Michael Burry compara IA à bolha pontocom: faz sentido?
O investidor que previu a crise de 2008 vê exagero na euforia com inteligência artificial. Mas os fundamentos de 2025 são os mesmos de 2000?
Michael Burry, o gestor que ficou famoso por apostar contra o mercado imobiliário americano antes do colapso de 2008, voltou a soar o alarme. Desta vez, o alvo é a inteligência artificial. Segundo ele, o entusiasmo atual com IA se parece com o “frenesi” que precedeu o estouro da bolha das empresas pontocom no início dos anos 2000.
A tese dele não é nova, mas ganha peso num momento em que a Nasdaq acumula alta expressiva e as maiores empresas do mundo concentram trilhões de dólares de valor de mercado em promessas ligadas a modelos de linguagem, chips e infraestrutura de dados. A pergunta que importa: a comparação se sustenta quando olhamos para os números?
O que Burry está dizendo sobre IA e a bolha pontocom
O argumento central de Burry é comportamental. Ele enxerga no ciclo atual de IA os mesmos sinais que marcaram 1999 e 2000: narrativa dominante, fluxo massivo de capital para um único tema e valuations descolados da geração de receita real. Na bolha pontocom, empresas sem faturamento relevante atingiam capitalizações bilionárias apenas por terem “.com” no nome.
Hoje, o paralelo seria com companhias que adicionam “IA” ao pitch para investidores. Há dados que sustentam parte dessa visão. Segundo levantamento da Goldman Sachs, as sete maiores empresas de tecnologia dos EUA, as chamadas “Magnificent Seven”, respondem por cerca de 30% de todo o valor do S&P 500. Essa concentração é superior à verificada no pico da bolha de 2000.
No entanto, como analisamos em nossa cobertura de finanças, concentração de mercado por si só não indica bolha. Indica risco, sim, mas o contexto importa.
Os fundamentos de hoje são diferentes dos de 2000?
A diferença mais óbvia está nos lucros. Em 2000, a Cisco negociava a mais de 150 vezes o lucro. A maioria das empresas de internet queimava caixa sem horizonte claro de rentabilidade. A Pets.com, símbolo da era, nunca deu lucro.
Em contraste, as big techs de hoje são máquinas de geração de caixa. A Microsoft reportou receita de US$ 65,6 bilhões no último trimestre, com crescimento de 13% ano contra ano. A Nvidia, epicentro do trade de IA, saiu de US$ 26 bilhões em receita anual em 2023 para mais de US$ 130 bilhões projetados para o ano fiscal de 2026. São múltiplos elevados, mas sobre bases reais de faturamento.
O múltiplo preço/lucro forward do S&P 500 gira em torno de 21 vezes. No pico de março de 2000, esse número chegou a 27 vezes. Há prêmio, mas não é o mesmo exagero.
Outro ponto relevante: as taxas de juros. A bolha pontocom estourou com os juros americanos subindo para 6,5%. Hoje, com o Fed mantendo a taxa entre 4,25% e 4,50%, o custo do dinheiro é menor do que no auge de 2000, embora muito superior ao período pós-pandemia que inflou valuations de growth stocks.
Onde Burry pode estar certo: o risco do capex descontrolado
Se os lucros das big techs são reais, o risco mora no que elas estão fazendo com esse dinheiro. As quatro maiores empresas de tecnologia devem investir, juntas, mais de US$ 300 bilhões em infraestrutura de IA somente neste ano. São data centers, chips, energia e refrigeração em escala sem precedentes.
A pergunta que o mercado ainda não respondeu é: esse investimento se paga? Meta, Google e Microsoft competem entre si para construir capacidade de IA, mas a monetização ainda depende em grande parte de publicidade e assinaturas corporativas. Se a receita incremental de IA não acompanhar o ritmo dos gastos, as margens vão comprimir, e os múltiplos atuais deixam pouco espaço para decepção.
É exatamente esse o ponto que gestores como Burry tentam explorar. Não se trata de dizer que IA não funciona, mas que o mercado está precificando um cenário otimista demais, rápido demais. Como discutimos ao analisar os movimentos do setor de tecnologia, a história mostra que tecnologias transformadoras frequentemente geram bolhas de investimento antes de entregar retorno.
O que o investidor brasileiro deve observar
Para quem investe do Brasil, o debate tem implicações diretas. Fundos internacionais, BDRs e ETFs de tecnologia compõem parcela crescente das carteiras de investidores locais. Segundo dados da B3, o número de investidores com exposição a ativos internacionais cresceu 40% nos últimos dois anos.
Uma correção nas big techs americanas teria efeito cascata em portfólios globais, incluindo os brasileiros. Vale lembrar que, como acompanhamos nas últimas semanas, o Ibovespa já opera pressionado por fatores domésticos, e uma queda adicional vinda do exterior ampliaria a volatilidade.
Burry errou o timing diversas vezes ao longo da carreira, mas sua lógica de base costuma ser sólida. O consenso de que “IA muda tudo” pode ser verdadeiro sem que isso signifique que os preços atuais estejam corretos. A diferença entre uma tecnologia transformadora e um bom investimento é, quase sempre, o preço de entrada.
Bolha ou correção saudável? O cenário mais provável
A maioria dos estrategistas de Wall Street não espera um colapso estilo 2000, mas sim rotação setorial. O Bank of America identificou fluxo crescente para setores de valor, como energia e financeiro, sugerindo que parte do mercado já está se reposicionando. O próprio Burry, segundo documentos regulatórios, mantém posições vendidas em ETFs de tecnologia, mas também carrega apostas compradas em setores ligados a commodities.
O cenário base não é de estouro, mas de compressão de múltiplos. Se a Nvidia negociar a 25 vezes o lucro em vez de 35, a ação pode cair 25% sem que nada de errado aconteça nos fundamentos. E é exatamente esse tipo de ajuste que pega desprevenido quem entrou no trade de IA sem margem de segurança.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.