Queda do iene pode forçar liquidações e abalar mercados globais
Secretário do Tesouro americano defende intervenção conjunta com Japão e alerta que oscilações bruscas do iene ameaçam gerar liquidações forçadas em escala global.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, fez um alerta pouco comum para uma autoridade do seu calibre: oscilações desordenadas do iene japonês podem desencadear liquidações forçadas de posições em escala global. O resultado, segundo ele, seria um efeito cascata capaz de elevar os custos de financiamento para famílias e empresas americanas.
O alerta veio em uma carta datada de 27 de agosto, publicada por Bessent em suas redes sociais, em resposta a questionamentos da senadora democrata Elizabeth Warren sobre a rara intervenção cambial conjunta entre Washington e Tóquio realizada em 31 de julho. O episódio reacende um debate central nos mercados: até que ponto a fraqueza do iene é um problema local ou uma bomba-relógio sistêmica.
Por que o iene importa para o investidor brasileiro
O Japão é a quarta maior economia do mundo e o maior credor externo do planeta. Investidores japoneses detêm volumes colossais de títulos do Tesouro americano, dívida europeia e ativos de risco globais. Quando o iene se desvaloriza de forma abrupta, esses investidores enfrentam pressão para repatriar capital, o que pode significar vendas maciças de ativos em outros mercados.
Foi exatamente esse mecanismo que quase saiu do controle em julho, quando o iene atingiu a mínima de 40 anos próxima a 164 por dólar. A moeda japonesa voltou a enfraquecer em direção a 160 após a intervenção conjunta, e chegou a romper esse patamar brevemente na última sexta-feira. O nível de 160 ienes por dólar é amplamente visto por operadores como o limiar que aumenta a probabilidade de novas intervenções, como já detalhamos em nossa cobertura de mercados globais.
Para quem investe no Brasil, o cenário não é irrelevante. Liquidações forçadas em mercados desenvolvidos costumam gerar aversão a risco em emergentes. Dinheiro sai de ativos mais arriscados, o real se deprecia, e o custo de capital sobe. O episódio de agosto de 2024, quando o carry trade do iene se desfez parcialmente, derrubou bolsas no mundo inteiro em questão de horas.
O que é o carry trade do iene e por que ele gera risco sistêmico
O carry trade é uma das operações mais antigas e difundidas do mercado cambial. O investidor toma empréstimo em uma moeda com juros baixos (historicamente o iene, com taxas próximas de zero) e aplica o recurso em ativos de moedas com juros mais altos, como o dólar americano ou o real brasileiro.
O problema surge quando o iene se valoriza de forma repentina. O investidor que tomou empréstimo em iene vê sua dívida crescer em termos de dólar, o que o obriga a liquidar posições para cobrir a margem. Esse movimento se retroalimenta: quanto mais gente vende, mais o mercado cai, e mais liquidações são disparadas.
Segundo estimativas do Bank for International Settlements, o volume global de carry trade denominado em iene supera US$ 4 trilhões. Mesmo uma reversão parcial desse montante é suficiente para causar disrupções sérias, como analisamos no contexto das dinâmicas de juros e câmbio globais.
A intervenção conjunta e o precedente argentino
Na carta, Bessent detalhou o mecanismo utilizado. O Tesouro americano usou ativos em moeda estrangeira mantidos no Fundo de Estabilização Cambial (ESF) para comprar ienes em conjunto com o Banco do Japão. O ESF é uma reserva de emergência criada na década de 1930, administrada pelo Tesouro, com a missão específica de estabilizar mercados cambiais e financeiros.
Bessent traçou um paralelo direto com a Argentina, onde o mesmo fundo foi usado para fornecer uma linha de swap cambial de US$ 20 bilhões destinada a estabilizar o peso em um momento de grave iliquidez. “O mesmo princípio foi aplicado”, escreveu o secretário. “A crise mais bem administrada é aquela que nunca acontece.”
A defesa de Bessent é significativa porque intervenções cambiais conjuntas entre EUA e Japão são extremamente raras. A última antes desta havia ocorrido em 2011, após o terremoto e tsunami que devastaram o leste do Japão. O fato de Washington ter aceitado intervir agora sugere que o nível de preocupação com um cenário desordenado é genuíno, e não apenas retórico.
O papel do Federal Reserve e os próximos passos
O cenário ficou mais complexo com declarações recentes do chair do Federal Reserve, Kevin Warsh, que reacenderam expectativas de um possível aumento de juros nos EUA no curto prazo. Juros americanos mais altos ampliam o diferencial de taxas entre EUA e Japão, o que pressiona o iene para baixo e torna o carry trade ainda mais atrativo, criando um ciclo que, em última instância, eleva o risco sistêmico.
O Banco do Japão, por sua vez, enfrenta um dilema. Subir juros para defender o iene pode prejudicar a frágil recuperação econômica doméstica e pressionar o mercado de títulos do governo japonês, o maior do mundo. Manter os juros baixos, por outro lado, é aceitar que a moeda continue se desvalorizando, elevando custos de importação e corroendo o poder de compra dos japoneses.
O que está em jogo vai além de uma disputa cambial bilateral. Como discutimos em análises anteriores sobre política monetária global, os fluxos de capital japoneses são um dos principais determinantes da liquidez global. Um deslocamento brusco desses fluxos teria consequências para todas as classes de ativos, de treasuries americanos a criptomoedas.
O que observar nos próximos meses
Três indicadores merecem atenção. Primeiro, o nível do iene frente ao dólar. Uma queda sustentada abaixo de 160 aumenta significativamente a chance de nova intervenção. Segundo, o diferencial de juros entre EUA e Japão, que é o motor fundamental do carry trade. Terceiro, os dados de fluxo de capital do Ministério das Finanças do Japão, que mostram se investidores japoneses estão vendendo ou comprando ativos estrangeiros.
A frase de Bessent, “a crise mais bem administrada é aquela que nunca acontece”, carrega uma mensagem implícita. Washington está disposta a usar ferramentas extraordinárias para evitar que a fragilidade do iene se transforme em um evento de crédito global. Resta saber se a disposição será suficiente caso o diferencial de juros continue se ampliando.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
