs extremamente populares como o VOO, da Vanguard, que replica o S&P 500, só devem incluir a SpaceX em suas carteiras após junho de 2027. É um prazo longo, que reflete uma filosofia conservadora de indexação. Como explicou a própria Vanguard, “a indexação é concebida para refletir o mercado e proporcionar ampla diversificação, em vez de reagir a distorções de curto prazo decorrentes de IPOs”.

Para investidores que alocam via ETFs passivos, entender qual índice o fundo segue passou a ser uma decisão relevante. Quem está no QQQ, o maior ETF atrelado ao Nasdaq 100 com quase US$ 500 bilhões em ativos, já tem exposição à SpaceX. Quem está no VOO, não.

O cronograma de liquidez e os lockups de Musk

A liquidez da SpaceX tende a crescer nos próximos meses, à medida que os períodos de lockup dos executivos e funcionários forem vencendo. As restrições de venda caem em etapas escalonadas, entre 70 e 135 dias após o IPO realizado em 12 de junho.

Mas há uma exceção importante: Elon Musk, que detém 46% do capital total da companhia, e alguns grandes investidores estão sujeitos a um lockup de 366 dias. Ou seja, até meados de 2026, a maior fatia do capital permanecerá travada. Enquanto isso, o free float continuará baixo e o peso no índice, contido.

No seu IPO, o maior da história, a SpaceX levantou US$ 86 bilhões, com a ação precificada a US$ 135. Após uma alta expressiva nos primeiros pregões, o papel devolveu boa parte da valorização. No dia de sua inclusão no Nasdaq 100, a ação recuou 6,8% e encerrou abaixo de US$ 150.

O que isso significa para quem investe em índices americanos

A entrada da SpaceX no Nasdaq 100 levanta uma discussão mais ampla sobre como IPOs de empresas com market cap trilionário, mas free float mínimo, desafiam a estrutura tradicional dos índices. Os mecanismos de ajuste funcionaram como deviam: impediram que uma ação com 1% de circulação livre recebesse peso desproporcional.

Para o investidor brasileiro que tem exposição a ETFs americanos, seja diretamente ou via BDRs, o ponto central é pragmático. A SpaceX já está no portfólio de quem investe via Nasdaq 100, mas com peso marginal. Quem investe via S&P 500 terá que esperar pelo menos mais um ano para ver a empresa de Musk entrar na carteira.

Como discutimos em nossa cobertura sobre alocação global, a escolha do índice de referência importa cada vez mais. O Nasdaq 100 e o S&P 500 têm filosofias distintas de inclusão, e essas diferenças geram divergências reais de exposição. A SpaceX é apenas o caso mais recente e mais visível dessa assimetria.

O fluxo estimado de US$ 3,4 bilhões em demanda passiva é significativo, mas representa apenas o começo. A verdadeira pressão compradora virá quando os lockups vencerem, o free float aumentar e, eventualmente, a empresa cumprir os critérios de lucratividade do S&P 500. Até lá, a SpaceX no índice é mais símbolo do que substância para a maioria dos grandes portfólios passivos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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