Criptomoedas

SpaceX libera US$ 101 bi em ações: o impacto no Bitcoin

A SpaceX destrava US$ 101 bilhões em ações com fim do lockup. A empresa detém 18.712 BTC, e o mercado avalia se o evento pode pressionar o preço do ativo.

SpaceX libera US$ 101 bi em ações: o impacto no Bitcoin
Foto: SpaceX / Unsplash

O que muda com o fim do lockup da SpaceX

A SpaceX, empresa aeroespacial controlada por Elon Musk, atingiu nesta quinta-feira o primeiro vencimento do período de lockup sobre suas ações. Na prática, cerca de US$ 101 bilhões em papéis tornaram-se negociáveis para acionistas que estavam impedidos de vender desde rodadas anteriores de financiamento.

O detalhe que interessa ao mercado cripto: a SpaceX detém 18.712 BTC em seu balanço. Ao final de junho, essa posição valia aproximadamente US$ 1,1 bilhão. Qualquer movimentação estratégica da empresa sobre esses ativos ganha peso num momento em que o Bitcoin se estabiliza acima dos US$ 64 mil.

Eventos de desbloqueio de ações em empresas privadas de grande porte costumam criar pressão vendedora no curto prazo. Acionistas que esperaram meses ou anos por liquidez tendem a realizar parte dos ganhos. A questão é se esse comportamento pode transbordar para as reservas em Bitcoin mantidas pela companhia, caso a empresa busque reequilibrar seu caixa.

Bitcoin sustenta US$ 64 mil enquanto mercado acionário perde fôlego

O Bitcoin operou acima dos US$ 64.600, com alta marginal no dia e avanço de 0,5% na semana. Segundo analistas de mercado, compradores entraram com força durante o recuo para US$ 62.500 na segunda-feira, empurrando o preço de volta acima da média móvel de 50 dias.

Esse comportamento sugere que o otimismo atual está concentrado no Bitcoin, e não no mercado cripto como um todo. Esse padrão é típico dos estágios iniciais de movimentos de longo prazo, quando capital institucional prioriza o ativo de maior capitalização antes de migrar para altcoins. Como abordamos em nossa cobertura recorrente sobre o mercado de criptomoedas, essa dinâmica se repetiu em ciclos anteriores, como nos ralis de 2020 e 2023.

As altcoins confirmaram esse cenário misto. Ethereum subiu 1% para US$ 1.904, mas acumula queda de 0,7% em sete dias. XRP recuou quase 3%, para US$ 1,04. Solana caiu 1%, perto dos US$ 74. O destaque positivo ficou com o HYPE, token da Hyperliquid, que avançou 4% na semana.

O cenário macro complicou: chipmakers recuam e ouro avança

O pano de fundo nos mercados tradicionais ficou menos favorável. O índice MSCI All Country World interrompeu uma sequência de cinco altas consecutivas, recuando 0,2%. O principal motor da queda foram as fabricantes de chips, com perdas expressivas em ambos os lados do Pacífico.

O Kospi da Coreia do Sul, considerado termômetro do comércio ligado à inteligência artificial, caiu 4,4%. SK Hynix e Samsung lideraram as perdas. Para quem acompanha a intersecção entre tecnologia e mercados financeiros, o sinal é de cautela: quando o setor de semicondutores recua, historicamente os ativos de risco perdem apetite comprador.

Os futuros do S&P 500 e das bolsas europeias, no entanto, apontaram leve alta, sugerindo que o mercado americano ainda tenta se descolar do pessimismo asiático.

O ouro subiu 0,4% e atingiu seu nível mais forte desde junho. Investidores reduziram apostas em alta de juros, o que naturalmente beneficia ativos que não pagam rendimento, como o metal precioso e, por extensão, o Bitcoin. Brent ficou abaixo dos US$ 80 por barril depois que o Irã anunciou um acordo com Omã sobre rotas de navegação no Estreito de Hormuz, aliviando o prêmio de risco geopolítico.

SoftBank como termômetro do investimento privado em IA

Outro evento de peso para os mercados é a divulgação dos resultados do SoftBank, prevista para esta quinta-feira. A relevância vai além do balanço: o grupo japonês investiu US$ 34,6 bilhões na OpenAI através do Vision Fund 2 desde setembro de 2024 e controla a ARM, fabricante de chips para dispositivos móveis e data centers de IA.

Os números do SoftBank funcionam como uma espécie de indicador de saúde do lado privado do investimento em inteligência artificial. Se o grupo mostrar resultados sólidos, o mercado tende a interpretar que a tese de IA ainda sustenta valuations elevados. Se houver revisões para baixo, pode pesar sobre o sentimento de risco global, incluindo cripto.

Como analisamos em matérias anteriores sobre a relação entre mercados tradicionais e ativos digitais, o Bitcoin tem mostrado correlação crescente com o apetite a risco de investidores institucionais. Grandes movimentações em mercados privados, como lockups da SpaceX e balanços do SoftBank, influenciam esse apetite de forma indireta, mas mensurável.

O que observar nos próximos dias

O cruzamento de eventos desta semana cria um cenário que merece atenção. De um lado, o Bitcoin demonstra resiliência técnica, com compradores aparecendo em correções e o preço se mantendo acima de médias relevantes. De outro, o ambiente macro ficou mais ambíguo, com o setor de tecnologia sob pressão e o desbloqueio de US$ 101 bilhões em ações da SpaceX adicionando uma variável de incerteza.

A posição de 18.712 BTC da SpaceX é relativamente pequena frente ao mercado total do Bitcoin, que ultrapassa US$ 1,2 trilhão em capitalização. Ainda assim, movimentos de venda por parte de um holder corporativo desse porte poderiam gerar efeito cascata no sentimento de mercado, especialmente se combinados com realização de lucro em ações de tecnologia.

Para o investidor que acompanha tanto mercados tradicionais quanto cripto, o recado é claro: a interconexão entre esses universos nunca foi tão evidente. O mesmo lockup que interessa a investidores de venture capital e private equity tem repercussão direta na narrativa de adoção institucional do Bitcoin.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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