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Do subsolo ao portfólio: o que são terras raras e por que o investidor precisa entendê-las

Esses 17 elementos químicos movem a indústria de semicondutores, veículos elétricos e defesa. Entenda o que torna as terras raras um ativo geopolítico e como o Brasil entra nessa corrida.

Do subsolo ao portfólio: o que são terras raras e por que o investidor precisa entendê-las

A disputa comercial entre Estados Unidos e China recolocou um termo técnico no centro das manchetes financeiras. O que são terras raras? Para quem acompanha mercados, a resposta vai muito além da química: envolve cadeias de suprimento, risco geopolítico e oportunidades de investimento que começam a se abrir no Brasil.

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, os 15 lantanídeos mais ítrio e escândio, que, apesar do nome, não são geologicamente escassos, mas cuja extração e refino concentrados tornam sua cadeia de suprimento um fator estratégico global para indústrias de alta tecnologia, defesa e transição energética.

Como funcionam as terras raras na prática?

Os 17 elementos compartilham propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas que os tornam insubstituíveis em aplicações modernas. O neodímio e o praseodímio, por exemplo, compõem os ímãs permanentes de motores de veículos elétricos e turbinas eólicas. O európio e o térbio aparecem em telas de dispositivos eletrônicos. Já o cério é usado em catalisadores automotivos e processos de polimento de vidros ópticos.

O nome “terras raras” induz ao erro. Os depósitos existem em dezenas de países. O gargalo real está no refino: transformar o minério bruto em óxidos de alta pureza exige processos químicos intensivos, capital pesado e licenciamento ambiental complexo. Segundo o U.S. Geological Survey (USGS), a China respondeu por cerca de 70% da mineração global e por aproximadamente 90% do processamento de terras raras em 2024. Essa concentração cria um ponto único de falha na cadeia produtiva mundial.

O mercado de terras raras movimentou cerca de US$ 5,5 bilhões em 2023, um valor modesto se comparado ao de commodities como minério de ferro. Mas o impacto é desproporcional ao volume: sem esses elementos, linhas de produção de chips, mísseis guiados e geradores eólicos simplesmente param.

Por que as terras raras importam para o investidor brasileiro?

O Brasil possui a terceira maior reserva conhecida de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas em recursos estimados, de acordo com dados do USGS. Apesar disso, a produção nacional ainda é incipiente. A Serra Verde Mineração, no interior de Goiás, iniciou operações comerciais em 2024, tornando-se um dos poucos projetos integrados fora da China. Na cobertura do BlockTrends, observamos que o interesse de investidores institucionais pelo setor mineral estratégico brasileiro cresceu visivelmente após as restrições de exportação impostas por Pequim em 2023 e 2024.

Na B3, a exposição direta a terras raras ainda é limitada. Não há, até o momento, ação pura de terras raras listada no pregão. O investidor brasileiro que busca esse tema acaba recorrendo a ETFs estrangeiros, como o VanEck Rare Earth/Strategic Metals ETF (REMX), listado nos EUA, ou a ações de mineradoras listadas em Toronto e Sydney. Isso implica câmbio, tributação sobre ganho de capital no exterior e declaração obrigatória à Receita Federal para posições acima de R$ 1 milhão em ativos no exterior, conforme a Lei 14.754/2023.

No âmbito regulatório, a Agência Nacional de Mineração (ANM) tem ampliado o mapeamento geológico de depósitos no Nordeste e em Minas Gerais. O governo federal incluiu terras raras na lista de minerais estratégicos do Plano Nacional de Mineração, sinalizando incentivos futuros para beneficiamento local. Para o investidor atento, o cenário lembra o estágio inicial do lítio há uma década: reservas abundantes, cadeia de valor por construir e potencial de valorização de longo prazo.

O que são terras raras? Um mito que precisa cair

Existe uma percepção comum de que terras raras são materiais quase inexistentes na crosta terrestre. Isso é falso. O cério, por exemplo, é mais abundante que o cobre. A questão nunca foi escassez geológica, e sim concentração industrial. Como destacou Guillaume Pitron, jornalista francês e autor de A Guerra dos Metais Raros: “O problema não é encontrar terras raras. O problema é que decidimos, durante décadas, deixar que um único país dominasse toda a cadeia.”

Essa concentração cria risco sistêmico. Quando a China restringiu exportações de gálio e germânio em 2023, os preços de alguns óxidos de terras raras saltaram dois dígitos em semanas. Para portfólios expostos a tecnologia, energia limpa ou defesa, ignorar esse fator de risco é cada vez mais difícil.

Quais são as principais aplicações das terras raras?

  • Ímãs permanentes (neodímio-ferro-boro): motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos.
  • Catalisadores: refino de petróleo, conversores catalíticos automotivos.
  • Fósforos e luminescentes: telas de LED, iluminação de alta eficiência.
  • Ligas metálicas: baterias de níquel-hidreto metálico, componentes aeronáuticos.
  • Vidros especiais: lentes ópticas, fibra óptica, polimento industrial.
  • Defesa: sistemas de guiagem de mísseis, sonares, comunicações por satélite.

O denominador comum é claro: cada aplicação está no centro de megatendências que direcionam fluxos de capital nas próximas décadas. Veículos elétricos, transição energética, digitalização e soberania tecnológica dependem desses elementos. E o investidor que compreende a cadeia de suprimento ganha uma vantagem analítica real sobre quem olha apenas para o produto final.

Leia também: O que é lítio e por que ele importa para investidores · Como investir em commodities pelo Brasil · O que são ETFs e como funcionam

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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