Finanças

IPO da SpaceX levanta US$ 75 bi e redefine o mercado

A SpaceX precificou suas ações a US$ 135 no maior IPO já registrado. O movimento consolida Elon Musk e redesenha o mapa de grandes aberturas de capital globais.

IPO da SpaceX levanta US$ 75 bi e redefine o mercado
Foto: john mckenna / Unsplash

A SpaceX precificou suas ações a US$ 135 nesta terça-feira, levantando US$ 75 bilhões no que já é o maior IPO da história. O número supera com folga os US$ 29,4 bilhões captados pela Saudi Aramco em 2019, recorde que parecia imbatível. Para o mercado de capitais, a operação não é apenas um marco de tamanho. É um sinal sobre o tipo de empresa que atrai o apetite institucional em 2025.

A operação chega num momento em que o mercado americano oscila entre otimismo com cortes de juros e cautela com valuations esticados. Que uma empresa de foguetes e internet via satélite tenha conseguido esse volume diz algo sobre a direção dos grandes cheques institucionais.

O que o IPO da SpaceX significa para investidores

O valuation implícito da SpaceX após a oferta gira em torno de US$ 350 bilhões, segundo estimativas compiladas pela Bloomberg. Para contextualizar, isso a coloca à frente de empresas como a Boeing (cerca de US$ 140 bilhões em valor de mercado) e próxima do patamar de gigantes como a LVMH.

A demanda foi tão grande que o preço de US$ 135 por ação veio acima da faixa indicativa inicial, que girava entre US$ 110 e US$ 125. Fundos de universidades americanas, como os endowments de Harvard e Yale, estão entre os maiores beneficiados. Muitos tinham exposição prévia via mercado secundário, comprando participações de funcionários a valuations entre US$ 80 bilhões e US$ 180 bilhões nos últimos anos. A precificação do IPO multiplicou essas posições.

A questão central para quem investe é outra: o IPO da SpaceX reabre a janela de grandes ofertas de tecnologia? Desde 2022, o mercado de IPOs esteve praticamente congelado. Se uma operação desse porte encontra demanda robusta, é razoável esperar que outras empresas de capital fechado, como a Stripe e a Databricks, acelerem seus planos. O cenário de finanças globais pode mudar de configuração nos próximos trimestres.

Por que a SpaceX conseguiu o que ninguém conseguia

Três fatores explicam o sucesso da captação. Primeiro, a Starlink. A divisão de internet via satélite da SpaceX já opera com receita anualizada estimada em US$ 12 bilhões, segundo dados da empresa apresentados a investidores durante o roadshow. É um negócio recorrente, com margens crescentes, que dá previsibilidade de caixa ao grupo.

Segundo, o monopólio prático em lançamentos orbitais comerciais. A SpaceX realizou 132 lançamentos em 2025, mais do que todos os outros provedores combinados. A reutilização dos boosters Falcon 9, que já acumula mais de 400 pousos bem-sucedidos, reduziu o custo por quilograma em órbita para uma fração do que era há dez anos.

Terceiro, o efeito Musk. Apesar das controvérsias políticas e do desgaste de imagem em parte da opinião pública, o mercado financeiro continua tratando o fundador da Tesla como um operador de execução incomparável. A presença dele no cap table, com controle efetivo da empresa, foi vendida como um ativo, não como um risco.

A combinação desses elementos criou o que investidores chamam de “ativo de escassez”: não existe outra SpaceX para comprar. Quem queria exposição ao setor aeroespacial privado com esse nível de tração só tinha uma porta de entrada. O setor de tecnologia observa com atenção os desdobramentos.

O que muda no mercado de IPOs a partir de agora

O sucesso da SpaceX tem implicações diretas para a dinâmica de ofertas públicas no segundo semestre. O pipeline de IPOs de tecnologia nos Estados Unidos, que estava represado desde o ciclo de alta de juros entre 2022 e 2024, pode finalmente destravar.

Segundo dados da Renaissance Capital, 2024 registrou apenas 178 IPOs nos EUA, o menor número desde 2009. Em 2025, o ritmo já é maior, com 87 operações até o fim de maio. Mas nenhuma chegou perto do calibre da SpaceX.

Para o investidor brasileiro, a leitura é indireta, mas relevante. Grandes IPOs nos EUA tendem a drenar liquidez de mercados emergentes no curto prazo. Fundos globais que alocaram forte na SpaceX precisaram vender posições em outros lugares para financiar essa aposta. Como mostramos na análise sobre a revisão do Banco Mundial, o cenário macro para emergentes já enfrenta ventos contrários.

Há também um ponto sobre investidores via SPVs (veículos de propósito específico). Segundo reportagem do TechCrunch, investidores que entraram na SpaceX por SPVs não saberão suas participações reais até que os lock-ups pós-IPO expirem. Isso pode gerar volatilidade quando essas travas vencerem, algo que o mercado ainda não está precificando.

O mapa dos mega-IPOs: como a SpaceX se compara

Para dimensionar o feito, vale olhar o ranking histórico. A Saudi Aramco levantou US$ 29,4 bilhões em 2019. O Alibaba captou US$ 25 bilhões em 2014. O SoftBank listou sua divisão de telecomunicações por US$ 23,5 bilhões em 2018. A SpaceX, com US$ 75 bilhões, não apenas superou esses números. Ela criou uma nova categoria.

O paralelo mais honesto talvez não seja com outros IPOs, mas com o que a Apple representou nos anos 1980 ou o Google em 2004: uma empresa que redefine o que significa abrir capital. A diferença é que a SpaceX opera em um setor que, até cinco anos atrás, era considerado ilíquido e arriscado demais para investidores institucionais tradicionais.

O sinal para o mercado é claro. As maiores oportunidades de retorno em bolsa nas próximas décadas podem vir de setores que hoje ainda parecem de nicho: infraestrutura espacial, energia de fusão, computação quântica. O IPO da SpaceX não é o fim de uma história. É o início de um novo capítulo para o mercado de capitais global.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
Continue scrollando para a próxima matéria…