Criptomoedas

Open USD: a stablecoin com Visa e Mastercard por trás

A OUSD chega ao mercado com quase 90% do lastro em Treasuries e apoio de gigantes de pagamentos. Mas polêmicas com parcerias questionadas acendem um alerta.

Open USD: a stablecoin com Visa e Mastercard por trás
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O mercado de stablecoins ganhou uma nova concorrente de peso. A Open Standard lançou oficialmente a Open USD (OUSD), uma stablecoin pareada ao dólar que já estreia com valor de mercado de US$ 668 milhões e nomes como Visa, Mastercard, Coinbase e Stripe entre seus apoiadores. Com quase 90% do lastro alocado em títulos do Tesouro americano (Treasuries), o projeto se posiciona como uma infraestrutura voltada para o uso corporativo e institucional.

O ativo está disponível nas redes Ethereum, Solana, Base e Tempo, com negociação aberta em corretoras como Coinbase, Kraken e na exchange descentralizada Uniswap. As reservas são custodiadas por BlackRock, Lead Bank e BNY, três dos maiores nomes do mercado financeiro global. É um arranjo pensado para transmitir credibilidade institucional desde o primeiro dia.

Mas nem tudo são flores. A trajetória até o lançamento trouxe ruídos importantes que merecem atenção de quem acompanha o setor.

O que é a Open USD e por que ela importa para o mercado de stablecoins

A Open USD foi anunciada originalmente em junho deste ano, quando a Open Standard afirmou que cerca de 140 empresas apoiavam a iniciativa. Entre os nomes citados estavam Google, BlackRock, Samsung Electronics e IBM. O projeto se diferencia de concorrentes como USDT (Tether) e USDC (Circle) ao se apresentar explicitamente como uma “superinfraestrutura” para uso corporativo.

Segundo a Open Standard, a OUSD foi desenvolvida para casos de uso em serviços bancários, pagamentos internacionais, liquidação e negociação institucional. A proposta é que empresas consigam utilizar stablecoins com a mesma facilidade com que operam moedas fiduciárias, mas com custos menores e velocidade superior.

A emissão da OUSD é feita pela Bridge, empresa que faz parte da Stripe, uma das maiores processadoras de pagamentos do mundo. Dados compartilhados pela Bridge mostram que 88,4% do lastro está em Treasuries, o que coloca o ativo em linha com as melhores práticas de transparência do setor de stablecoins.

O modelo econômico também tenta se diferenciar. Plataformas que mais utilizam o ativo recebem quase toda a receita gerada pelas reservas. Isso cria um incentivo para que exchanges e fintechs integrem a OUSD em seus sistemas, funcionando como uma espécie de programa de recompensas para distribuidores.

A polêmica das parcerias sul-coreanas e o que ela revela

Antes de celebrar a lista impressionante de apoiadores, vale lembrar de um episódio que reduziu a euforia do mercado. Dias após o anúncio de junho, diversas empresas sul-coreanas declararam publicamente que não foram consultadas pela Open Standard sobre a inclusão de seus nomes como parceiras do projeto.

Entre as companhias que negaram envolvimento estavam Samsung Electronics, Hanwha Group, Shinhan Financial Group, Dunamu (controladora da exchange Upbit) e Hyundai Card. São nomes de peso no cenário corporativo asiático, e o episódio levantou questionamentos legítimos sobre a governança e a comunicação da Open Standard.

Esse tipo de situação não é inédito no mercado cripto, mas ganha contornos mais graves quando o projeto se posiciona como “institucional”. A credibilidade é o ativo mais valioso para uma stablecoin, como já analisamos em materiais anteriores sobre o funcionamento desses ativos. Sem confiança, o lastro em Treasuries vira apenas um detalhe técnico.

É importante notar que, no lançamento oficial, a Open Standard focou a comunicação nos parceiros confirmados: Mastercard, Stripe, Visa e Coinbase. A menção às empresas sul-coreanas desapareceu dos materiais oficiais, o que sugere um ajuste de rota.

Como a OUSD se posiciona frente a USDT e USDC

O mercado de stablecoins movimenta mais de US$ 230 bilhões em capitalização total. A Tether (USDT) lidera com folga, seguida pela USDC da Circle. A entrada da OUSD com US$ 668 milhões a coloca entre as 20 maiores do segmento, mas ainda distante das líderes.

O diferencial estratégico está no modelo de distribuição. Enquanto USDT e USDC dependem de aceitação orgânica no mercado, a OUSD nasce dentro do ecossistema de pagamentos da Stripe e com a chancela das duas maiores bandeiras de cartão do mundo. Isso significa acesso direto a uma rede de milhões de comerciantes e instituições financeiras.

Outro ponto relevante é a composição do lastro. Com 88,4% em Treasuries americanos, a OUSD está alinhada com a tendência regulatória que exige reservas em ativos de alta liquidez e baixo risco. A Tether, por exemplo, enfrentou anos de questionamentos sobre a qualidade de suas reservas antes de migrar majoritariamente para títulos do Tesouro dos EUA.

Para o investidor brasileiro, a dinâmica das stablecoins impacta diretamente o acesso ao dólar digital e as condições regulatórias que moldam esse mercado no país. Quanto mais competição entre emissores de stablecoins, maior tende a ser a transparência e a eficiência do setor como um todo.

O que observar nos próximos meses

O lançamento da OUSD representa uma aposta de que o mercado de stablecoins ainda não está consolidado. Apesar do domínio da Tether, a entrada de players do sistema financeiro tradicional sinaliza que a próxima fase de crescimento virá da adoção corporativa, não do varejo cripto.

Três fatores merecem acompanhamento. Primeiro, a velocidade de integração com os sistemas de pagamento de Visa e Mastercard. Se a OUSD de fato entrar nos trilhos de liquidação dessas redes, o potencial de escala é significativo. Segundo, a evolução da transparência das reservas, que precisa se manter em nível elevado para sustentar a credibilidade. Terceiro, a clareza sobre quem realmente apoia o projeto, um tema que a polêmica sul-coreana tornou inescapável.

O mercado de stablecoins é uma das verticais mais relevantes do ecossistema cripto porque conecta diretamente o mundo das finanças tradicionais com a infraestrutura blockchain. A OUSD não é apenas mais uma stablecoin. É um teste de quanto o sistema financeiro incumbente está disposto a migrar para trilhos descentralizados, e de quanto o mercado cripto está preparado para receber esses players sem abrir mão da transparência que o setor exige.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…