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PIB negativo no 3º tri entra no radar do mercado

Dados de atividade econômica mostram desaceleração espalhada entre setores. Efeito dos juros altos começa a prevalecer sobre estímulos fiscais do início do ano.

PIB negativo no 3º tri entra no radar do mercado
Foto: Monstera Production / Unsplash

A economia brasileira começou 2025 com fôlego artificial. Estímulos fiscais, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e redução da fila do INSS criaram uma sensação de aquecimento no primeiro trimestre. Agora, com esses efeitos se dissipando e a Selic em patamar contracionista por período prolongado, o cenário mudou. A pergunta que economistas de bancos e consultorias começam a responder é direta: o PIB pode ficar negativo entre julho e setembro?

Os dados disponíveis até aqui apontam que sim, essa possibilidade é real. Não se trata de recessão técnica ou crise sistêmica, mas de uma desaceleração que se espalhou por praticamente todos os setores da economia ao mesmo tempo. O que importa para quem investe e acompanha o mercado é entender a dinâmica por trás desse esfriamento e o que ele sinaliza para os próximos meses.

O que os indicadores de atividade mostram

O IBC-Br, considerado termômetro mensal do PIB pelo Banco Central, recuou 0,64% em junho, uma retração maior do que o mercado esperava. Mais relevante do que o número isolado é a composição: excluindo o setor agropecuário, indústria, serviços e impostos recuaram juntos. Quando todos os componentes caminham na mesma direção negativa, o sinal de desaceleração ganha consistência.

Os primeiros dados de julho, ainda preliminares, não trouxeram alívio. O indicador de vendas no comércio calculado pelo Santander em parceria com a Getnet (Iget) mostrou queda de 0,1% ante junho. O indicador proprietário de atividade do Itaú (Idat) recuou 0,5% na mesma base. O fluxo de veículos em rodovias pedagiadas ficou estável, segundo a ABCR, enquanto os índices de confiança do consumidor e empresarial da FGV cederam e seguem abaixo de 100 pontos, a linha que separa pessimismo de otimismo.

Quando se olha o conjunto, a conclusão é a mesma que economistas do Bank of America sintetizaram em relatório recente: “a tão esperada desaceleração finalmente está se consolidando”. De dez indicadores de alta frequência acompanhados pelo banco para julho, três ficaram em território negativo e quatro praticamente não saíram do lugar. Em junho, seis deles recuaram. A trajetória da economia brasileira nos últimos meses mostra uma perda de tração que vai além de um ajuste pontual.

Juros altos finalmente cobram o preço

A resiliência da economia diante da Selic elevada surpreendeu analistas por vários trimestres. Agora, essa resiliência está desaparecendo. O diagnóstico de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é que a perda de dinamismo já estava contratada. A incógnita era o timing: quando o aperto monetário seria transmitido à atividade com intensidade suficiente para frear o crescimento.

Segundo Vale, o segundo trimestre já deve mostrar desaceleração evidente na margem, caminhando para uma possível queda do PIB no terceiro trimestre. Sua avaliação é que a economia perdeu tração e será difícil imaginar reversão nos trimestres finais do ano. Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, compartilha dessa leitura. Para ela, se a desaceleração no segundo trimestre for de magnitude um pouco maior do que o esperado, a probabilidade de PIB negativo entre julho e setembro aumenta.

As estimativas do Bank of America indicam que a expansão do PIB caiu de 1,1% no primeiro trimestre para 0,3% no segundo. A mudança relevante, segundo os economistas do banco, “não é a fraqueza em um único indicador, mas a consistência crescente entre eles”. Quando a política monetária restritiva funciona, ela funciona por todos os canais simultaneamente: crédito mais caro, endividamento crescente de famílias e empresas, consumo retraído.

Impulso fiscal menor do que o previsto

Parte da surpresa negativa no segundo trimestre se explica por estímulos governamentais que não entregaram o impacto esperado. O Itaú revisou de 1 ponto percentual para 0,8 ponto a estimativa de impulso fiscal sobre a atividade em 2025. A ampliação da faixa de isenção do IR mostra sinais limitados de transmissão para o consumo. A redução da fila do INSS não se traduziu em aumento de benefícios na magnitude projetada.

Esse é um ponto crucial para entender a trajetória da economia. O primeiro trimestre forte não refletia fundamentos sólidos, mas um empurrão temporário de medidas governamentais. Com esse impulso saindo de cena ao mesmo tempo em que os juros altos intensificam seus efeitos, o resultado é uma economia que desacelera mais rápido do que o consenso projetava.

O boletim Focus, que agrega projeções do mercado, indica crescimento de 1,98% para o PIB em 2025 e 1,5% em 2026. Mas o viés, segundo Costa, é de revisão para baixo. As projeções atuais ainda carregam o legado do primeiro trimestre forte, que mascara a tendência de enfraquecimento dos trimestres seguintes.

O que isso significa para quem investe

Uma economia em desaceleração muda a equação para diversas classes de ativos. Do lado positivo, a confirmação de que os juros altos estão cumprindo seu papel de esfriar a demanda pode abrir espaço para o Banco Central iniciar cortes na Selic mais cedo do que o mercado precifica atualmente. Se os dados de atividade continuarem fracos e a inflação convergir, a pressão por alívio monetário ganha força.

Do lado negativo, setores cíclicos tendem a sofrer. Empresas de consumo, varejo e construção civil sentem primeiro os efeitos de um PIB mais fraco. O Monitor do PIB da FGV-Ibre já mostrou expansão de apenas 0,3% no segundo trimestre, praticamente estagnação.

O cenário não é de crise, mas de ajuste. A economia brasileira está fazendo a transição de um período de resiliência artificial, sustentada por estímulos pontuais, para a realidade de juros que pesam sobre crédito, investimento e consumo. Para o investidor, o recado é claro: as projeções de lucro de empresas listadas para o segundo semestre podem decepcionar. E, paradoxalmente, essa fraqueza econômica pode ser o catalisador que o mercado de renda fixa e os ativos de duration longa precisam para voltar a performar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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