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Ouro volta a US$ 4,1 mil: o que está por trás da alta e por que importa

Ouro retomou os US$ 4.150 com petróleo em queda e alívio nos juros americanos. Goldman Sachs diz que nível atual é ponto de entrada atraente.

Ouro volta a US$ 4,1 mil: o que está por trás da alta e por que importa
Foto: Michael Steinberg / Unsplash

O ouro fechou a terça-feira com alta de 1,52%, cotado a US$ 4.152,60 por onça-troy na Comex. A prata acompanhou o movimento e subiu 4,13%, alcançando US$ 60,24. O avanço veio em um dia de convergência de fatores favoráveis ao metal: petróleo em queda, alívio nos rendimentos dos Treasuries e dados de emprego nos EUA abaixo do esperado.

Para quem acompanha o mercado de commodities e busca proteção em ativos reais, o movimento traz informações relevantes. Não se trata apenas de uma oscilação de pregão. É um sinal de como as peças do tabuleiro macro estão se rearranjando.

Por que o petróleo em queda favorece o ouro

O barril de Brent chegou a cair brevemente abaixo de US$ 80, impulsionado pelo otimismo em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, indicou a possibilidade de um acordo “entre hoje e amanhã” para a reabertura total do Estreito de Ormuz, a principal rota de exportação de petróleo do Oriente Médio.

Quando o petróleo recua, o mercado interpreta que as pressões inflacionárias perdem força. Isso reduz a necessidade de o Federal Reserve manter uma postura agressiva nos juros, o que por sua vez diminui o custo de oportunidade de manter ouro na carteira. O metal não paga juros nem dividendos, então seu principal concorrente são os títulos do governo americano.

Na semana passada, os Treasuries renovaram máximas históricas nos rendimentos após o Fed manter os juros inalterados. Mas o alívio veio rápido: com a perspectiva de petróleo mais barato e negociações diplomáticas avançando, os yields recuaram e abriram caminho para o ouro respirar.

Mercado de trabalho dos EUA dá sinais de desaceleração

Outro fator que impulsionou o metal foi o relatório Jolts, que mede a abertura de vagas de emprego nos Estados Unidos. O dado de junho mostrou 7,359 milhões de postos abertos, abaixo da projeção de 7,4 milhões da FactSet. Pode parecer uma diferença pequena, mas o mercado lê esse tipo de sinal com lupa.

Vagas em queda sugerem um mercado de trabalho menos aquecido, o que historicamente antecede cortes de juros pelo Fed. E cortes de juros são combustível para o ouro, porque reduzem a atratividade dos títulos de renda fixa e enfraquecem o dólar.

A semana ainda reserva dois dados cruciais. O relatório ADP, que mede empregos no setor privado, sai amanhã. Na sexta-feira, é a vez do payroll, o dado de emprego mais observado pelo Federal Reserve. O consenso aponta para a criação de 80 mil vagas em julho, uma desaceleração significativa em relação às 57 mil de junho, com a taxa de desemprego estável em 4,2%.

Se o payroll confirmar a tendência de arrefecimento, o debate sobre o início do ciclo de cortes de juros ganha força imediata, o que tende a beneficiar tanto o ouro quanto outros ativos de risco.

Goldman Sachs aponta ponto de entrada atraente

O Goldman Sachs divulgou avaliação afirmando que o nível atual do ouro oferece um ponto de entrada “atraente” para investidores. O argumento central do banco é que a demanda por ouro dos bancos centrais, especialmente da China, deve se reacelerar nos próximos meses.

A tese não é nova, mas ganhou corpo em 2024 e segue relevante. Bancos centrais de países emergentes têm diversificado reservas, reduzindo exposição ao dólar e aumentando posições em ouro. A China lidera esse movimento. Segundo dados do World Gold Council, os bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas de ouro pelo terceiro ano consecutivo em 2024.

Os analistas do Goldman reconhecem que pode haver “pressão temporária de baixa proveniente do mercado de juros”, mas argumentam que a demanda estrutural dos bancos centrais funciona como um piso para os preços. Em outras palavras: mesmo que os Treasuries voltem a pressionar no curto prazo, o ouro tem compradores institucionais de peso sustentando a cotação.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Para quem investe no Brasil, o ouro em alta tem implicações diretas e indiretas. A direta é óbvia: quem tem exposição ao metal via ETFs ou contratos futuros se beneficia. Fundos como o GOLD11, listado na B3, acompanham a variação do ouro em dólar, o que significa que o investidor brasileiro também leva a valorização (ou desvalorização) cambial no pacote.

A implicação indireta é mais sutil, mas igualmente importante. Um ouro em alta sustentada costuma refletir um ambiente global de incerteza, onde investidores buscam proteção contra riscos geopolíticos e monetários. É um termômetro. Quando o metal sobe com consistência, vale prestar atenção ao que está acontecendo debaixo da superfície.

O cenário atual combina negociações geopolíticas sensíveis no Oriente Médio, um mercado de trabalho americano que dá sinais de fadiga e bancos centrais acumulando reservas em ouro. Cada um desses fatores isoladamente já moveria o mercado. Juntos, formam a base para o que pode ser um novo ciclo de valorização do metal dourado.

O dado do payroll de sexta-feira será o próximo teste. Se confirmar a desaceleração esperada, o ouro pode buscar novos patamares acima de US$ 4.200. Se surpreender para cima, a correção pode ser igualmente rápida. A volatilidade é o preço de entrada nesse mercado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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