Criptomoedas

Ripple e CSD BR tokenizam fundos do BTG na XRP Ledger

CSD BR usará a XRP Ledger como camada de auditoria para cotas de fundos do BTG Pactual. Plano inclui emissão on-chain e expansão para CRI e CRA.

Ripple e CSD BR tokenizam fundos do BTG na XRP Ledger
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A infraestrutura do mercado de capitais brasileiro acaba de ganhar um novo capítulo na conversa sobre tokenização. A Ripple anunciou uma parceria com a CSD BR, depositária central autorizada pelo Banco Central, CVM e Susep, para registrar cotas de fundos do BTG Pactual na XRP Ledger. O movimento coloca uma das maiores infraestruturas de registro do país em contato direto com uma blockchain pública, ainda que de forma controlada e permissionada.

O dado que dimensiona a relevância do acordo: a CSD BR possui mais de R$ 22 trilhões em ativos registrados em sua plataforma. Não se trata de uma fintech experimental. É uma peça central do encanamento financeiro brasileiro testando tecnologia de registro distribuído com ativos reais.

Como funciona a tokenização das cotas na XRP Ledger

Na primeira fase, a XRP Ledger será utilizada como camada complementar de registro e auditoria. Na prática, os sistemas da CSD BR continuam sendo a fonte oficial dos dados. A blockchain apenas grava cópias dos registros de depósitos e liquidações, começando pelas cotas de fundos de investimento do BTG Pactual.

O padrão técnico escolhido é o Multi-Purpose Token (MPT), um formato de token da XRP Ledger desenhado para representar diferentes tipos de ativos financeiros. Participantes autorizados poderão validar a consistência dos registros de forma transparente e quase em tempo real, segundo o comunicado oficial da parceria.

Um ponto importante: o ambiente é permissionado. Isso significa que não haverá acesso público à rede. Apenas clientes corporativos e bancários do Brasil, submetidos a procedimentos de KYC e AML, terão permissão para interagir com os registros tokenizados. A CSD BR manterá controle total sobre emissão e administração dos ativos, incluindo capacidade de congelar ativos e reverter transações por ordem regulatória ou judicial.

Daniel Polano Spreafico, Head de Produtos e Clientes da CSD BR, explicou a lógica da abordagem gradual: a replicação de registros é a forma mais segura de introduzir uma nova tecnologia em infraestrutura crítica de mercado, sem alterar processos existentes para investidores e emissores.

Por que o BTG Pactual está na ponta dessa iniciativa

O BTG Pactual não é novato em blockchain. O banco já opera com ativos digitais e possui uma das plataformas de criptomoedas mais ativas entre bancos brasileiros. Participar dessa iniciativa permite ao banco contribuir para a aplicação prática da tecnologia no mercado de fundos dentro de uma infraestrutura regulada.

Luis Furtado, sócio do BTG Pactual responsável pela Infraestrutura de Mercado, destacou que a replicação de cotas cria uma base concreta para futuros desenvolvimentos, preservando o registro oficial dos ativos. Em outras palavras, o banco está testando trilhos novos sem abandonar os antigos.

A escolha por começar com cotas de fundos faz sentido estratégico. Fundos de investimento são um dos produtos mais relevantes do mercado brasileiro, com patrimônio líquido que ultrapassa R$ 9 trilhões. Qualquer ganho de eficiência em registro, auditoria e liquidação desses ativos tem impacto sistêmico.

Expansão para CRI e CRA está no horizonte

Após a fase de validação com cotas de fundos, o plano prevê dois avanços significativos. Primeiro, a emissão de ativos diretamente na XRP Ledger, eliminando a etapa de espelhamento e tornando a blockchain a camada primária de registro. Segundo, a negociação on-chain entre participantes autorizados.

Além disso, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) estão sendo considerados como próximos candidatos à tokenização. Esses instrumentos de crédito estruturado são peças fundamentais do financiamento de setores estratégicos da economia brasileira, e sua tokenização pode ampliar o acesso de investidores a esses mercados.

A movimentação se insere em um contexto mais amplo de avanço da tokenização no Brasil. O Banco Central tem conduzido o projeto Drex com dezenas de instituições, e a CVM já sinalizou abertura para valores mobiliários tokenizados. A parceria entre Ripple e CSD BR, porém, segue um caminho paralelo ao Drex, utilizando uma blockchain diferente e focando inicialmente em registro e auditoria, não em liquidação com moeda digital de banco central.

O que isso significa para o mercado cripto e o investidor

Para o ecossistema da XRP, o acordo é relevante por demonstrar adoção institucional em um dos maiores mercados financeiros da América Latina. A XRP Ledger ganha um caso de uso concreto que vai além de pagamentos transfronteiriços, área pela qual a Ripple ficou mais conhecida.

Contudo, é preciso calibrar expectativas. Na fase atual, a blockchain atua apenas como espelho. Não há emissão nativa nem negociação descentralizada. O controle permanece inteiramente com a CSD BR, e o ambiente permissionado limita a interoperabilidade que blockchains públicas costumam oferecer. A própria capacidade de congelar e reverter transações afasta o modelo de qualquer conceito de descentralização.

Para o investidor brasileiro, o impacto prático ainda é indireto. Não será possível, por enquanto, comprar cotas tokenizadas de fundos do BTG em uma carteira cripto. O que muda é a infraestrutura por trás do registro desses ativos, algo que pode, no médio prazo, reduzir custos operacionais e aumentar a transparência do mercado de fundos.

O movimento reforça uma tendência que temos acompanhado no mercado de tokenização: grandes instituições preferem começar pela camada de registro e auditoria antes de avançar para emissão e negociação nativas em blockchain. É uma estratégia conservadora, mas que constrói confiança regulatória e operacional para as fases seguintes.

A XRP é atualmente a quinta maior criptomoeda por capitalização de mercado, negociada na faixa de US$ 1,49. Resta observar se a adoção institucional no Brasil terá reflexo na percepção de valor do ativo ou se permanecerá como um avanço de infraestrutura sem conexão direta com o preço do token.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…