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Juros longos dos EUA voltam a subir e derrubam Wall Street

Treasuries longos voltaram a subir mesmo após recompra do Tesouro americano, derrubando os três principais índices de NY e expondo o dilema fiscal dos EUA.

Juros longos dos EUA voltam a subir e derrubam Wall Street
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

Os três principais índices de Nova York fecharam em queda nesta quinta-feira, 20 de agosto. O Dow Jones recuou 1,31%, para 42.762 pontos. O S&P 500 perdeu 0,86%, encerrando em 5.641 pontos. O Nasdaq caiu 1%, a 17.067 pontos.

O gatilho não foi um dado econômico surpreendente, nem uma decisão de política monetária. Foi algo mais estrutural e, por isso mesmo, mais preocupante: os rendimentos dos Treasuries de longo prazo voltaram a subir, mesmo depois de o Departamento do Tesouro americano ter anunciado que dobraria o tamanho das operações de recompra de títulos longos.

O mercado leu a medida como insuficiente diante da trajetória fiscal dos Estados Unidos. E quando o remédio não convence, o sintoma se agrava.

Por que a recompra de Treasuries não segurou os juros longos

A lógica por trás da recompra de títulos longos é simples: o Tesouro retira papel do mercado, reduzindo a oferta e, em tese, aliviando a pressão sobre os rendimentos. É uma tentativa de gestão ativa da curva de juros sem depender do Federal Reserve.

O problema é que o tamanho do endividamento americano já ultrapassou a capacidade dessas ferramentas de surtirem efeito duradouro. Os investidores olham para o déficit fiscal projetado, para a trajetória da dívida pública como proporção do PIB e concluem que compras pontuais não alteram a equação de fundo. O rendimento do Treasury de 30 anos segue próximo das máximas do ano, refletindo um prêmio de risco fiscal cada vez mais evidente.

Para quem acompanha o cenário macroeconômico global, o sinal é claro: o mercado está cobrando mais caro para financiar o governo americano por prazos longos. E isso tem efeito cascata sobre praticamente todas as classes de ativos.

Walmart cai 9% mesmo elevando projeções: o paradoxo das expectativas

O caso do Walmart ilustra bem o ambiente de mercado atual. A maior varejista do mundo elevou pela primeira vez no ano suas metas de lucro e crescimento de vendas. Em qualquer cenário normal, isso seria um catalisador positivo. Mas as ações caíram 9,2%, a maior queda do Dow Jones no dia.

O motivo: os números revisados ficaram abaixo do que Wall Street já precificava. O mercado americano opera com múltiplos esticados há trimestres, e qualquer resultado que não supere expectativas infladas é punido com severidade. É o tipo de dinâmica que aparece em topos de ciclo, quando a margem de erro desaparece.

Do outro lado do espectro, a Deere saltou 8,9%, liderando o S&P 500 após divulgar resultados do terceiro trimestre fiscal acima do esperado. Após meses de pressão sobre o setor agrícola, os números deram algum alívio. Mas o caso da Deere foi exceção, não regra.

Geopolítica e petróleo: a ameaça ao Irã entra na equação

Um fator adicional pesou sobre o sentimento do mercado. O presidente Donald Trump ameaçou isolar financeiramente o Irã, o que elevou o preço do petróleo e beneficiou ações de empresas de energia. ConocoPhillips subiu 3,3%, APA Corp avançou 2,2%, Diamondback Energy ganhou 1,18% e Halliburton fechou em alta de 1,91%.

Petróleo mais caro, num contexto de juros longos em alta, é um combo que pressiona a inflação implícita. E inflação implícita mais alta reforça o ciclo de juros longos elevados. É um loop que dificulta qualquer tentativa de afrouxamento monetário por parte do Fed, como já analisamos em relação ao impacto dos juros sobre ativos de risco.

Ouro, bitcoin e cripto surfam a desconfiança fiscal

Enquanto os índices caíam, dois ativos se destacaram positivamente: ouro e bitcoin. A mineradora Newmont subiu 2%. A Strategy, maior acumuladora corporativa de bitcoin, avançou 7,8%. A Coinbase fechou em alta de 7,6%.

Não é coincidência. Quando o mercado questiona a sustentabilidade fiscal do emissor da moeda de reserva global, ativos que funcionam como alternativa ao dólar ganham tração. O ouro cumpre esse papel há séculos. O bitcoin vem consolidando essa narrativa nos últimos anos.

Além da questão fiscal, o setor cripto recebeu outro impulso: Trump instou o Congresso a aprovar legislação sobre moedas digitais, dando mais visibilidade regulatória ao setor. Para quem acompanha a evolução regulatória das criptomoedas, esse tipo de declaração presidencial tende a acelerar o processo legislativo, mesmo que os detalhes ainda sejam incertos.

Moderna e o perigo da euforia de um dia

A Moderna despencou 23,6%, devolvendo uma fatia do rali de quase 175% registrado na véspera após notícias sobre sua vacina experimental para melanoma. É um lembrete brutal de como funciona o mercado de biotecnologia: a euforia com resultados preliminares pode ser seguida por correções violentas quando a realidade se impõe.

Para o investidor que entrou no papel durante o pico, a perda em um único pregão foi devastadora. Esse tipo de volatilidade reforça a importância de entender a diferença entre especulação de curto prazo e investimento baseado em fundamentos.

O que o investidor deve observar daqui para frente

O cenário que se desenha é de juros longos estruturalmente mais altos nos Estados Unidos, não por decisão do Fed, mas por pressão fiscal. Isso tem implicações diretas para o valuation de ações de crescimento, para o custo de financiamento corporativo e para a atratividade relativa de ativos de risco.

Três variáveis merecem atenção nas próximas semanas: a trajetória dos rendimentos dos Treasuries de 20 e 30 anos, os desdobramentos da pressão geopolítica sobre o Irã e seu impacto no petróleo, e a capacidade do Congresso americano de avançar com alguma disciplina fiscal. Sem progresso nessa última frente, o mercado continuará cobrando prêmio, e as quedas como a desta quinta tendem a se repetir.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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