Economia

O país campeão mundial em capitalismo de laços

Apesar dos intensos esforços por parte do Estado brasileiro, o título de país em que para enriquecer no mundo dos negócios é preciso ser “mais amigo do Rei” é de outro país.

As notícias sobre política e economia brasileira na última década passaram a ser retratadas também nas páginas policiais. Como desvendado pelas investigações da Operação Lava Jato, empresários bem relacionados com o governo receberam injeção de capital, subsídios e diversos privilégios a partir de assuntos pertinentes ao Código Penal.

Antes de todos esses fatos serem revelados, o professor Sérgio Lazzarini já expunha a complexidade da operação na obra “Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões”. Sim, donos do Brasil, pois em um ambiente composto pelo chamado crony capitalism, capitalismo de laços ou ainda capitalismo de compadrio, há um sistema que se realiza mediante a criação de alianças e emaranhados comerciais estabelecidos entre grupos privados com o governo.

Entre os principais exemplos estão os empréstimos subsidiados pelo BNDES, uma conta que, de acordo com o Tribunal de Contas da União, o brasileiro pagará até 2060.

Entre os exemplos de ações do capitalismo de laços estão empresas pressionam governos para a concessão de favores na forma de monopólios, subsídios, créditos tributários ou empréstimos com juros baixos, ou extorsão por parte de autoridades políticas em relação ao empresariado. Frequentemente, os favores também se dão na forma de regulações e leis que criam barreiras de entradas, isto é, restringem ou impedem a entrada de novas empresas.

O problema desse sistema é que ao minar a competitividade de uma economia de mercado, os serviços disponíveis para a população ofertados pelo mercado privado não são os melhores ou mais baratos. As vencedoras não são as companhias mais produtivas, mas aquelas cujos donos são “amigos do rei”.

O país campeão mundial de capitalismo de laços

A The Economist possui o crony-capitalism index, índice que calcula o impacto do capitalismo de compadrio em cada país. A premissa do relatório é que as políticas políticas favoráveis proporcionadas por governos favorecem o aumento da riqueza dos magnatas.

E o país campeão mundial de acordo com a edição de 2021 é a Rússia, seguida por Malásia, Singapura, Filipinas e Ucrânia. O Brasil está na 12º colocação, à frente da vizinha Argentina.

De acordo com o internacionalista e professor da FAAP Carlos Gustavo Poggio, o resultado é uma herança da União Soviética. “Com o colapso do regime, grupos que eram muito poderosos aproveitaram a transição para mudarem de atividade, mas continuaram agregados ao Estado Russo, que é um grande provedor de riquezas.

Ele explica que países autoritários tendem a ter esse processo de extrativismo econômico estatal mais consolidado.

“O líder autoritário depende menos do apoio da população para se manter no poder, mas de manter a elite feliz. Ele precisa do apoio de um círculo de poder, de políticos, generais, oligarcas, etc”, afirma. “Isso significa que grande parte da riqueza de um oligarca russo depende de quão perto ele está de Vladimir Putin”, complementa.

Isso significa que não é possível enriquecer na Rússia? “Não, é possível, mas a partir de certo ponto de enriquecimento, a cleptocracia russa deve agir para extrair parte dessa riqueza. Isso se não incomodar Putin, claro”, diz.

Os números da The Economist mostram que cerca de 70% dos 120 bilionários russos se enquadram na definição de capitalismo de laços. “A riqueza equivalente a 28% do PIB da Rússia em 2021 veio de setores de compadrio, acima dos 18% em 2016”, de acordo com o report.

Ainda há casos simbólicos de como bilionários em países autocráticos são vulneráveis ​​aos caprichos de seus líderes. Em 2003 Mikhail Khodorkovsky era proprietário da petrolífera Yukos, e tinha uma fortuna avaliada em 15 bilhões de dólares.

Contudo, ao se desentender com Putin, Khodorkóvski foi preso e condenado a 10 anos por corrupção, fraude contábil, sonegação de impostos e evasão de divisas, com sua empresa sendo expropriada.

O internacionalista afirma ainda que o fato da economia russa não ser muito diversificada — com a pauta de exportações sendo composta por produtos primários e commodities — contribui para o capitalismo de laços.

Não há sinal de enfraquecimento desse sistema na Rússia, e, com o conflito com a Ucrânia, Poggio analisa que a tendência é que haja intensificação deste. Afinal, Putin acabou com os últimos vestígios de imprensa livre no país, um fator que contribui para o capitalismo de laços.

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