SpaceX na bolsa: o que Wall Street vê além do foguete
Quase todos os grandes bancos iniciaram cobertura da SpaceX com recomendação de compra. O alvo mais otimista é de US$ 800, quase 6x o preço do IPO.
Quando a SpaceX abriu capital em junho, levantando US$ 75 bilhões em um dos maiores IPOs do ano, o mercado já sabia que a recepção seria positiva. O que poucos esperavam era a unanimidade. Com o fim do período de silêncio de 25 dias após a estreia na bolsa, praticamente todos os grandes bancos de Wall Street iniciaram cobertura do papel com recomendação de compra.
Goldman Sachs e Morgan Stanley, que lideraram a oferta, abriram com alvos de US$ 205 e US$ 300 por ação, respectivamente. As ações foram precificadas a US$ 135 no IPO e negociavam em torno de US$ 151 na terça-feira, já recuando 6% das máximas pós-listagem, mas ainda acima do preço inicial.
A fila de otimistas não parou aí. Bank of America, Citigroup, Deutsche Bank, JPMorgan, Macquarie, RBC, UBS e Wells Fargo também entraram com recomendações equivalentes a “compra”. O alvo mais agressivo veio da Raymond James: US$ 800 por ação, com classificação de Strong Buy.
Por que Wall Street está tão confiante na SpaceX
A empresa fundada por Elon Musk não é apenas uma companhia de foguetes. É o que os analistas chamam de “infraestrutura industrial definidora do século 21”, nas palavras da equipe da Raymond James liderada por Brian Gesuale. A tese de investimento se sustenta em três pilares que, combinados, criam um modelo de negócio raro: lançamento de satélites, banda larga via Starlink e contratos governamentais.
O ponto mais relevante para investidores é a receita recorrente. Enquanto o negócio de lançamento depende de contratos pontuais, a Starlink gera assinaturas mensais de milhões de usuários ao redor do mundo. Isso dá previsibilidade ao fluxo de caixa, algo que o mercado de capitais precifica com prêmio significativo. Como analisamos em nossa cobertura de finanças, empresas com modelos de receita recorrente tendem a receber múltiplos mais generosos.
A capacidade de expandir a cadência de lançamentos, reduzindo custos por missão, também impressiona os analistas. A reutilização de foguetes transformou a economia do setor aeroespacial e deu à SpaceX uma vantagem competitiva que rivais como Boeing e a United Launch Alliance ainda não conseguiram replicar.
O detalhe cripto que passou despercebido
Um dado relevante para o universo de ativos digitais: a SpaceX mantinha 18.712 bitcoins em seu balanço até 31 de março. Ao preço atual, isso representa uma posição superior a US$ 1,1 bilhão. A companhia se junta a um grupo seleto de empresas listadas que carregam bitcoin no caixa, ao lado de nomes como MicroStrategy e Tesla.
A presença de bitcoin no balanço de uma empresa recém-listada dessa magnitude reforça uma tendência que temos acompanhado de perto: a normalização do ativo como reserva de tesouraria corporativa. Para investidores que compraram ações da SpaceX no IPO, há uma exposição indireta ao bitcoin embutida no papel, queiram ou não.
Esse tipo de posição também cria dinâmicas interessantes para o mercado. Se a SpaceX decidir ampliar suas reservas em bitcoin, o impacto sobre o preço do ativo pode ser significativo, dado o porte da empresa. Por outro lado, uma eventual venda para financiar operações também poderia pressionar o mercado.
Unanimidade é sinal de alerta ou de convicção
Iniciações de cobertura com recomendação positiva após grandes IPOs são comuns. Os bancos que subscreveram a oferta têm incentivos óbvios para manter o papel bem avaliado. Mas a escala do consenso em torno da SpaceX chama atenção. Não se trata apenas dos underwriters: bancos que não participaram da oferta também entraram com recomendação de compra.
A diferença entre o alvo mais conservador (US$ 205 do Goldman Sachs) e o mais agressivo (US$ 800 da Raymond James) revela, porém, uma dispersão enorme nas expectativas. O alvo de US$ 800 implica um upside de quase 430% sobre o preço atual, algo que só faz sentido se a Starlink atingir escala global e os contratos governamentais continuarem se expandindo no ritmo atual.
Para quem acompanha o mercado financeiro global, essa dispersão é um lembrete importante: consenso na direção não significa consenso na magnitude. Todos concordam que a SpaceX é uma boa empresa. Discordam violentamente sobre quanto ela vale.
O que isso significa para o investidor
O IPO da SpaceX é um marco para o mercado de capitais em 2025. Uma empresa privada avaliada por anos como a startup mais valiosa do mundo finalmente abriu seus números ao escrutínio público. A recepção quase unânime de Wall Street valida a tese de que o setor aeroespacial privado deixou de ser nicho para se tornar mainstream.
Para investidores brasileiros, o acesso direto às ações da SpaceX depende de plataformas internacionais ou eventual listagem de BDRs. Mas o efeito indireto já é palpável: a tese da SpaceX fortalece o apetite por ativos de tecnologia e infraestrutura, categorias que tendem a atrair fluxo de capital global nos próximos trimestres.
O papel recuou 6% das máximas recentes, o que é saudável para um ativo recém-listado. A questão agora é se o mercado vai tratar a SpaceX como uma empresa de tecnologia, com múltiplos de crescimento, ou como uma empresa industrial, com múltiplos mais modestos. A resposta a essa pergunta determina se o alvo justo está mais perto dos US$ 205 do Goldman ou dos US$ 800 da Raymond James.
Independentemente do preço-alvo que se mostre mais acertado, um fato é inegável: a SpaceX trouxe para a bolsa algo que nenhum outro IPO recente ofereceu. Uma combinação de hardware espacial, receita recorrente de telecomunicações, exposição a bitcoin e contratos de defesa. É complexo demais para caber em uma única tese. E talvez seja exatamente por isso que Wall Street, pela primeira vez em muito tempo, resolveu concordar.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.