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Por que a Nasdaq caiu 2% e o medo voltou a Wall Street

O índice de tecnologia registrou a pior semana em meses. O gatilho não foi a IA em si, mas o custo de financiá-la em um cenário de juros altos.

Por que a Nasdaq caiu 2% e o medo voltou a Wall Street
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

Wall Street encerrou a sexta-feira (16) em forte queda, com o Nasdaq recuando cerca de 2% no pregão e acumulando a pior semana desde junho. O sell-off não veio de um evento isolado. Foi a combinação de três forças que, sozinhas, já seriam desconfortáveis: endividamento acelerado de empresas de infraestrutura de IA, inflação acima do esperado e um Federal Reserve que se recusa a dar qualquer sinal claro sobre o futuro dos juros.

O VIX, conhecido como “índice do medo”, saltou quase 22% e fechou em 20,15 pontos, o maior patamar desde 10 de junho. Quando o VIX ultrapassa os 20 pontos, o mercado está precificando risco real, não apenas nervosismo passageiro.

O problema não é a IA, é o custo de financiá-la

A narrativa de que a inteligência artificial é o motor do próximo ciclo de crescimento permanece intacta. O problema é outro: quanto custa construir essa infraestrutura e quem está pagando a conta.

As ações da CoreWeave, empresa que aluga capacidade computacional para treinar modelos de IA, despencaram 11,91% na sessão, fechando a US$ 61,39. A preocupação dos investidores é direta: a companhia tem se endividado em ritmo agressivo para expandir seus data centers, apostando que a demanda por processamento vai continuar crescendo. Se os juros permanecem elevados por mais tempo, o custo desse endividamento corrói margens e torna o modelo de negócio mais arriscado.

A CoreWeave não é um caso isolado. Ela funciona como termômetro de um dilema que atinge toda a cadeia de infraestrutura de IA. Como temos acompanhado na cobertura de tecnologia do portal, a corrida por capacidade computacional exige capital intensivo. Quando o dinheiro é barato, isso não é problema. Quando o Fed sinaliza juros estáveis ou em alta, a equação muda.

Inflação acima do esperado trava a mão do Fed

Os dados de inflação ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) de setembro vieram acima das projeções do mercado. Isso, por si só, já seria suficiente para esfriar o otimismo com cortes de juros. Mas o contexto é mais relevante que o dado pontual.

O Fed mantém os juros na faixa de 3,75% a 4,00% ao ano. Kevin Warsh, presidente do banco central americano, foi categórico ao afirmar que não vai antecipar movimentos. “Eu não pré-julgo reuniões. E não acredito em dizer agora o que eu poderia fazer nas reuniões no restante de 2026”, declarou durante painel mediado pela diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, nas Reuniões Anuais do órgão em Bangcoc.

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A ferramenta FedWatch do CME Group reflete esse cenário de cautela. Perto do fechamento de sexta, 82,8% do mercado apostava em manutenção dos juros na reunião do dia 28. Para dezembro, o dado é mais revelador: 86,1% de probabilidade de alta de pelo menos 25 pontos-base. Ou seja, o mercado não apenas desistiu de cortes no curto prazo. Ele está precificando aumento.

Para quem acompanha o mercado financeiro global, esse é um ponto de inflexão relevante. A narrativa de “juros altos por mais tempo” que dominou 2024 deu lugar a algo pior: a possibilidade concreta de juros ainda mais altos.

O que o VIX acima de 20 pontos significa na prática

O VIX não é apenas um número. Ele mede a volatilidade implícita das opções do S&P 500 e funciona como proxy do nível de incerteza do mercado. Quando está abaixo de 15, o mercado opera em modo complacente. Entre 15 e 20, há cautela. Acima de 20, há medo genuíno.

O fechamento em 20,15 pontos na sexta-feira não é alarmante se olhado isoladamente. Em momentos de estresse agudo, como março de 2020 ou agosto de 2024, o VIX ultrapassou 40 pontos. Mas a velocidade da alta importa: o indicador subiu quase 5 pontos em uma única sessão. Movimentos assim tendem a gerar realocação defensiva nos portfólios institucionais, o que amplifica a pressão vendedora nos pregões seguintes.

Para o investidor brasileiro, o efeito cascata é direto. O dólar já acumula alta de 1,77% frente ao real na semana, mesmo tendo recuado na sexta para R$ 5,07. A dinâmica é conhecida: quando o VIX sobe e o mercado americano cai, capital sai de ativos de risco em mercados emergentes. Como mostramos em análises anteriores, o câmbio brasileiro é particularmente sensível a esses movimentos de aversão ao risco global.

A semana que vem: o que observar

A reunião do FOMC no dia 28 será o grande catalisador do mês. Mas antes disso, o mercado vai digerir os resultados trimestrais de big techs e, principalmente, observar se o endividamento das empresas de infraestrutura de IA começa a gerar rebaixamentos de crédito.

O ponto central para quem investe é entender que a tese de IA não morreu. O que mudou foi o ambiente financeiro em que ela precisa se desenvolver. Juros altos encarecem capital. Capital caro penaliza empresas que queimam caixa para crescer. E o mercado, que durante meses ignorou esse risco, decidiu precificá-lo de uma vez.

Não se trata de pânico. Trata-se de reprecificação. E reprecificações, por definição, são desconfortáveis.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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