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SpaceX prepara IPO com US$ 1,3 bi em Bitcoin no balanço

A abertura de capital da SpaceX pode criar o maior caso de exposição indireta a Bitcoin via ações. Entenda o que muda para o mercado.

SpaceX prepara IPO com US$ 1,3 bi em Bitcoin no balanço
Foto: SpaceX / Unsplash

A SpaceX está nos estágios finais de preparação para sua oferta pública inicial de ações, e um detalhe do balanço da empresa de Elon Musk chama mais atenção do que os foguetes: a companhia mantém cerca de US$ 1,3 bilhão em Bitcoin como reserva de tesouraria. Se a operação avançar conforme o esperado, será a maior exposição indireta a Bitcoin disponível fora do setor cripto puro.

A informação, revelada em documentos preparatórios e confirmada por fontes próximas ao processo, coloca a SpaceX ao lado da Strategy (ex-MicroStrategy) e da Tesla como empresas de capital aberto com posições relevantes em Bitcoin. A diferença é o porte: a SpaceX é avaliada em mais de US$ 350 bilhões no mercado secundário privado, o que a tornaria uma das maiores aberturas de capital da história.

O que US$ 1,3 bilhão em Bitcoin significa para o IPO

A reserva de Bitcoin da SpaceX representa menos de 0,4% da avaliação total da empresa, um número modesto em termos percentuais. Mas em valor absoluto, supera a posição de tesouraria em Bitcoin de praticamente todas as empresas listadas, com exceção da Strategy, que acumula mais de US$ 60 bilhões na criptomoeda.

Para investidores institucionais que participarem do IPO, isso cria uma dinâmica interessante. Quem comprar ações da SpaceX estará, indiretamente, comprando exposição a Bitcoin. Não é o motivo principal da tese de investimento, que se sustenta nos contratos com a NASA, no Starlink e no mercado de lançamentos comerciais. Mas é um componente que adiciona volatilidade e, para alguns fundos, complicações regulatórias.

Segundo analistas do JPMorgan, a presença de ativos cripto no balanço de empresas em processo de IPO exige disclosure adicional sobre política de custódia e marcação a mercado. A SEC já sinalizou atenção redobrada a esse tipo de estrutura desde a aprovação dos ETFs de Bitcoin spot em 2024.

O playbook de tesouraria cripto em 2026

O caso da SpaceX reflete uma tendência que se acelerou nos últimos dois anos. Empresas de tecnologia adotaram Bitcoin como ativo de reserva não por convicção ideológica, mas por estratégia financeira. Com o dólar sob pressão inflacionária entre 2022 e 2024, e os rendimentos de títulos do Tesouro americano comprimidos em termos reais, o Bitcoin se apresentou como alternativa de preservação de capital.

A Strategy, que funciona como referência para o modelo de tesouraria em Bitcoin, viu suas ações se comportarem como um proxy alavancado do ativo digital. Em 2026, o playbook se sofisticou. Empresas como a japonesa Metaplanet e a britânica Abraxas Capital adotaram variações do modelo, mas com hedges em derivativos e limites de alocação mais conservadores.

A SpaceX parece seguir essa linha mais cautelosa. Os US$ 1,3 bilhão representam uma fração controlada do caixa total, que ultrapassa US$ 10 bilhões considerando receitas recorrentes do Starlink. A empresa não fez compras adicionais de Bitcoin nos últimos trimestres, segundo os documentos, o que sugere uma posição estática de hedge, não uma estratégia ativa de acumulação.

Como o mercado americano reagiu na abertura

Na sessão desta segunda-feira, os índices americanos abriram em alta moderada. O S&P 500 subia 0,3% nas primeiras horas de negociação, puxado por tecnologia e comunicação. O Nasdaq avançava 0,5%, com destaque para empresas do setor aeroespacial que se beneficiam do mesmo ciclo de contratos governamentais que sustenta a SpaceX.

O Bitcoin operava acima de US$ 103 mil, acumulando alta de 2,1% na semana. Os ETFs de Bitcoin spot nos Estados Unidos registraram entrada líquida de US$ 85,8 milhões na sexta-feira, quebrando uma sequência de cinco dias de saídas. É um sinal de que o apetite institucional está voltando, ainda que de forma seletiva.

Para o mercado de ações, a questão central é se o IPO da SpaceX vai funcionar como catalisador para o setor de tecnologia como um todo. A última abertura de capital dessa magnitude foi a do Arm Holdings em setembro de 2023, que movimentou US$ 4,9 bilhões. A SpaceX pode captar três ou quatro vezes mais, dependendo das condições de mercado no momento da precificação.

O que observar nos próximos meses

Três pontos merecem atenção. Primeiro, a definição da política de custódia dos bitcoins pós-IPO. Se a SpaceX optar por manter os ativos com custodiante regulado, como a Coinbase Custody ou a Fidelity Digital Assets, isso reforça a tese institucional. Se optar por carteiras frias próprias, levanta questões sobre segurança e governança.

Segundo, o impacto nos ETFs de Bitcoin. Uma parcela dos investidores pode preferir comprar ações da SpaceX como forma indireta de exposição ao Bitcoin, reduzindo a demanda por ETFs puros. Esse efeito de substituição já foi observado com a Tesla em 2021, quando investidores de varejo tratavam a ação como proxy cripto.

Terceiro, o precedente regulatório. Se a SEC aprovar o IPO sem exigir desinvestimento da posição em Bitcoin, isso abre caminho para que outras empresas em processo de abertura de capital mantenham posições semelhantes sem obstáculos. Seria uma validação silenciosa, mas significativa, da presença de criptoativos em balanços corporativos.

O IPO da SpaceX não é apenas sobre foguetes e satélites. É sobre como a fronteira entre finanças tradicionais e ativos digitais ficou tão tênue que US$ 1,3 bilhão em Bitcoin se tornou apenas mais uma linha no balanço de uma empresa de US$ 350 bilhões.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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