Nvidia a 14x lucro: por que o Safra vê 52% de alta
Banco vê Nvidia negociando abaixo do múltiplo do S&P 500 mesmo com receita potencial de US$ 1 trilhão até 2029. Compromissos de fornecimento já somam US$ 279 bilhões.
A Nvidia negocia hoje a cerca de 14 vezes o lucro projetado para o ano fiscal de 2028. O S&P 500, índice que reúne as maiores empresas dos Estados Unidos, negocia a aproximadamente 19 vezes. Essa discrepância é o ponto central da tese do banco Safra, que acaba de elevar o preço-alvo da ação de US$ 320 para US$ 350, enxergando um potencial de valorização de 52% sobre a cotação atual, próxima de US$ 230.
A revisão acontece num momento em que parte do mercado ainda debate se há uma bolha de inteligência artificial. O Safra argumenta que o mercado já precifica as preocupações, mas subestima a capacidade de geração de lucro da companhia nos próximos anos.
Compromissos de fornecimento saltaram 134% em um trimestre
O dado mais expressivo do relatório é a evolução dos compromissos de fornecimento da Nvidia. Em um único trimestre, esses compromissos saltaram de aproximadamente US$ 119 bilhões para US$ 279 bilhões, com potencial de alcançar US$ 350 bilhões. Mais da metade desse montante está ligado a componentes de memória, peça essencial para o processamento de modelos de IA.
Esse crescimento reflete a demanda crescente por infraestrutura voltada à chamada IA agêntica, uma categoria de inteligência artificial capaz de executar tarefas de forma autônoma, sem intervenção humana constante. É o tipo de aplicação que exige volumes massivos de processamento paralelo, justamente o que os chips da Nvidia entregam.
A corrida por infraestrutura de IA se tornou o principal vetor de crescimento para fabricantes de semicondutores. Empresas como Microsoft, Google e Amazon seguem ampliando investimentos em data centers, o que sustenta a demanda por GPUs de última geração.
Receita de US$ 1 trilhão no horizonte
O modelo do Safra projeta que a Nvidia pode atingir receita próxima de US$ 1 trilhão e lucro por ação de cerca de US$ 23 até o ano fiscal de 2029, utilizando o padrão contábil GAAP. Para o ano fiscal de 2028, a previsão de crescimento de receita gira em torno de 70%, número que o próprio banco considera conservador.
Segundo o relatório, clientes da Nvidia indicam que a receita poderia chegar a quase o dobro desse patamar, caso a empresa consiga ampliar sua capacidade produtiva. Esse é o gargalo: não falta demanda, falta capacidade de entrega.
As margens brutas GAAP foram revisadas para 73,7% no ano fiscal de 2027 e 72,4% em 2028. A leve compressão reflete custos de insumos mais elevados que a companhia está absorvendo parcialmente. A estratégia é manter um custo total de propriedade atraente para os clientes, preservando a posição dominante no mercado de aceleradores.
Para quem acompanha a dinâmica do setor de tecnologia, essa decisão de sacrificar margem para reter participação de mercado é um padrão clássico de empresas que operam com vantagem competitiva estrutural.
Os riscos que o mercado monitora
Nem tudo é convicção. O relatório lista uma série de riscos concretos que podem comprometer a tese. O primeiro é a possibilidade de uma implantação mais lenta da infraestrutura de IA. Se os grandes clientes desacelerarem investimentos em data centers, o pipeline de receita da Nvidia encolhe.
Há também o risco de insuficiência de capacidade para componentes críticos. Memória HBM, substratos, wafers e embalagens avançadas são insumos com cadeia de fornecimento concentrada. Qualquer gargalo nessa cadeia impacta diretamente a produção.
Outro ponto relevante é a inflação de custos, que pode ultrapassar o previsto nos acordos de longo prazo firmados com fornecedores. A Nvidia já absorve parte desse aumento, mas há um limite para essa estratégia antes que as margens comecem a deteriorar de forma mais significativa.
A crescente adoção de aceleradores personalizados por grandes clientes de nuvem, como os chips Trainium da Amazon e os TPUs do Google, representa um risco competitivo real. Esses chips proprietários podem reduzir a dependência dos clientes em relação à Nvidia, corroendo participação de mercado no médio prazo.
Por fim, restrições geopolíticas continuam no radar. Os controles de exportação dos Estados Unidos para a China já limitaram vendas da Nvidia naquele mercado, e novas restrições podem surgir dependendo do cenário político. Como analisamos em matérias sobre o impacto de tensões comerciais nos mercados, esse tipo de risco é difícil de precificar e pode se materializar rapidamente.
Descontada ou armadilha de valor?
A questão central para o investidor é se o múltiplo de 14 vezes lucro representa uma oportunidade genuína ou uma armadilha. Em favor da tese de desconto, pesa o fato de que a Nvidia entrega crescimento de receita na casa dos 70% ao ano, com margens brutas acima de 72% e geração de caixa superior à de praticamente todas as empresas de tecnologia listadas.
Contra, pesa a concentração de receita em um único ciclo tecnológico. Se a demanda por IA se provar menos duradoura do que o mercado espera, ou se a competição por aceleradores personalizado ganhar tração mais rápido que o previsto, o crescimento desacelera e o múltiplo atual deixa de parecer barato.
O Safra claramente aposta no primeiro cenário. A elevação do preço-alvo para US$ 350, com 52% de potencial de alta, é uma das teses mais otimistas entre os grandes bancos de investimento para a Nvidia neste momento. Os números de compromissos de fornecimento parecem sustentar essa visão. Resta saber se a execução acompanha a demanda.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
