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Criptomoedas

Nubank suspende saques cripto: o que se sabe até agora

Nubank travou saques e depósitos de cripto no app sem dar explicações. A interrupção levanta dúvidas sobre custódia e infraestrutura da NuCripto.

Nubank suspende saques cripto: o que se sabe até agora
Foto: Leeloo The First / Unsplash

Na manhã desta sexta-feira (6), usuários do Nubank se depararam com um aviso incomum no aplicativo: os serviços de depósito e saque de criptomoedas estão temporariamente suspensos. A fintech limitou-se a informar, por meio de uma mensagem no próprio app, que está trabalhando para restabelecer as funcionalidades. Sem comunicado oficial, sem nota à imprensa, sem prazo definido.

A falta de transparência chama atenção justamente pelo tamanho da operação. O Nubank é o maior banco digital da América Latina, com mais de 100 milhões de clientes, e a NuCripto se tornou uma das portas de entrada mais populares para brasileiros que querem comprar bitcoin, ethereum, solana, XRP e a stablecoin USDC, entre outros ativos digitais.

O que está parado e o que continua funcionando

É importante separar o que a suspensão significa na prática. Pelo aviso exibido no app, as funcionalidades travadas são depósitos e saques, ou seja, a movimentação de criptomoedas entre carteiras externas e a conta do usuário na NuCripto. Isso não necessariamente impede a compra e venda de ativos dentro do próprio aplicativo, que opera em modelo de corretora integrada.

Ainda assim, a restrição é relevante. Para quem utiliza o Nubank como ponte entre exchanges descentralizadas e o sistema bancário tradicional, a impossibilidade de sacar ou depositar cripto representa uma trava operacional significativa. Quem precisava mover bitcoin para uma hardware wallet ou receber um pagamento em USDC, por exemplo, ficou sem alternativa dentro da plataforma.

A empresa não respondeu a solicitações de esclarecimento até o momento da publicação, o que torna difícil avaliar se o problema é técnico, regulatório ou relacionado a algum parceiro de infraestrutura.

A questão da custódia e dos parceiros ocultos

Um ponto que merece atenção é a estrutura operacional da NuCripto. Nos termos e condições do serviço, o Nubank declara que pode utilizar parceiros para atividades como custódia, gestão de carteiras e fornecimento de liquidez em ativos virtuais. Mas não especifica quais são esses parceiros.

Essa opacidade é um problema antigo no mercado cripto brasileiro. Como já abordamos em nossa cobertura sobre regulação de criptomoedas no Brasil, a ausência de obrigatoriedade de divulgação de custodiantes terceirizados cria uma assimetria de informação entre a plataforma e o usuário. O cliente sabe que tem, digamos, 0,5 BTC na conta, mas não sabe exatamente onde esse ativo está guardado nem sob responsabilidade de qual empresa.

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Se o problema atual estiver relacionado a um desses parceiros de custódia ou liquidez, o silêncio do Nubank se torna ainda mais problemático. Episódios como o colapso da FTX em 2022 mostraram que a falta de clareza sobre onde os ativos dos clientes estão efetivamente custodiados pode ter consequências devastadoras.

Não há, até o momento, qualquer indício de que a situação do Nubank envolva risco aos fundos dos clientes. Mas a ausência de comunicação formal alimenta especulação desnecessária.

O que o Marco Legal das Criptomoedas exige

O Brasil aprovou o Marco Legal das Criptomoedas em 2022, e o Banco Central vem trabalhando na regulamentação específica para prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs). Um dos pontos centrais em discussão é justamente a segregação patrimonial, que obriga plataformas a separar os ativos dos clientes dos ativos próprios da empresa.

A regulamentação completa ainda está em fase de implementação, mas o espírito da norma aponta exatamente para situações como esta: o usuário deveria ter direito a saber, em tempo real, onde seus ativos estão e por que não pode movimentá-los.

Plataformas que operam com cripto no Brasil, sejam exchanges nativas como Mercado Bitcoin e Foxbit ou fintechs como o Nubank, precisarão se adequar a padrões mais rígidos de transparência operacional nos próximos meses. Eventos como a suspensão desta sexta-feira reforçam a urgência dessa adequação.

O que o episódio revela sobre cripto em bancos digitais

A entrada de grandes bancos digitais no mercado cripto foi celebrada como um passo de popularização. E de fato é. O Nubank trouxe milhões de brasileiros para o contato com bitcoin e ethereum de forma simplificada, sem a necessidade de criar conta em exchanges especializadas ou lidar com chaves privadas.

Mas essa simplificação tem um custo. Como já analisamos em matérias sobre o avanço das fintechs no mercado de investimentos, plataformas que oferecem cripto como mais um produto dentro de um superapp tendem a abstrair justamente o que torna cripto diferente: a possibilidade de autocustódia, de verificação on-chain e de soberania sobre os próprios ativos.

Quando tudo funciona, a experiência é fluida. Quando algo para, como nesta sexta-feira, o usuário percebe que não tem controle algum sobre a situação. Não pode verificar o status na blockchain, não pode mover seus ativos para outra carteira, não pode fazer nada além de esperar o app voltar a funcionar.

Esse trade-off entre conveniência e controle é uma decisão legítima de cada investidor. Mas é uma decisão que precisa ser informada, e o Nubank deveria tratar esse tipo de interrupção com muito mais transparência do que uma mensagem genérica no aplicativo.

O que esperar nos próximos dias

O cenário mais provável é que a suspensão seja resolvida em poucas horas ou dias, tratando-se de um problema técnico pontual. O Nubank tem capital, equipe e incentivo comercial para restabelecer o serviço rapidamente.

O ponto que permanece, independentemente da velocidade da resolução, é o padrão de comunicação. Uma empresa que atende mais de 100 milhões de pessoas e movimenta ativos digitais de milhões delas não pode tratar uma suspensão de serviços financeiros com o mesmo protocolo de um app de delivery fora do ar.

Para o investidor que utiliza a NuCripto, o episódio serve como lembrete prático: entender como funciona a custódia dos seus ativos digitais não é paranoia. É gestão de risco básica.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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