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SLC Agrícola reduz compra de terras e alivia pressão sobre caixa

SLC cortou desembolso de R$ 1,85 bi para R$ 669 mi ao dividir fazendas com Bom Futuro. Alavancagem projetada cai de 2,7x para 2,3x EBITDA.

SLC Agrícola reduz compra de terras e alivia pressão sobre caixa
Foto: Junior Cazangi / Unsplash

A SLC Agrícola redesenhou os termos de sua polêmica aquisição de terras no Mato Grosso e o mercado respondeu com alívio. As ações da companhia da família Logemann subiram cerca de 3,3% após o anúncio de que o desembolso total cairá de R$ 1,85 bilhão para R$ 669 milhões. A diferença é enorme: em vez de comprar 28,8 mil hectares agricultáveis, a SLC ficará com 8,9 mil.

O movimento resolve, ao menos parcialmente, a principal preocupação que vinha pesando sobre o papel nos últimos meses. Com uma ação acumulando queda de 15% em doze meses e uma alavancagem já elevada, o exercício do direito de preferência pela totalidade das terras havia sido mal recebido pelo mercado em meados de junho.

O que mudou na transação da SLC com a Radar

A operação original envolvia terras que pertenciam à Radar, joint venture da Cosan com a Nuveen. A Bom Futuro, do empresário Eraí Maggi, havia feito uma oferta inicial para adquirir o pacote completo. A SLC, que arrendava boa parte dessas terras, decidiu exercer seu direito de preferência e cobrir a proposta. A decisão gerou desconforto entre investidores preocupados com o impacto no balanço.

Agora, a companhia chegou a um acordo para dividir as fazendas com a Bom Futuro e o empresário Alexandre Bottan, que também eram arrendatários de parte das áreas. Na nova configuração, a SLC fica com 11 mil hectares totais (8,9 mil agricultáveis), a Bom Futuro leva 18,7 mil hectares e Bottan adquire 4,6 mil. A divisão reduziu drasticamente a pressão financeira sobre a SLC, como destacamos em nossa cobertura do setor financeiro.

Alavancagem cai, mas custo por hectare sobe

Os números contam duas histórias simultâneas. Do lado positivo, a projeção de alavancagem para o final de 2025 recuou de 2,7x EBITDA para 2,3x, segundo estimativas de analistas do Citi. O cash burn incremental anualizado caiu de R$ 217 milhões para R$ 82 milhões. Trata-se de um alívio relevante para uma empresa que vale R$ 6,7 bilhões na bolsa e cujo papel já vinha pressionado.

Do lado menos favorável, o custo por hectare subiu. Na transação original, a SLC pagaria R$ 64 mil por hectare. No novo formato, o valor saltou para R$ 72 mil, um prêmio de 12,5%. A interpretação dos analistas é de que a companhia pode ter ficado com as terras mais valorizadas do pacote, o que explica o diferencial de preço. O cap rate implícito ficou em 2,8%, patamar considerado apertado para o setor de investimentos em terras agrícolas.

Como ficam os contratos de arrendamento

A SLC arrendava 17,6 mil hectares do total antes da transação. Com a nova configuração, ela continuará operando 8,7 mil hectares que não comprou até o vencimento dos respectivos contratos. A dinâmica de transição é escalonada: 5,3 mil hectares têm contratos que vencem na safra 2029/2030, enquanto 900 hectares vencem já na safra 2026/2027. Essas áreas passarão à operação da Bom Futuro após o fim dos arrendamentos.

Há ainda um detalhe relevante. Os 2,5 mil hectares adquiridos por Bottan, cujo contrato de arrendamento vence na safra 2026/2027, serão novamente arrendados para a SLC em um acordo de 15 anos a um custo de 19,5 sacas de soja por hectare. Na prática, a SLC mantém acesso operacional a parte das terras que não comprou, diluindo o impacto produtivo da redução do escopo.

O que isso significa para o investidor

O pagamento será dividido em duas parcelas. A primeira, de R$ 255 milhões, será desembolsada agora. O saldo restante vence em outubro. Essa estrutura dá fôlego adicional ao caixa da companhia no curto prazo.

Para quem acompanha o setor de agronegócio na bolsa brasileira, a lição é clara: o mercado penaliza aquisições que comprometem o balanço e premia disciplina financeira. A SLC saiu de uma posição de risco elevado para um cenário mais manejável, ainda que os retornos da operação sigam apertados.

O episódio também ilustra a complexidade das transações envolvendo terras agrícolas no Brasil, onde direitos de preferência, múltiplos arrendatários e negociações paralelas podem redesenhar completamente uma operação em poucas semanas. A reação positiva do mercado sugere que, mesmo pagando mais caro por hectare, a redução do tamanho total do compromisso era o que os investidores precisavam ver.

Com a alavancagem mais controlada e a operação produtiva parcialmente preservada via arrendamentos de longo prazo, a SLC tenta virar a página de um trimestre marcado pela volatilidade em torno dessa aquisição. Resta observar se a execução nos próximos meses confirma as projeções mais otimistas dos analistas.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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