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Meta vai usar IA para estimar idade de usuários pelo corpo

Meta anuncia sistema de IA que analisa proporções corporais para detectar se usuários são menores de idade. Entenda o que muda e os riscos envolvidos.

Meta vai usar IA para estimar idade de usuários pelo corpo
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

A Meta anunciou que passará a usar inteligência artificial para analisar características físicas como altura e estrutura óssea de seus usuários. O objetivo é identificar automaticamente se a pessoa por trás da conta é menor de idade, mesmo que tenha declarado uma data de nascimento falsa no momento do cadastro.

A medida chega em um momento de pressão regulatória global sobre a presença de crianças e adolescentes em redes sociais. Nos Estados Unidos, ao menos 14 estados já aprovaram ou estão tramitando legislações que exigem verificação etária obrigatória em plataformas digitais. Na Europa, o Digital Services Act impõe obrigações semelhantes desde o ano passado.

Como funciona o sistema de detecção de idade da Meta

A tecnologia funciona a partir de modelos de visão computacional treinados para estimar a faixa etária com base em proporções corporais visíveis em fotos e vídeos. Diferentemente de sistemas de reconhecimento facial, a Meta afirma que o modelo não identifica rostos individualmente, mas sim padrões anatômicos associados a diferentes estágios de desenvolvimento.

Na prática, o sistema analisa elementos como a proporção entre tronco e membros, largura dos ombros e outras características que mudam durante a puberdade. Se o algoritmo detectar sinais de que o usuário pode ter menos de 13 anos (idade mínima para uso do Instagram e Facebook), a conta seria direcionada para um fluxo de verificação adicional.

A empresa não detalhou publicamente a taxa de acurácia do modelo, mas afirmou em comunicado que os testes internos mostram resultados “significativamente superiores” à autodeclaração de idade, que hoje é a principal barreira de entrada. Como mostramos em coberturas anteriores sobre regulação de big techs, a autodeclaração é amplamente burlada por menores que simplesmente inserem uma data de nascimento falsa.

A tensão entre proteção infantil e privacidade

O anúncio reacende um debate que acompanha o setor de tecnologia há anos: até onde as plataformas podem ir na coleta e análise de dados biométricos em nome da segurança?

Organizações de defesa da privacidade já se manifestaram com ressalvas. A Electronic Frontier Foundation (EFF) publicou nota argumentando que qualquer sistema de estimativa de idade baseado em características físicas cria, inevitavelmente, um banco de dados biométricos que pode ser explorado para outros fins. O risco não é apenas teórico. Em 2023, a própria Meta pagou US$ 1,4 bilhão ao estado do Texas em um acordo sobre coleta irregular de dados faciais.

Do outro lado, legisladores argumentam que a inação tem um custo alto. Dados do Surgeon General dos Estados Unidos, divulgados em relatório de 2024, associam o uso intenso de redes sociais por menores de 14 anos a um aumento de 25% em índices de ansiedade e depressão. Na Austrália, a legislação foi mais radical: o país proibiu o uso de redes sociais por menores de 16 anos, obrigando plataformas a encontrarem mecanismos efetivos de verificação.

O que isso significa para o modelo de negócio da Meta

A decisão não é puramente altruísta. A Meta tem motivos financeiros concretos para antecipar soluções de verificação etária antes que governos imponham suas próprias regras, potencialmente mais restritivas e custosas.

Hoje, a receita publicitária da Meta depende de dados comportamentais granulares. Se reguladores forçarem a adoção de sistemas de verificação de terceiros, como documentos de identidade ou bases governamentais, a empresa perde controle sobre o fluxo de onboarding dos usuários. Ao desenvolver uma solução proprietária, a Meta mantém o processo dentro de seu ecossistema.

Segundo estimativas do banco Morgan Stanley, a faixa de 13 a 17 anos representa cerca de 8% da base ativa do Instagram globalmente, o que equivale a algo em torno de 160 milhões de contas. Restringir ou remover contas que não atendam ao critério etário teria impacto direto nas métricas de engajamento, mas poderia, paradoxalmente, aumentar o valor da base remanescente para anunciantes que evitam associação com conteúdo voltado a menores.

Como analisamos na cobertura sobre os avanços da IA generativa no setor de big techs, o investimento da Meta em modelos de visão computacional serve a múltiplos propósitos. A mesma infraestrutura usada para verificação etária alimenta sistemas de moderação de conteúdo, filtros de realidade aumentada e até análise de produtos em marketplaces.

Contexto regulatório no Brasil

No Brasil, a discussão também avança. O projeto de lei que regulamenta o uso de redes sociais por menores foi aprovado pelo Senado no início de 2025 e aguarda sanção. O texto prevê que plataformas com mais de 10 milhões de usuários no país implementem mecanismos de verificação etária “efetivos e proporcionais”, sem especificar a tecnologia.

Segundo dados do Cetic.br, 95% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos são usuários de internet, e 78% possuem perfil em ao menos uma rede social. A fiscalização, no entanto, é praticamente inexistente. A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) ainda não publicou diretrizes específicas sobre o uso de dados biométricos para verificação etária, o que deixa um vácuo jurídico.

Para investidores que acompanham o setor de tecnologia, o ponto central é entender que a pressão regulatória sobre verificação etária não vai diminuir. A questão é se as big techs conseguirão propor soluções que atendam reguladores sem destruir a experiência do usuário ou criar novos riscos de privacidade. A Meta aposta que a resposta está na IA. Se vai funcionar, é outra história.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.
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