Criptomoedas

MPF denuncia brasileiros por tráfico humano ligado a golpes cripto

Ministério Público Federal denunciou brasileiros e um chinês por enviar 17 pessoas ao Camboja para operar golpes com criptomoedas. Caso revela rede global.

MPF denuncia brasileiros por tráfico humano ligado a golpes cripto
Foto: Tima Miroshnichenko / Unsplash

O Ministério Público Federal denunciou um grupo de brasileiros e um cidadão chinês por tráfico internacional de 17 pessoas com destino ao Camboja. As vítimas foram levadas sob falsas promessas de emprego e acabaram forçadas a operar em centrais de golpes que usavam criptomoedas como fachada. O caso é o primeiro de grande porte no Brasil ligado aos chamados “scam compounds” do sudeste asiático, estruturas criminosas que se tornaram uma crise humanitária global.

A denúncia, revelada inicialmente pelo portal LiveCoins, expõe uma engrenagem que conecta o crime organizado brasileiro a redes transnacionais de fraude digital. E mostra como as criptomoedas, por sua natureza descentralizada e pseudônima, continuam sendo o instrumento preferido dessas operações.

O que são os scam compounds e por que crescem na Ásia

Os scam compounds são complexos físicos, geralmente localizados no Camboja, Mianmar e Laos, onde centenas ou milhares de pessoas são mantidas em regime análogo à escravidão para aplicar golpes financeiros online. As vítimas, recrutadas em países como Brasil, Índia, Filipinas e diversos países africanos, acreditam estar indo para empregos legítimos em tecnologia ou atendimento ao cliente.

Ao chegar, têm passaportes confiscados e são obrigadas a operar falsos esquemas de investimento, geralmente usando plataformas de criptomoedas fraudulentas. Quem se recusa ou não atinge metas de “faturamento” sofre violência física, privação de alimentos e, em casos extremos, é revendido para outros compostos.

Segundo estimativas da ONU, mais de 200 mil pessoas estavam retidas nesses centros no sudeste asiático até o final de 2025. O dinheiro movimentado por essas operações chega a bilhões de dólares anuais, com as criptomoedas funcionando como via principal de transferência de recursos, justamente por dispensarem intermediários bancários tradicionais. Como abordamos em nossa cobertura sobre criptomoedas, o uso ilícito de ativos digitais segue sendo um dos maiores desafios regulatórios do setor.

O caso brasileiro: como a rede operava

De acordo com a denúncia do MPF, o grupo recrutava vítimas brasileiras por meio de anúncios em redes sociais prometendo salários de até US$ 3 mil mensais para trabalhar com “marketing digital” no exterior. As passagens e vistos eram providenciados pelos aliciadores. Uma vez no Camboja, as vítimas descobriam a verdadeira natureza do trabalho.

As falsas corretoras operadas pelas vítimas eram desenhadas para parecer plataformas legítimas de negociação de criptomoedas. Os golpes seguiam o modelo “pig butchering”, em que os operadores constroem relacionamentos de confiança com alvos por semanas ou meses antes de induzi-los a depositar valores crescentes em plataformas que nunca permitem saques reais.

O envolvimento de um cidadão chinês na operação não surpreende. Redes criminosas de origem chinesa são consideradas as principais operadoras dos scam compounds no sudeste asiático, segundo relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A novidade é a extensão do recrutamento ao Brasil, o que indica que as redes estão expandindo seus tentáculos para a América Latina.

A resposta regulatória e o papel das exchanges

O caso chega em um momento em que o Brasil intensifica esforços regulatórios sobre criptomoedas. A regulamentação aprovada em 2022 e implementada pelo Banco Central desde 2024 exige que exchanges operando no país cumpram regras de prevenção à lavagem de dinheiro e identificação de clientes (KYC). Como destacamos em nossa cobertura sobre regulação financeira, essas medidas visam justamente dificultar o uso de cripto para fins ilícitos.

Mas os scam compounds operam majoritariamente fora do sistema regulado. As plataformas usadas nos golpes são criadas do zero, sem registro em nenhuma jurisdição, e os recursos são movimentados por meio de stablecoins como USDT na rede Tron, que oferece transações baratas e difíceis de rastrear. Segundo a empresa de análise blockchain Chainalysis, a Tron concentrou mais de 45% de todas as transações ilícitas com criptomoedas em 2025.

Paralelamente, como reportamos em matérias recentes sobre regulação cripto na Ásia, países como Mianmar começam a adotar medidas drásticas. O governo birmanês propôs pena de morte para operadores de golpes cripto, uma resposta extrema à pressão internacional e ao impacto dos scam compounds na imagem do país.

O que o caso revela sobre o lado sombrio das criptomoedas

É tentador olhar para este caso como algo isolado, mas os dados sugerem o contrário. O FBI estimou que apenas nos Estados Unidos as perdas com golpes tipo “pig butchering” atingiram US$ 5,6 bilhões em 2023, um aumento de 38% em relação ao ano anterior. Em 2025, o número pode ter ultrapassado US$ 8 bilhões globalmente, segundo projeções da Global Anti-Scam Organization.

Para o ecossistema cripto, o problema é reputacional e regulatório. Cada caso de tráfico humano vinculado a criptomoedas fortalece o argumento de legisladores que defendem restrições mais severas sobre o setor. Nos Estados Unidos, o projeto de lei sobre estrutura de mercado cripto ainda enfrenta obstáculos no Senado, e casos como o brasileiro alimentam a narrativa de que a indústria não consegue se autorregular.

A denúncia do MPF é um passo importante, mas o desafio é estrutural. Enquanto houver assimetria regulatória entre países e demanda por mão de obra barata para operar golpes em escala industrial, os scam compounds continuarão existindo. E as criptomoedas, enquanto ferramenta neutra, continuarão sendo exploradas por quem busca operar fora do alcance da lei.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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