Nvidia puxa Nasdaq, mas só 8 ações do Dow Jones fecham em alta
Resultados da Nvidia dissiparam temores sobre IA e levaram o Nasdaq a subir 1,57%. Mas a fragilidade do Dow Jones revela um mercado mais seletivo do que parece.
Wall Street viveu nesta quinta-feira, 27 de agosto, uma sessão que resume bem o momento dos mercados americanos: euforia concentrada em poucas ações de tecnologia enquanto a maioria dos papéis fica para trás. A Nvidia subiu 8,74% após elevar suas projeções de lucro, puxando o Nasdaq para uma alta de 1,57%. Mas no Dow Jones, apenas 8 das 30 ações componentes fecharam no positivo.
O fenômeno tem nome no jargão do mercado: amplitude negativa. É quando o índice sobe, mas sustentado por um punhado de empresas, enquanto a maioria dos papéis recua. Para quem acompanha a saúde real do mercado, é um sinal de alerta que merece atenção.
Nvidia e o apetite insaciável por IA
O grande motor da sessão foram os resultados trimestrais da Nvidia. A fabricante de chips elevou projeções de receita e lucro, sinalizando que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial segue acelerada. O Bank of America reiterou recomendação de compra com preço-alvo de US$ 350 e elevou suas estimativas de lucro por ação para os anos fiscais de 2028 e 2029 entre 19% e 28%. A projeção do banco aponta para um lucro por ação acima de US$ 31 no ano civil de 2030, ante os US$ 25 estimados anteriormente.
O papel da Nvidia fechou a US$ 227,98. O efeito cascata beneficiou outras empresas do ecossistema de semicondutores: Intel subiu 4,4% e Broadcom avançou 4,5%. A Marvell Technology, que divulgaria balanço após o pregão, foi a exceção e recuou 1,5%.
Como analisamos em nossa cobertura de mercados, a concentração de ganhos em chipmakers não é novidade neste ciclo. Desde o início do boom de IA generativa, a Nvidia sozinha respondeu por uma fatia desproporcional da valorização dos índices americanos.
Salesforce dispara 22,6% com parceria com Anthropic
O destaque individual do S&P 500 não foi a Nvidia, mas a Salesforce. A empresa de software corporativo subiu 22,6%, a maior alta porcentual do índice, após reportar resultados do segundo trimestre acima das projeções e anunciar uma expansão de parceria com a Anthropic, desenvolvedora do modelo de IA Claude.
O movimento reforça uma tese que temos acompanhado: o mercado está começando a precificar não apenas quem fabrica os chips de IA, mas quem consegue transformar a tecnologia em receita recorrente no software. A Salesforce é um caso emblemático dessa transição. Empresas de cibersegurança também surfaram a onda: Okta subiu 28,6%, CrowdStrike avançou 20,5% e Palo Alto Networks ganhou 13,6%, todas impulsionadas por balanços fortes.
Essa movimentação corrobora o que discutimos sobre a corrida das big techs por integrar IA em seus produtos. O investidor que olha apenas para chipmakers pode estar perdendo uma parte importante da tese.
Amplitude negativa: o que o Dow Jones revela sobre a saúde do mercado
Enquanto o Nasdaq celebrava, o Dow Jones mal se sustentou no azul. O índice subiu modestos 0,20%, fechando aos 53.568,55 pontos. Mas o número esconde uma realidade desconfortável: 22 das 30 ações do índice terminaram em queda. Os ganhos vieram quase exclusivamente de Salesforce, Nvidia, IBM, Microsoft e Apple.
Amplitude negativa é um indicador técnico que historicamente antecede correções. Quando poucos papéis sustentam o índice, significa que o capital está extremamente concentrado, e qualquer tropeço dessas empresas pode derrubar tudo. Em ciclos anteriores, como no topo de 2021, a amplitude se estreitou semanas antes de o mercado virar.
Isso não significa que uma correção é iminente. Mas sugere que a alta atual tem fundações mais estreitas do que os números dos índices sugerem. Para o investidor que monta posição via ETFs de índice, é importante entender que a exposição real está muito mais concentrada em tecnologia e IA do que a diversificação aparente indica.
Jackson Hole e o fator Fed na sexta-feira
Parte da cautela que pesou sobre a maioria das ações do Dow Jones está ligada ao Simpósio de Jackson Hole. Na sexta-feira, 28, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, fará seu discurso principal. O mercado busca pistas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos, especialmente após dados recentes mostrarem um mercado de trabalho ainda resiliente.
Warsh assumiu a presidência do Fed em um momento delicado. A economia americana segue crescendo, o desemprego está baixo e a inflação, embora tenha recuado dos picos, ainda não deu ao banco central americano conforto total para cortes agressivos. Como abordamos em nossa seção de finanças, a política monetária dos EUA segue como principal variável macro para mercados globais, incluindo o Brasil.
No front doméstico, dados de emprego divulgados na quinta mostraram um mercado de trabalho brasileiro ainda resiliente, o que adiciona complexidade ao cenário para o Banco Central local.
O que isso significa para o investidor
A sessão de quinta-feira ilustra um dilema que o investidor enfrenta em 2026. A tese de IA continua gerando retornos expressivos para quem está posicionado nos nomes certos. Nvidia, Salesforce e empresas de cibersegurança são prova disso. Mas o mercado amplo não está acompanhando.
O S&P 500 avançou 0,72%, fechando a 7.730,85 pontos. O número é positivo, mas a dispersão dos retornos é enorme. Quem está comprado em ações defensivas, industriais ou de consumo não participou da festa. É um mercado que premia precisão na seleção de ativos e penaliza a generalização.
O discurso de Warsh em Jackson Hole pode ser o catalisador que define se essa dinâmica se mantém ou se o mercado busca uma rotação mais ampla. Por ora, a mensagem é clara: Wall Street confia na IA, mas desconfia do resto.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
