Criptomoedas

Liquidação de US$ 3,4 bi em cripto: o que está por trás do rali

A maior liquidação no mercado cripto desde outubro pegou 195 mil traders de surpresa. O dólar fraco foi o gatilho, mas os dados on-chain contam uma história mais complexa.

Liquidação de US$ 3,4 bi em cripto: o que está por trás do rali
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O mercado de criptomoedas acordou diferente nesta quinta-feira. O Bitcoin rompeu os US$ 70 mil pela primeira vez em 80 dias, o Ethereum saltou acima dos US$ 2.300 e, no rastro do movimento, US$ 3,4 bilhões em posições alavancadas foram varridos do mercado de futuros. Cerca de 195 mil traders foram liquidados em apenas 24 horas, segundo dados da CoinGlass.

É a maior onda de liquidações desde 10 de outubro, quando o mercado registrou o evento mais violento de sua história recente. Mas, diferente daquela vez, o gatilho agora não veio de dentro do ecossistema cripto. Veio do câmbio.

O dólar fraco como catalisador da alta do Bitcoin

O movimento de alta nas criptomoedas coincide com um enfraquecimento generalizado do dólar americano frente a uma cesta de moedas globais. Euro, iene e real, todos ganharam terreno contra a divisa americana nas últimas sessões. Para ativos denominados em dólar, como o Bitcoin, esse tipo de dinâmica funciona como combustível.

Quando o dólar perde força, investidores globais buscam alternativas de reserva de valor e exposição a ativos de risco. Historicamente, o Bitcoin se beneficia desse fluxo, especialmente quando o movimento cambial vem acompanhado de expectativa de política monetária mais frouxa.

O contexto macro reforça essa tese. As próximas reuniões do Federal Reserve estão no radar dos investidores, e leituras recentes de inflação nos Estados Unidos abriram espaço para apostas em cortes de juros mais agressivos. Dólar fraco e expectativa de juros menores formam o cenário ideal para ativos como criptomoedas e ações de tecnologia.

Por que a liquidação foi tão violenta

O dado mais revelador deste episódio não é a alta do Bitcoin em si, mas a composição das liquidações. Mais de 90% dos US$ 3,4 bilhões liquidados eram posições vendidas, ou seja, apostas de que os preços cairiam. O mercado estava excessivamente posicionado para baixo.

Isso explica a velocidade do movimento. Quando o preço começa a subir contra uma base massiva de shorts, as liquidações forçadas amplificam a alta. Cada posição vendida que é encerrada automaticamente se transforma em uma ordem de compra, empurrando o preço ainda mais para cima. É o que traders chamam de “short squeeze”, e foi exatamente o que aconteceu.

A maior liquidação individual foi de US$ 48,8 milhões. Um único trader apostava contra o Bitcoin na plataforma Hyperliquid e foi completamente eliminado. Casos como esse ilustram o risco de alavancagem excessiva, algo que já discutimos amplamente no contexto dos mercados de derivativos.

O índice de medo e ganância, métrica que mede o sentimento do mercado, saltou para a faixa de “ganância”. Não atingia esse nível desde outubro do ano passado, o que sugere que o pessimismo extremo dos últimos meses pode estar se revertendo de forma brusca.

Ethereum, Solana e XRP: o rali não é só do Bitcoin

Embora o Bitcoin tenha liderado o movimento, a alta foi generalizada. O Ethereum chamou atenção ao romper a resistência dos US$ 2.000, um nível técnico que vinha segurando o preço há semanas, e disparou para a faixa dos US$ 2.300. Solana e XRP também registraram ganhos de dois dígitos percentuais.

Esse padrão de alta sincronizada costuma indicar entrada de capital novo no mercado, e não apenas rotação entre ativos. Quando apenas o Bitcoin sobe e as altcoins ficam para trás, normalmente é fluxo institucional concentrado. Quando tudo sobe junto, o dinheiro está entrando pela porta da frente.

Projetos como BNB, Tron e Dogecoin tiveram ganhos mais modestos, entre 1,4% e 9,4%. A diferença de performance entre os ativos sugere que o mercado está sendo seletivo mesmo dentro de um rali amplo, priorizando protocolos com fundamentos mais sólidos e liquidez real.

O que vem pela frente: os riscos que o mercado está ignorando

Apesar da euforia, alguns fatores de risco permanecem no horizonte. Os conflitos no Oriente Médio continuam como variável geopolítica relevante, com potencial de gerar aversão a risco repentina nos mercados globais. Além disso, novas leituras de inflação nos Estados Unidos podem alterar a trajetória esperada para os juros americanos.

O próprio salto no índice de ganância merece atenção. Historicamente, movimentos abruptos de pessimismo para euforia costumam preceder correções de curto prazo. O mercado saiu de um longo período lateral e agora testa máximas de quase três meses. A sustentabilidade do rali vai depender de confirmação por volume e, principalmente, dos dados macroeconômicos das próximas semanas.

Para quem acompanha o mercado de derivativos, vale observar a taxa de funding nos contratos perpétuos. Quando a taxa fica excessivamente positiva após um short squeeze, pode sinalizar que o mercado trocou de lado e agora está sobrecomprado em longs, criando condições para uma liquidação na direção oposta.

O que este episódio deixa claro é que o mercado cripto continua altamente sensível a dinâmicas de alavancagem. A narrativa mudou da noite para o dia: há uma semana, o consenso era de mais lateralização. Agora, o sentimento virou. Em um mercado onde 195 mil traders podem ser liquidados em 24 horas, a velocidade das mudanças é o único dado realmente previsível.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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