Meta cria ação sem voto para financiar aposta em IA
Meta planeja emitir ações sem direito a voto para captar recursos e bancar sua corrida pela IA, preservando o controle de Zuckerberg sobre a empresa.
A Meta encontrou uma forma de levantar capital para sua ofensiva em inteligência artificial sem que Mark Zuckerberg precise abrir mão de um milímetro de controle sobre a empresa. A companhia anunciou a criação de uma nova classe de ações sem direito a voto, que serão distribuídas inicialmente como dividendos aos acionistas existentes e poderão ser usadas para captar recursos no mercado, remunerar funcionários e financiar aquisições.
O movimento acontece no mesmo trimestre em que a Meta reportou receita de 64 bilhões de dólares, alta de 26% na comparação anual. Os números superaram as expectativas de Wall Street, mas vieram acompanhados de um salto de 68% nos custos e despesas. É nesse contexto que a nova classe de ações ganha sentido: a conta da IA está chegando, e Zuckerberg precisa de mais ferramentas financeiras para pagá-la.
Por que a Meta precisa de uma nova classe de ações
A estrutura atual da Meta já concentra poder nas mãos do fundador. Zuckerberg detém ações Classe B, com dez vezes mais poder de voto que as ações Classe A negociadas em bolsa. Qualquer emissão adicional de ações Classe A diluiria proporcionalmente esse controle. As novas ações sem voto eliminam esse risco.
Susan Li, diretora financeira da Meta, foi direta ao explicar a lógica: a nova classe de ações foi criada com o propósito de ser um instrumento negociado publicamente, utilizável para captação de recursos, compensação de funcionários e aquisições, preservando o poder de voto dos acionistas existentes das Classes A e B.
Na prática, a Meta está replicando um modelo que outras big techs já adotaram. A Alphabet, controladora do Google, tem três classes de ações, incluindo uma sem direito a voto (Classe C, ticker GOOG). A estratégia permite que fundadores levantem bilhões no mercado sem ceder governança. Como analisamos em matérias anteriores sobre o movimento das big techs em direção à IA, o padrão se repete: empresas concentram controle enquanto expandem investimentos.
A conta da inteligência artificial está pesada
Os gastos da Meta com IA não param de crescer. A divisão Reality Labs, responsável por óculos de realidade aumentada, headsets de realidade virtual e software associado, continua deficitária. A empresa projeta prejuízos entre 18 bilhões e 19 bilhões de dólares nessa divisão, uma redução em relação aos níveis de 2025, mas ainda um rombo significativo.
Ao mesmo tempo, a companhia acelerou o lançamento de produtos de IA ao longo do último ano. A família de modelos Muse inclui o Muse Spark, Muse Glimmer, Muse Wonder e uma versão open-weight do Muse Spark, cujos parâmetros são publicamente acessíveis. A Meta também lançou o Muse Code, um agente de programação voltado para desenvolvedores de software.
Os resultados iniciais parecem encorajadores. Segundo Zuckerberg, mais de 10 milhões de pessoas nos Estados Unidos e no Canadá configuraram agentes pessoais do Muse em apenas um mês e meio. O aplicativo tem figurado como número um na App Store quase diariamente. “Agora que o Muse tem um claro ajuste produto-mercado, estamos entrando em uma nova fase operacional focada em escalar”, afirmou o CEO.
A ambição declarada é servir bilhões de pessoas. Para uma empresa que já tem quase 4 bilhões de usuários mensais em suas plataformas, o desafio não é alcance, mas monetização. E escalar IA para bilhões de usuários exige investimentos em infraestrutura que tornam os gastos atuais modestos em comparação. O tema de financiamento de grandes apostas tecnológicas tem se tornado central para o mercado financeiro em 2025.
O que muda para o investidor
Do ponto de vista de quem investe, a nova classe de ações cria uma dinâmica interessante. Ações sem voto costumam ser negociadas com desconto em relação às ações com voto, como acontece com a Alphabet. A diferença de preço reflete exatamente o valor que o mercado atribui ao direito de voto, que, no caso da Meta, já é praticamente irrelevante para acionistas minoritários dado o controle absoluto de Zuckerberg.
A emissão dessas ações também sinaliza que a Meta pode estar se preparando para movimentos maiores de captação ou aquisição. Com um instrumento específico para esse fim, a empresa ganha flexibilidade para agir rapidamente quando oportunidades surgirem, sem precisar passar por processos de aprovação complexos que envolvam diluição de voto.
Há, contudo, riscos no horizonte. A própria Meta reconheceu que questões regulatórias e legais seguem como nuvens carregadas. Processos relacionados à proteção de jovens estão agendados nos próximos meses nos Estados Unidos, e o escrutínio sobre o tema se intensifica em diversos mercados. Como discutimos em nossa cobertura sobre regulação de big techs, o ambiente regulatório pode impactar diretamente a capacidade dessas empresas de monetizar novos produtos.
O padrão do Vale do Silício: crescer sem perder controle
A decisão da Meta se insere em uma tendência mais ampla do setor de tecnologia. Fundadores querem manter o controle absoluto sobre suas empresas mesmo quando precisam do mercado para financiar apostas de longo prazo. A estrutura de múltiplas classes de ações é o instrumento preferido para isso.
O modelo tem críticos. Especialistas em governança corporativa argumentam que a ausência de mecanismos de controle por parte dos acionistas pode levar a decisões de alocação de capital questionáveis. O próprio investimento da Meta no metaverso, que já consumiu dezenas de bilhões de dólares, é citado como exemplo.
Para Zuckerberg, porém, o argumento é o oposto: foi justamente o controle concentrado que permitiu à empresa fazer apostas de longo prazo, incluindo a migração para IA, sem a pressão de investidores focados no curto prazo. Com receita trimestral de 64 bilhões de dólares e crescimento de 26%, os resultados, por enquanto, dão respaldo a essa tese.
O que resta saber é se a conta da IA, que cresce a cada trimestre, continuará sendo sustentável mesmo com as novas ferramentas de captação. Para o investidor, o recado é claro: a Meta está dobrando a aposta em inteligência artificial, e Zuckerberg não pretende pedir permissão a ninguém para isso.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


