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Finanças

Meta queima caixa com IA e arrasta Nasdaq: o que está em jogo

A Meta superou expectativas de receita, mas queimou caixa pela primeira vez em mais de dez anos. O mercado puniu, e o Nasdaq caiu 2%. O problema vai além de uma empresa.

Meta queima caixa com IA e arrasta Nasdaq: o que está em jogo
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

O balanço da Meta no primeiro trimestre trouxe números que, isoladamente, pareciam sólidos: receita de US$ 64,6 bilhões, alta de 26% na comparação anual. Mesmo assim, as ações caíram quase 7% na sessão de quinta-feira e ajudaram a puxar o Nasdaq para uma queda de 2%. O que explica a reação do mercado não é o topo da demonstração de resultados, mas o que aparece mais abaixo: os gastos com infraestrutura de inteligência artificial consumiram tanto capital que a empresa registrou sua primeira queima de caixa em mais de uma década.

O lucro por ação ficou em US$ 3,83, bem abaixo dos US$ 5,75 que analistas esperavam. A diferença entre superar a expectativa de receita e decepcionar no lucro tem um nome: custo de capital. E é exatamente aí que o debate sobre o futuro das big techs se concentra agora.

Por que o mercado puniu uma receita recorde da Meta

Wall Street vive uma tensão crescente entre duas narrativas. De um lado, a corrida por dominância em inteligência artificial exige investimentos massivos em chips, data centers e infraestrutura. Do outro, esses ativos se depreciam em cinco ou seis anos, o que significa que as empresas precisam reinvestir continuamente apenas para manter a competitividade.

A Meta é o exemplo mais visível desse dilema. A empresa está gastando bilhões para treinar modelos de IA e integrar recursos de inteligência artificial ao Instagram, Facebook e WhatsApp. Mas cada dólar investido em GPUs e servidores é um dólar que não vira lucro distribuível no curto prazo. Especialistas do setor apontam que essa onda de endividamento deixa as companhias vulneráveis a qualquer queda brusca na demanda por serviços de IA, como já discutimos na cobertura de tecnologia do portal.

A Tesla seguiu caminho parecido. Mesmo superando expectativas no balanço, as ações recuaram 3% na sessão. O padrão sugere que o mercado está reavaliando o prêmio que paga por promessas de crescimento futuro quando o custo presente é tão elevado.

Nasdaq cai enquanto Dow Jones se recupera: dois mercados em um

O pregão de quinta-feira ilustrou uma divergência cada vez mais nítida dentro de Wall Street. Enquanto o Nasdaq recuou 2%, pressionado pelas big techs, o Dow Jones conseguiu inverter o sinal para o positivo na reta final da sessão. O gatilho foi a assinatura, pela Casa Branca, de uma ordem executiva voltada à redução dos custos de habitação nos Estados Unidos.

Essa divergência não é acidental. Setores mais tradicionais da economia americana, como construção civil, indústria e consumo, respondem a estímulos regulatórios concretos. Já as ações de tecnologia estão cada vez mais atreladas a uma variável difícil de precificar: o retorno futuro de investimentos em IA que ainda não geraram receita proporcional ao capital empregado.

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Para o investidor brasileiro que acompanha Wall Street, essa divisão importa. O desempenho do S&P 500, referência para diversos ETFs e fundos locais, depende cada vez mais de como o mercado resolve essa equação entre gasto presente e receita futura das big techs. Como detalhamos em nossa cobertura de finanças, a composição dos índices americanos torna praticamente impossível ignorar o peso dessas empresas.

Mercado de trabalho forte, mas juros parados

No cenário macroeconômico, os dados de emprego dos Estados Unidos continuaram mostrando resiliência. Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego caíram para 194 mil na semana encerrada em 17 de outubro, próximo ao menor nível desde 1969 (189 mil, registrado em julho). Economistas esperavam 200 mil pedidos.

Apesar da força do mercado de trabalho, as apostas sobre a política monetária do Federal Reserve não mudaram. A ferramenta FedWatch do CME Group indicava 92,8% de probabilidade de manutenção dos juros na faixa de 3,75% a 4,00% na reunião da próxima semana. Para dezembro, 81,3% do mercado aposta em ao menos uma elevação de 25 pontos-base.

Esse cenário de juros elevados por mais tempo pesa diretamente sobre as ações de crescimento. Empresas como a Meta, que precisam de capital barato para financiar seus planos de expansão em IA, enfrentam um ambiente de custo de dívida que não colabora. Os yields dos Treasuries de longo prazo até tiveram alívio na sessão, com investidores buscando segurança, mas a tendência de fundo continua sendo de juros estruturalmente mais altos do que o mercado se acostumou na última década.

O dilema dos chips que envelhecem

Um ponto que recebe pouca atenção, mas que pode definir os próximos trimestres das big techs, é a depreciação acelerada dos chips de IA. GPUs de última geração, como as da Nvidia, têm ciclo de vida útil estimado entre cinco e seis anos. Isso significa que as empresas que estão comprando hardware agora precisarão substituí-lo antes mesmo de amortizar totalmente o investimento.

Para a Meta, que está em plena fase de expansão de data centers, isso cria um ciclo de capex permanente. É como comprar um carro que perde metade do valor em três anos, mas que você precisa ter para trabalhar. A questão é: a receita gerada pelos serviços de IA vai justificar esse gasto recorrente?

Por enquanto, o mercado está dizendo que não tem certeza. E quando Wall Street não tem certeza, vende primeiro e pergunta depois. A reação ao balanço da Meta, mesmo com receita 26% maior, é prova disso. Quem investe em ações de tecnologia, seja diretamente ou via fundos e ETFs disponíveis no Brasil, precisa incorporar esse risco à tese.

O que isso significa para quem investe

A sessão de quinta-feira em Wall Street não foi sobre uma empresa específica. Foi sobre uma pergunta que o mercado ainda não respondeu: quanto vale a promessa de retorno da inteligência artificial quando o custo para participar da corrida é tão alto?

A Meta gastou tanto que queimou caixa pela primeira vez desde a era pré-smartphone. A Tesla caiu mesmo superando expectativas. O Dow Jones subiu por causa de uma ordem executiva sobre habitação, não por entusiasmo com tecnologia. São sinais de que o mercado está começando a separar, com mais rigor, as empresas que geram caixa das que prometem gerá-lo no futuro.

Para o investidor brasileiro exposto a ativos americanos, a lição é de cautela seletiva. Nem toda ação de tecnologia é igual, e os próximos balanços vão determinar quais empresas conseguem transformar gastos bilionários em IA em receita real. Até lá, volatilidade é o preço do ingresso.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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