Três maiores bancos do Japão se unem para lançar stablecoin atrelada ao iene japonês
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Megabancos do Japão se unem para stablecoin do iene

MUFG, SMBC e Mizuho planejam stablecoin conjunta para pagamentos domésticos e internacionais. O Japão tenta evitar a dolarização digital de sua economia.

Megabancos do Japão se unem para stablecoin do iene
Foto: Vic Lee / Unsplash

Os três maiores bancos do Japão, Mitsubishi UFJ (MUFG), Sumitomo Mitsui (SMBC) e Mizuho, anunciaram que vão desenvolver em conjunto uma stablecoin atrelada ao iene japonês. O projeto visa criar uma infraestrutura de pagamentos digitais unificada, tanto para transações domésticas quanto para o comércio internacional.

A notícia é relevante não apenas pelo peso dos envolvidos, que juntos somam mais de US$ 7 trilhões em ativos, mas pelo que representa em termos de estratégia nacional. O Japão é a quarta maior economia do mundo e vê na stablecoin do iene uma forma de manter a soberania monetária em um mercado dominado por tokens dolarizados.

Por que o Japão quer uma stablecoin própria

Atualmente, mais de 98% do mercado global de stablecoins é denominado em dólar americano. USDT (Tether) e USDC (Circle) somam juntas cerca de US$ 230 bilhões em circulação. Para países que não querem que seus sistemas de pagamento dependam indiretamente da moeda americana, isso é um problema.

O Japão já enfrenta desafios com a desvalorização do iene, que perdeu cerca de 30% frente ao dólar desde 2021. Se as stablecoins dolarizadas se tornarem o padrão para transações digitais na Ásia, o uso do iene como moeda de referência regional pode diminuir ainda mais.

A decisão dos megabancos japoneses reflete uma leitura pragmática: se a tokenização de moedas é inevitável, é melhor liderar o processo do que reagir a ele. Como acompanhamos na cobertura de criptomoedas, a competição entre moedas digitais soberanas e stablecoins privadas está se intensificando globalmente.

Estrutura do projeto e regulação japonesa

Diferentemente de muitas stablecoins que operam em zonas regulatórias cinzentas, o projeto japonês nasce sob um arcabouço legal já existente. O Japão aprovou em 2023 uma emenda à Lei de Serviços de Pagamento que criou regras específicas para emissores de stablecoins, exigindo que sejam instituições financeiras reguladas e que mantenham reservas integrais em ienes.

Os três bancos vão operar sob essa legislação, o que dá ao projeto uma camada de credibilidade que a maioria das stablecoins privadas não possui. Cada banco já conduzia iniciativas individuais. O MUFG desenvolveu o Progmat, uma plataforma de tokenização de ativos. O SMBC investiu em parcerias com fintechs de pagamentos blockchain. O Mizuho já testava soluções de custódia cripto.

A união dos três sinaliza que a escala necessária para competir com USDT e USDC exige colaboração, não competição interna. Segundo fontes da imprensa japonesa, o objetivo é lançar uma versão piloto até o final de 2026, com integração a redes de pagamento existentes como JCB e a rede interbancária Zengin.

Contexto asiático: corrida por stablecoins regionais

O Japão não está sozinho nessa corrida. Singapura, através do MAS (Monetary Authority of Singapore), já aprovou múltiplos emissores de stablecoins em dólar de Singapura. Hong Kong está desenvolvendo seu próprio framework regulatório para tokens atrelados ao dólar de Hong Kong. E a China, embora tenha banido criptomoedas, avança com o yuan digital (e-CNY) em escala massiva.

O banco DBS, de Singapura, anunciou nesta semana que vai oferecer ouro tokenizado para clientes de varejo, mostrando como a tokenização de ativos financeiros tradicionais está se normalizando entre os grandes bancos asiáticos.

A diferença do projeto japonês é a escala potencial. O Japão movimenta cerca de US$ 4,9 trilhões em PIB anual, e seus bancos possuem redes de correspondentes em mais de 80 países. Uma stablecoin do iene operando nessas redes poderia se tornar a primeira alternativa relevante à hegemonia das stablecoins dolarizadas.

O que isso significa para o mercado de stablecoins

O mercado global de stablecoins cresceu 47% em 12 meses e ultrapassou US$ 240 bilhões em capitalização total. Até agora, esse crescimento beneficiou quase exclusivamente o dólar. Cada dólar em stablecoin circulando globalmente é, na prática, uma extensão da política monetária americana.

Se o projeto japonês funcionar, ele pode inspirar movimentos semelhantes na Europa (onde o euro digital ainda enfrenta atrasos), no Reino Unido e até no Brasil. O Banco Central brasileiro já sinalizou, no contexto do Drex, que a tokenização da moeda é prioridade estratégica.

Para investidores em criptomoedas, a entrada dos megabancos japoneses valida a tese de que stablecoins são a ponte entre o sistema financeiro tradicional e a infraestrutura blockchain. Mas também pode significar mais competição para projetos descentralizados, que perdem vantagem quando bancos trilionários entram no jogo com selo regulatório.

Implicações geopolíticas da stablecoin do iene

A dimensão geopolítica do projeto é impossível de ignorar. Os Estados Unidos se beneficiam enormemente da dominância das stablecoins dolarizadas. Cada USDT ou USDC em circulação aumenta a demanda global por títulos do Tesouro americano, já que os emissores mantêm reservas majoritariamente em treasuries.

O Japão, embora aliado geopolítico dos EUA, tem interesse em diversificar os mecanismos de liquidação comercial na Ásia. Uma stablecoin do iene poderia facilitar o comércio bilateral com parceiros como Vietnã, Tailândia e Indonésia, reduzindo custos de conversão e a dependência do dólar como moeda veículo.

A pergunta que fica é se três bancos, por maiores que sejam, conseguem competir com a liquidez e a adoção orgânica que Tether e Circle construíram ao longo de anos. O dólar é a moeda de reserva global por uma razão, e a dominância das stablecoins dolarizadas reflete essa realidade. Mas se algum país tem a disciplina regulatória e a infraestrutura bancária para tentar, esse país é o Japão.

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Renato Moura

Sobre o autor

Renato Moura

Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.

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